Lucas:
Acordei no AP novo com o sol filtrando pelas cortinas finas, o corpo ainda dolorido, mas o colchão macio me segurando como um abraço que eu não merecia. O silêncio era estranho — sem buzinas, sem vizinhos brigando, só o zumbido distante da cidade lá embaixo. Levantei devagar e olhei ao redor: a cozinha americana reluzia, a vista da janela mostrando prédios que pareciam tocar o céu. Era real, mas me sentia um impostor, como se Vitor pudesse aparecer a qualquer momento e me jogar de volta ao meu antigo buraco.
Peguei o celular, a mensagem de Alexander da noite anterior ainda piscando: "Durma bem. Amanhã a gente comemora." Sorri torto, mas o estômago revirou — comemoração? Depois de tudo, eu só queria sobreviver ao dia. Desci pra cozinha, preparei um café fraco com o pó que ele deixou e sentei na bancada, observando o vapor subir. O beijo que dei nele ontem ainda queimava nos lábios, um erro impulsivo que me deixava corado só de lembrar. *Porra, Lucas, você beijou o riquinho. E ele retribuiu?* Meu coração acelerou de novo, uma mistura de pânico e algo quente que eu não queria nomear.
O celular vibrou — era ele. "Bom dia. Te pego em 30 min pro almoço. Quero ver como tá o AP." Cruzei os braços, mordendo o lábio. Almoço? Com ele? Meu corpo doeu de ansiedade, mas respondi: "Tá, mas se for pra me mostrar o mundo chique, eu fico no barulho." Menti. Queria ver ele, mas admitir isso me matava.
Vesti a roupa velha, deixando as novas de lado — não queria fingir mais. Quando ele chegou, o som da campainha me fez pular. Abri a porta, e lá estava ele, sorriso fresco, como se nada tivesse mudado. Mas mudou. Tudo mudou.
— Bom dia, Lucas — disse ele sorrindo.
— Bom dia, riquinho — respondi, tentando esconder a ansiedade que eu estava por dentro.
— Pronto para seu primeiro dia? E ontem eu esqueci de fazer umas compras que meu pai pediu para você, então se tudo der certo eu te levo junto hoje.
— Acho que sim, mas por que Vitor mandou você fazer compras para mim? — perguntei incrédulo, eu não imaginava que Vitor poderia ser tão gentil.
— Eu não sei, só estou seguindo o que ele me pediu — Alexander disse dando de ombros.
— Então tá, espero que isso não seja cobrado de mim futuramente — disse meio desconfiado e me esticando para pegar as chaves do AP.
Alexander não disse mais nada, apenas estendeu o braço para mim. — Vamos? Seu horário de trabalho é depois do almoço.
Dei um leve aceno e peguei seu braço, o tecido do terno dele roçando minha pele como se fosse natural. Saímos do AP, o elevador descendo em silêncio, mas carregado. Eu sentia o olhar dele de canto, como se quisesse me dizer algo, mas não dissesse. Meu coração batia forte, o beijo de ontem ainda ecoando na minha cabeça, um erro que eu não conseguia me arrepender. *Porra, Lucas, para de pensar nisso*, ralhei comigo mesmo, mas o calor subia pelo pescoço só de lembrar os lábios dele nos meus.
No carro, ele ligou o motor, o ar condicionado gelado me acertando. Alexander dirigia com uma mão no volante, a outra no câmbio, e eu olhava para os braços definidos dele, a camisa se contraindo, os dedos no volante. E puta que pariu, que braços gostosos, eu daria tudo para ele me pegar de jeito com aqueles braços.
Eu acho que fiquei um bom tempo encarando o braço dele.
— Tá tudo bem, Lucas? — ele disse, me tirando do devaneio.
— Tá... tá sim — gaguejei.
Eu acho que ele percebeu minhas encaradas para ele. O silêncio que se seguiu por algum motivo não foi constrangedor, mas sim um silêncio confortável.
— Primeiro nós vamos almoçar, depois comprar e depois trabalhar — disse ele, quebrando o silêncio. — Meu pai quer que você tenha roupas adequadas para o setor. Nada demais, só para não parecer que saiu da rua.
