Vitor:
**1985 – 12 anos**
A mansão na Gávea era um palácio de mármore e silêncio quebrado. Eu acordava com o som do cinto do meu pai cortando o ar. Alberto Albuquerque — 1,95m.
Ele arrastava minha mãe pelos cabelos até a sala de jantar.
— Helena, cale essa boca!
Minha mãe gritava, implorava. Eu ficava no corredor, pequeno demais para impedir. O cinto acertava o rosto dela primeiro e depois o meu.
— Seu verme, aprenda: homem não chora.
Naquela noite, enquanto minha mãe estava agachada no chão, eu contei 27 vergões nas costas dela.
**1992 – 19 anos**
O porão era frio, úmido, com cheiro de mofo e sangue seco. Meu pai me trancou lá depois de me pegar com o filho do mordomo.
— Três dias, sem comida e água. Reze para virar um homem normal — ele disse enquanto me atirava da escada.
Eu caí escada abaixo, machucando meu pé e meu braço. As lágrimas ardiam em meus olhos, mas eu me recusava a chorar. Eu não ia dar a ele o gosto de me ver sendo fraco.
No segundo dia, ele desceu com uma lanterna na mão. Olhou para mim com puro desgosto:
— Ainda viado? — perguntou, cuspindo em mim logo em seguida.
Ele acertou meu rosto com um anel de ouro que ele tinha. O anel pegou em cheio em meu olho esquerdo.
No terceiro dia, minha mãe desceu escondida com um pão.
— Fuja, meu menino. Ele vai te matar — ela disse acariciando meu rosto machucado.
Eu não fugi. Sabia que se eu fosse, ele mataria minha mãe. Eu apenas suportei os 3 dias e concordei com tudo que ele disse.
**1995 – 22 anos**
O pior dia da minha vida aconteceu quando minha mãe e meu pai tiveram uma discussão na escadaria principal. Minha mãe gritou para ele:
— Para de bater no menino!
Meu pai, cheio de ódio, não pensou duas vezes e a empurrou escada abaixo. Ela rolou 14 degraus e quebrou o pescoço. No velório, ele fingiu falsas lágrimas e falou para todos que foi um acidente.
**2000 – 27 anos**
Com 27 anos, eu casei com Isabella no salão principal da mansão. O casamento foi por negócios. Meu pai, desde o primeiro dia, exigiu que eu desse herdeiros homens a ele.
Na lua de mel, eu entrei no banheiro enquanto ela dormia e chorei olhando para o mar.
**2001 — Nascimento de Alexander**
Quando meu filho nasceu com seus 3,2 kg, foi o dia mais feliz da minha vida. Eu queria dizer para ele um "eu te amo", mas eu não consegui e o que saiu foi apenas um:
— Você vai ser forte.
Ao decorrer que Alexander foi crescendo, eu cortei o contato dele com meu pai. Eu não queria que ele tratasse meu filho do mesmo jeito que me tratou.
**2005 – 32 anos**
Em 2005, Arthur entrou como meu segurança particular. 1,88 m, tatuagens nos braços e uma cicatriz no peito. Depois que ele entrou na minha vida, o sentimento que eu tinha reprimido a tantos anos reapareceu.
Em um dia, ele viu uma cicatriz que eu tinha no braço quando meu pai me bateu com um pedaço de pau:
— Quem fez isso com você?
— Meu pai.
Naquela noite, no escritório, eu não consegui me conter. Arthur me provocava de um jeito natural, e isso me deixava louco. Naquela noite, eu o beijei pela primeira vez, e eu não tive medo.
**2015 – 42 anos**
Meu pai teve um AVC em 2015, e Deus me perdoe, mas foi o dia mais feliz da minha vida. Ver aquele Satanás no caixão foi o maior presente que eu recebi da vida.
Ele morreu aos 73 anos. Eu não deixei que ninguém fosse ao enterro dele. Eu assinei os papéis e assumi aquela merda de empresa dele que agora era minha.
**2025 — Hoje, 52 anos**
Arthur dormia ao meu lado. Eu olhava o mural que Lucas fez pelo meu tablet. Ele pintava o que eu nunca tive.
Eu pensei em Alexander, e percebi que eu fiz a mesma coisa que meu pai fez comigo com ele. Eu me arrependo, mas não sei como consertar as coisas com o meu menino.
Toco o cabelo de Arthur e penso:
— Ninguém vai saber.
— Nunca saberá.

