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Capítulo Um: O Funeral dos Merkheisse
735 palavras • 4598 caracteres • ⏱ 2 min 56 s

Capítulo Um: O Funeral dos Merkheisse

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O nó da gravata de Augusto está torto.


Pedro instintivamente ajusta o próprio nó, o olhar fixo no do irmão. Três milímetros para direita, talvez quatro. O suficiente para que o tecido italiano forme uma sombra irregular contra a pele pálida do pescoço.

Inaceitável.


Os caixões de mogno polido que custaram mais que um apartamento não parecem importantes agora, nem os rostos cuidadosamente compostos pela maioria da elite paulistana que está prestes a presenciar, menos ainda com o discurso ensaiado que o padre com certeza fará sobre os "desígnios divinos". Não, seu foco está completamente imerso no pedaço de seda italiana desalinhado contra a garganta do irmão.


A Mercedes para suavemente. Carlos, o motorista, desce primeiro. Ele abre a porta com a precisão de quinze anos de serviço. Pedro saí do veículo emergindo para a garoa típica de São Paulo, que imediatamente ameaça manchar seus sapatos italianos de dez mil reais, não o par, mas cada unidade.


Dois minutos para cumprimentar os investidores principais. Cinco para os políticos. Nada mais do que um aceno para a imprensa.


O cemitério da Consolação nunca esteve tão cheio.


No mar de pessoas, rostos conhecidos pontuam a paisagem de mármore e bronze: Santana Holdings, Grupo Rodrigues, a bancada inteira da CVM. Alguns genuinamente enlutados, mas esse grupo é apenas uma minoria calculável. A maioria está ali para ser vista, manter alianças e farejar oportunidades na tragédia.


Negócios não param para luto.


Pedro identifica cada grupo com a mesma precisão que usaria para analisar um balanço trimestral. Investidores à esquerda, políticos ao centro, e a imprensa mantida a uma distância respeitosa. Tudo em ordem. Tudo sob controle.


Exceto por Augusto.


O irmão mais novo está isolado entre duas estátuas de anjo, longe do rebanho de condolências. O paletó Hugo Boss, dois mil e quinhentos reais, jogado no chão molhado como se fosse um trapo.


Desrespeitoso.


Augusto segura um cigarro apagado entre os dedos, e suas mãos tremem de uma forma que Pedro nunca viu. 


Seus olhares se encontram através do mar de sobretudos e perfumes caros.

Pedro transmite uma mensagem silenciosa pelo olhar: Comporte-se! Pelo menos hoje.


Augusto retribui com algo que definitivamente significa: Vá se foder!

O padre fala sobre "almas preciosas" e Pedro se esforça para assumir a expressão apropriada. Ele usa a mesma máscara que coloca no semblante em reuniões de conselho quando precisa esconder sua irritação.


Advogado às 14h. Auditoria às 16h. Segurança às 18h.


A vida não para. Especialmente não para os Merkheisse.


Ainda assim, algo parece errado.


Pedro observa de longe Augusto tirando um maço de cigarros do bolso. Um movimento automático, quase inconsciente. Mas quando seus dedos se fecham ao redor do papel...


CRUNCH.


O som é pequeno, abafado, quase imperceptível sob o murmúrio respeitoso da multidão. Mas Pedro o ouve. E vê.


O maço se desintegra por entre os dedos de Augusto. Não amassa, não se dobra, ele Desintegra. Como se cada fibra tivesse sido pressionada além de qualquer limite físico possível.


Pedro pisca, um movimento contido da cabeça negando o que viu.

Você está vendo coisas Pedro, relaxa! Stress. Isso é apenas stress.

Do outro lado do cemitério, o olhar de um homem de terno cinza percorre a multidão, imóvel.


Não está com nenhum grupo. Ele não carrega flores. Apenas observa, e há algo na postura dele que ativa todos os instintos de Pedro.


Perigo.


Não consegue explicar exatamente como sabe, mas sabe. Aquele homem não deveria estar ali.


Pedro cataloga: altura, peso, possíveis saídas, distância até a segurança. Tanto tempo administrando e construindo um império não deixam ninguém ingênuo sobre ameaças iminentes.


Os caixões descem.


Mogno polido desaparecendo na terra escura de São Paulo. Ao redor, as pessoas assumem suas expressões de despedida.


Augusto finalmente se move.


Ele caminha até a beirada da sepultura com passos medidos, deliberados. Pega um punhado de terra molhada. Por um momento, Pedro pensa que o irmão vai fazer o gesto tradicional.


Em vez disso, Augusto aperta a terra na mão fechada.


Quando abre os dedos, não há terra. Há algo que parece pedaços de vidro preto brilhante.


"Aconteça o que acontecer, Pedro, proteja seu irmão."


As últimas palavras de Arthur ecoam na mente enquanto ele observa Augusto deixar cair os fragmentos sobre os caixões.


O homem de terno cinza sorri.


E Pedro compreende, com a clareza terrível de quem sempre soube que este momento chegaria, que o funeral não é um fim.


É o início de algo que talvez ele não consiga controlar.

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