Ri baixo, mas doía. — Sai da rua? É exatamente de onde eu vim, riquinho.
Ele olhou de relance, os olhos castanhos suavizando. — Eu sei. Mas agora é diferente. Você merece isso.
Mereço? A palavra me pegou desprevenido. Fiquei quieto, o estômago revirando. Chegamos num restaurante chique, valet pegando o carro, e eu me senti pequeno de novo: mesas brancas, garçons de terno, olhares discretos. Sentamos numa mesa de canto, e ele pediu algo que eu nem entendi o nome.
— Relaxa — murmurou, inclinando-se. — É só comida.
— Fácil para você dizer — resmunguei, mas sorri. O garçom trouxe vinho, e eu recusei. — Água para mim. Conversamos sobre o trabalho: o setor de decoração era pequeno, eu faria murais pros projetos de luxo. Ele falava animado, mas eu via a preocupação nos olhos dele.
— Lucas — ele me chamou, os olhos sérios agora. — Quero conversar com você depois que saímos daqui.
As palavras dele fizeram meu coração gelar. Será que ele queria falar sobre o beijo? Ou outra coisa?
— Tá bom — murmurei baixo, sem levantar os olhos.
Depois do almoço, entramos novamente no carro. Dessa vez ele não deu partida, olhou para mim e disse:
— Você sabe sobre o que eu quero falar, né.
— Sobre o beijo? — perguntei baixo, o coração quase saindo pela boca.
— Sim — ele deu uma pausa antes de continuar. — Lucas... eu gostei do seu beijo, passei a noite toda pensando em você me beijando de novo. Eu queria saber o que você achou, se gostou ou se arrepende de ter me beijado.
O carro estava parado, o motor desligado, o ar condicionado ainda soprando frio, mas eu sentia um calor insuportável subindo pelo peito. Alexander me encarava, os olhos castanhos fixos nos meus, sem desviar, sem piscar. A voz dele saiu baixa, quase um sussurro, mas cada palavra acertou como um soco: *gostei do seu beijo... passei a noite toda pensando... se arrepende?*
Meu coração disparou tanto que achei que ia explodir. Abri a boca, mas nada saiu. *Porra, Lucas, fala alguma coisa!* Olhei para o painel do carro, pras mãos dele no volante — aquelas mãos que eu queria em mim —, e engoli em seco.
— Eu... eu não me arrependo — murmurei, a voz rouca, quase sumindo. Levantei os olhos para ele, sentindo o rosto quase queimar. — Foi impulsivo, sim. Mas... eu quis. Quis muito. E se você tá se perguntando se eu faria de novo... — parei, o ar preso na garganta. — Eu faria. Agora.
O silêncio que veio depois foi elétrico. Ele não se mexeu, mas vi o pomo de Adão subir e descer, os dedos apertando o volante. Então, devagar, ele se inclinou. Não rápido como ontem. Lento. Intencional. A mão dele subiu pro meu rosto, o polegar roçando minha bochecha, e quando os lábios dele tocaram os meus, foi diferente — mais fundo, mais quente, mais real.
Eu cedi. Completamente. Minha mão foi até o pescoço dele, puxando-o mais perto, e o beijo se aprofundou, línguas se encontrando, respirações se misturando. O mundo lá fora sumiu. Só existia ele, o cheiro do perfume caro, o gosto de vinho que ainda estava na boca dele, o gemido baixo que escapou quando mordi o lábio inferior dele.
Quando nos afastamos, ofegantes, ele encostou a testa na minha.
— Então não foi só impulso — sussurrou.
— Não — respondi, a voz trêmula, mas firme. — Foi o que eu queria desde o primeiro dia que você me olhou como se eu valesse alguma coisa.
Ele sorriu, um sorriso verdadeiro, vulnerável, que eu nunca tinha visto.
— Você vale tudo, Lucas. Tudo.
O motor ligou de novo. Ele deu partida, mas antes de sair, segurou minha mão no câmbio.
