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Além das Estrelas
Capítulo 12: Cicatrizes Antigas
721 palavras • 4157 caracteres • ⏱ 2 min 53 s

Capítulo 12: Cicatrizes Antigas

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**1985 – 12 anos**  

A mansão na Gávea era um palácio de mármore e silêncio quebrado. Eu acordava com o som do cinto do meu pai cortando o ar. Alberto Albuquerque — 1,95m.  

Ele arrastava minha mãe pelos cabelos até a sala de jantar.  


— Helena, cale essa boca!  


Minha mãe gritava, implorava. Eu ficava no corredor, pequeno demais para impedir. O cinto acertava o rosto dela primeiro e depois o meu.  


— Seu verme, aprenda: homem não chora.  


Naquela noite, enquanto minha mãe estava agachada no chão, eu contei 27 vergões nas costas dela.


**1992 – 19 anos**  

O porão era frio, úmido, com cheiro de mofo e sangue seco. Meu pai me trancou lá depois de me pegar com o filho do mordomo.  


— Três dias, sem comida e água. Reze para virar um homem normal — ele disse enquanto me atirava da escada.  


Eu caí escada abaixo, machucando meu pé e meu braço. As lágrimas ardiam em meus olhos, mas eu me recusava a chorar. Eu não ia dar a ele o gosto de me ver sendo fraco.  


No segundo dia, ele desceu com uma lanterna na mão. Olhou para mim com puro desgosto:  


— Ainda viado? — perguntou, cuspindo em mim logo em seguida.  


Ele acertou meu rosto com um anel de ouro que ele tinha. O anel pegou em cheio em meu olho esquerdo.  


No terceiro dia, minha mãe desceu escondida com um pão.  


— Fuja, meu menino. Ele vai te matar — ela disse acariciando meu rosto machucado.  


Eu não fugi. Sabia que se eu fosse, ele mataria minha mãe. Eu apenas suportei os 3 dias e concordei com tudo que ele disse.


**1995 – 22 anos**  

O pior dia da minha vida aconteceu quando minha mãe e meu pai tiveram uma discussão na escadaria principal. Minha mãe gritou para ele:  


— Para de bater no menino!  


Meu pai, cheio de ódio, não pensou duas vezes e a empurrou escada abaixo. Ela rolou 14 degraus e quebrou o pescoço. No velório, ele fingiu falsas lágrimas e falou para todos que foi um acidente.


**2000 – 27 anos**  

Com 27 anos, eu casei com Isabella no salão principal da mansão. O casamento foi por negócios. Meu pai, desde o primeiro dia, exigiu que eu desse herdeiros homens a ele.  

Na lua de mel, eu entrei no banheiro enquanto ela dormia e chorei olhando para o mar.


**2001 — Nascimento de Alexander**  

Quando meu filho nasceu com seus 3,2 kg, foi o dia mais feliz da minha vida. Eu queria dizer para ele um "eu te amo", mas eu não consegui e o que saiu foi apenas um:  


— Você vai ser forte.  


Ao decorrer que Alexander foi crescendo, eu cortei o contato dele com meu pai. Eu não queria que ele tratasse meu filho do mesmo jeito que me tratou.


**2005 – 32 anos**  

Em 2005, Arthur entrou como meu segurança particular. 1,88 m, tatuagens nos braços e uma cicatriz no peito. Depois que ele entrou na minha vida, o sentimento que eu tinha reprimido a tantos anos reapareceu.  


Em um dia, ele viu uma cicatriz que eu tinha no braço quando meu pai me bateu com um pedaço de pau:  


— Quem fez isso com você?  


— Meu pai.  


Naquela noite, no escritório, eu não consegui me conter. Arthur me provocava de um jeito natural, e isso me deixava louco. Naquela noite, eu o beijei pela primeira vez, e eu não tive medo.


**2015 – 42 anos**  

Meu pai teve um AVC em 2015, e Deus me perdoe, mas foi o dia mais feliz da minha vida. Ver aquele Satanás no caixão foi o maior presente que eu recebi da vida.  


Ele morreu aos 73 anos. Eu não deixei que ninguém fosse ao enterro dele. Eu assinei os papéis e assumi aquela merda de empresa dele que agora era minha.


**2025 — Hoje, 52 anos**  

Arthur dormia ao meu lado. Eu olhava o mural que Lucas fez pelo meu tablet. Ele pintava o que eu nunca tive.  


Eu pensei em Alexander, e percebi que eu fiz a mesma coisa que meu pai fez comigo com ele. Eu me arrependo, mas não sei como consertar as coisas com o meu menino.  


Toco o cabelo de Arthur e penso:  

— Ninguém vai saber.  

— Nunca saberá.

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