As mãos de Augusto não tremem mais.
Pedro percebe isso antes mesmo de o carro sair do cemitério. O irmão está sentado no banco da Mercedes, os dedos imóveis sobre o tecido escuro da calça.
Pedro não desvia o olhar de Augusto até que chegam à mansão. O portão de ferro se abre lentamente, como se também estivesse de luto.
A mansão dos Merkheisse os recebe com o cheiro de jasmim e poeira, como se não soubesse que seus donos estão mortos.
Pedro solta a gravata enquanto atravessa o hall, tentando organizar a agenda mental: advogado amanhã, auditoria, segurança.
A pilha de cartões de condolências repousa sobre o aparador. Augusto passa direto, sem olhar.
Então, o som. Um piano.
Chopin, Noturno nº 20. A peça que a mãe tocava nas noites de tempestade.
Pedro para no último degrau da escada. Augusto está na sala, costas eretas, olhos fechados. Os dedos não erram. É uma execução impecável demais para ser dele.
A última nota ecoa e morre. Augusto abre os olhos. Estão vazios. Não há tristeza, na realidade, parece não haver nada, apenas indiferença.
Um estalo quebra o silêncio. Não do piano. Desta vez da porta.
Pedro desce. No capacho, um envelope pardo. Nenhum carro, nenhum passo se afastando. Apenas o som distante da chuva.
O nome MERKHEISSE impresso em preto. As letras têm um detalhe nas serifas que acende uma memória vaga. Documentos antigos? Contratos da empresa? Ele não consegue precisar.
— Quem mais tem a chave? — Augusto pergunta. Ele está a menos de um metro, tão próximo que Pedro pode sentir o calor do corpo dele.
Pedro hesita.
— Pouca gente. — Ele responde.
O olhar de Augusto permanece no envelope como se pudesse enxergar seu conteúdo. Pedro se lembra do vidro negro caindo sobre o caixão dos pais.
Um vulto cruza a janela. Pedro tem a nítida sensação de que foi visto. Quando ergue os olhos, o vulto já sumiu.
Augusto percebe sua reação e sorri.
— Abre. — A voz dele é calma, mas soa como uma ordem.
Pedro rompe o lacre. Dentro, apenas uma folha impressa com uma linha de texto:
"Se quiser respostas, procure a mulher que você deixou."
O estômago de Pedro se contrai. Ele não precisa ler duas vezes para entender. Isabela.
Antes que possa reagir, Augusto já se afasta, subindo as escadas.
— Você vai ligar para ela — diz, sem olhar para trás, mas como uma ordem novamente — E descobrir o que nossos pais estavam escondendo!
Pedro o observa desaparecer no corredor. Sente que, de alguma forma, o irmão já sabe o que ele vai fazer, e talvez, até mesmo o que Isabela vai dizer.
Lá fora, o vulto invisível ainda parece estar à espreita. E Pedro tem a estranha certeza de que, a partir deste instante, a linha entre proteger Augusto e proteger o mundo dele acabou de ficar muito tênue.