— Compras agora. Trabalho depois. E à noite... a gente continua isso.
Eu assenti, o coração ainda acelerado, mas pela primeira vez em muito tempo, não era de medo. Era de algo que eu nem ousava nomear.
Mas que já estava acontecendo.
Chegamos no shopping. Ele me arrastou para lojas caras — Armani, Gucci —, escolhendo camisas, calças, sapatos. Eu tentava reclamar, mas ele insistia: "Meu pai paga. Deixa." No provador, ele entrava comigo.
Ele me encurralou no provador, seu hálito quente contra minha pele.
— Você me deixa louco, Lucas. Quero te devorar aqui mesmo — disse ele contra meu ouvido.
Um sorriso malicioso surgiu em meus lábios:
— Então vem, riquinho — sussurrei, puxando-o pela gravata, os lábios roçando os dele. — Me devora aqui mesmo.
Ele não esperou. As mãos dele foram para minha bunda, apertando com força, me erguendo contra a parede fria do provador. Nossos corpos colidiram, o atrito fazendo eu gemer baixo. Ele mordeu meu pescoço, a língua traçando uma linha de fogo até o lóbulo da orelha, enquanto desabotoava minha camisa com pressa.
— Quieto — murmurou, a voz rouca, uma mão tapando minha boca enquanto a outra descia pro meu cinto. — Alguém pode ouvir.
Eu ri contra a palma dele, mordiscando os dedos. — Se eu gemer vai ter o quê?
— Você não vai querer saber, Lucas — ele disse contra meu ouvido. E puta merda, isso me fez arrepiar até os lugares que eu achava impossível.
Ele obedeceu. O cinto abriu, a calça baixou o suficiente, e a mão dele envolveu meu pau, apertando devagar, me fazendo arquear as costas. Eu puxei o terno dele, abrindo a camisa, os dedos explorando o peito largo, os mamilos duros sob o toque. Ele grunhiu, me virando de frente pro espelho, as mãos nas minhas coxas, abrindo-as.
— Olha pra nós. Se você parar de olhar quando chegarmos na sua casa, vai ser pior — ele ordenou, os olhos no reflexo enquanto entrava em mim com os dedos primeiro, lubrificados com cuspe. Eu mordi o lábio pra não gritar, o prazer misturado à dor me rasgando.
Então ele me penetrou, lento no início, depois urgente, cada estocada me empurrando contra o espelho. Minhas mãos se apoiaram no vidro, o reflexo borrado pelo suor, os gemidos abafados pelos beijos dele no meu ombro. O ritmo acelerou, o corpo dele colado ao meu, o suor nos unindo.
— Lucas... — gemeu ele, uma mão no meu pau, masturbando no mesmo compasso. O orgasmo veio como uma onda, me fazendo tremer inteiro, gozando na mão dele enquanto ele se derramava dentro de mim, os dentes cravados no meu pescoço pra abafar o grito.
Ofegantes, ele me virou, beijando devagar, as mãos limpando o que sujamos com lenços do provador.
— Isso foi... loucura — sussurrou, sorrindo.
— A melhor loucura — respondi, ajustando as roupas. Saímos como se nada tivesse acontecido, sacolas na mão, mas o corpo ainda tremendo. O trabalho podia esperar. Nós, não.
Voltamos para o carro, o trabalho começaria em 30 min. Essa seria a fase decisiva para ver se eu ficaria ou não na empresa. Alexander deu a partida, seus dedos no volante e a outra mão em minha coxa.
— Finja que nada aconteceu perto do meu pai. Acho que se ele descobrir, ele mata eu e você — ele disse apertando levemente minha coxa.
— Pode deixar, riquinho — eu disse dando um sorriso de orelha a orelha para ele.
O caminho até a empresa foi tranquilo, algumas mãos bobas, selinhos no sinal vermelho. Quando chegamos na garagem, Alexander mandou eu ir e esperar ele na recepção, que ele ia me guiar até o setor de decoração.
Ao chegar lá, meu coração gelou. Na recepção estava o homem que eu pensei que nunca mais veria: meu genitor.
