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Projeto Quimera
Capítulo Dois: Noturno
482 palavras • 2711 caracteres • ⏱ 1 min 56 s

Capítulo Dois: Noturno

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As mãos de Augusto não tremem mais.


Pedro percebe isso antes mesmo de o carro sair do cemitério. O irmão está sentado no banco da Mercedes, os dedos imóveis sobre o tecido escuro da calça.


Pedro não desvia o olhar de Augusto até que chegam à mansão. O portão de ferro se abre lentamente, como se também estivesse de luto.


A mansão dos Merkheisse os recebe com o cheiro de jasmim e poeira, como se não soubesse que seus donos estão mortos.

Pedro solta a gravata enquanto atravessa o hall, tentando organizar a agenda mental: advogado amanhã, auditoria, segurança.


A pilha de cartões de condolências repousa sobre o aparador. Augusto passa direto, sem olhar.


Então, o som. Um piano.


Chopin, Noturno nº 20. A peça que a mãe tocava nas noites de tempestade.


Pedro para no último degrau da escada. Augusto está na sala, costas eretas, olhos fechados. Os dedos não erram. É uma execução impecável demais para ser dele.


A última nota ecoa e morre. Augusto abre os olhos. Estão vazios. Não há tristeza, na realidade, parece não haver nada, apenas indiferença.


Um estalo quebra o silêncio. Não do piano. Desta vez da porta.


Pedro desce. No capacho, um envelope pardo. Nenhum carro, nenhum passo se afastando. Apenas o som distante da chuva.


O nome MERKHEISSE impresso em preto. As letras têm um detalhe nas serifas que acende uma memória vaga. Documentos antigos? Contratos da empresa? Ele não consegue precisar.


— Quem mais tem a chave? — Augusto pergunta. Ele está a menos de um metro, tão próximo que Pedro pode sentir o calor do corpo dele.

Pedro hesita.


— Pouca gente. — Ele responde.

O olhar de Augusto permanece no envelope como se pudesse enxergar seu conteúdo. Pedro se lembra do vidro negro caindo sobre o caixão dos pais.


Um vulto cruza a janela. Pedro tem a nítida sensação de que foi visto. Quando ergue os olhos, o vulto já sumiu.


Augusto percebe sua reação e sorri.


— Abre. — A voz dele é calma, mas soa como uma ordem.


Pedro rompe o lacre. Dentro, apenas uma folha impressa com uma linha de texto:


"Se quiser respostas, procure a mulher que você deixou."


O estômago de Pedro se contrai. Ele não precisa ler duas vezes para entender. Isabela.


Antes que possa reagir, Augusto já se afasta, subindo as escadas.


— Você vai ligar para ela — diz, sem olhar para trás, mas como uma ordem novamente — E descobrir o que nossos pais estavam escondendo!


Pedro o observa desaparecer no corredor. Sente que, de alguma forma, o irmão já sabe o que ele vai fazer, e talvez, até mesmo o que Isabela vai dizer.


Lá fora, o vulto invisível ainda parece estar à espreita. E Pedro tem a estranha certeza de que, a partir deste instante, a linha entre proteger Augusto e proteger o mundo dele acabou de ficar muito tênue.

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