Meu coração acelerou, minhas mãos começaram a tremer. Eu pedia internamente que ele não virasse e me visse ali parado,ilerplate sem conseguir sair do lugar. Mas infelizmente o universo não me ouviu.
Meu genitor se virou e deu de cara comigo. Ele sorriu de forma maldosa e me olhou de cima a baixo:
— Ora só o que temos aqui, meu filho que foi a maior decepção na minha vida — ele disse num tom cruel.
Ele se aproximou lentamente e ficou a poucos metros de mim.
— O que está fazendo nessa empresa? Trabalhando como faxineiro? Por que com certeza esse seria o único emprego que aceitaria uma pessoa repugnante que nem você.
Meu coração pareceu parar, as palavras dele me atingindo como facas, e as memórias do passado vieram como socos na minha memória. Eu não consegui rebater, não consegui me defender. Naquele momento, quem estava ali era o Lucas criança.
Não sei quantos minutos torturantes se passaram. Eu apenas escutei um: **Chega.**
Autoritário e grave.
Olhei pra cima, as lágrimas borrando a visão, e lá estava Vitor Albuquerque, uma muralha de 1,90m entre mim e o inferno. Ao lado dele, Arthur, os braços cruzados, os olhos cor de mel frios como gelo, pronto pra quebrar qualquer um. Meu genitor recuou um passo, o sorriso sumindo, mas ainda tentando bancar o valentão.
— O que você pensa que está fazendo com o meu funcionário? — disse ele, com a voz autoritária mas carregada de ameaça. Ele deu um passo à frente, o terno impecável esticando nos ombros, e o ar pareceu gelar mais.
— Seu pobrezinho asqueroso, aqui é minha empresa. E Lucas é meu talento. Toque nele e eu acabo com você. Legalmente. Financeiramente. De qualquer jeito que doa mais.
Meu genitor abriu a boca, gaguejando algo sobre "direito de pai", mas Arthur deu um passo, a presença dele como uma sombra gigante.
— Sai. Agora — rosnou Arthur, a voz grave ecoando no saguão.
O homem — meu pai — olhou pros seguranças que já se aproximavam, chamou por Vitor de "senhor Albuquerque" com a voz tremendo, e recuou. Virou-se e saiu correndo, como o covarde que sempre foi. A porta automática se fechou atrás dele, e o silêncio voltou, mas agora era diferente. Protetor.
Vitor se virou pra mim, os olhos castanhos — iguais aos de Alexander — estreitados, sem suavizar. Frio. Grossa. Sério.
— Você tá bem? — perguntou, a voz rouca e direta, a mão no meu ombro firme como uma ordem — sem hesitação ou calor. — Funcionários atrasados custam caro. Não deixe lixo como esse te atrasar.
Eu assenti, engolindo o choro.
— Eu... eu não esperava.
— Vá pro setor. Alexander tá te esperando. Prove que valeu o investimento.
Fiquei ali, respirando fundo, o peito ainda apertado, mas chocado pra caralho. Vitor proteger eu? O cara que trata Alexander como um estranho, que nunca senta pra conversar, que cobra perfeição sem dar afeto? Isso era uma surpresa do inferno — ele era grosso, sério, um muro de gelo. Mas ali, ele me defendeu como se eu fosse... parte da família que ele nega pro próprio sangue.
Alexander apareceu correndo da escada, o rosto preocupado.
— Lucas! Eu vi tudo pelas câmeras. Vem cá.
Ele me puxou pra um abraço apertado, escondido no canto da recepção.
— Desculpa. Eu devia ter chegado antes.
— Seu pai... ele me defendeu. Grosso pra porra, mas defendeu — murmurei, a voz falando. — Vocês... não têm isso, né? Pai e filho de verdade...
— Até eu fiquei surpreso — ele disse me abraçando.
Sorri, limpando o rosto, o coração apertado por ele. O passado doía, mas o presente — com Alexander — era mais forte.
Eu ia sobreviver. Ia vencer.
E talvez, um dia, ajudasse Alexander a quebrar o muro do pai.

