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Além das Estrelas
Capítulo 8: Passos na Sombra
1848 palavras • 10297 caracteres • ⏱ 7 min 24 s

Capítulo 8: Passos na Sombra

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 Alexander:


Saí do beco com o coração ainda acelerado, o rosto de Lucas gravado na mente — aqueles olhos castanhos úmidos, o sorriso torto que me desarmava. O cheiro da lata de spray ainda impregnava minhas mãos enquanto caminhava para casa, o peso da promessa apertando meu peito. Precisava falar com meu pai, Vitor, e a ideia me dava um nó no estômago. Encontrei-o na sala, o terno impecável, os cabelos sedosos refletindo a luz do lustre, como sempre o "homem perfeito" que ele finge ser. Sentei-me à frente dele, o silêncio cortando o ar.


— Pai, preciso de um favor — comecei, a voz firme apesar das mãos suadas. — Conheci um cara, Lucas, através da Clara. Ele é talentoso, pinta bem, e está numa situação difícil. Quero que ele trabalhe na empresa, algo simples, como organizar ou pintar. Pode arranjar um lugar pra ele?


Vitor ergueu uma sobrancelha, os olhos castanhos me analisando como se pudesse enxergar através de mim. — Um amigo da Clara, hein? — disse, a voz grave. — E por que eu deveria me importar com um qualquer? — O tom era frio, mas uma pontada de curiosidade escapou, dando-me uma abertura.


— Porque ele tem potencial, pai. E... eu confio nele — respondi, sustentando o olhar. Ele ficou em silêncio por um momento, tamborilando os dedos na mesa, antes de assentir devagar. — Vou pensar. Traga-o amanhã pra um teste. Mas se ele falhar, a responsabilidade é sua.


Soltei um suspiro aliviado, mas sabia que não bastava. Precisava de Clara. Levantei-me, despedindo-me com um aceno seco, e peguei o celular assim que saí da sala. Liguei para ela, o tom urgente. — Clara, preciso de você. Contei pro meu pai sobre Lucas, disse que o conheci através de você. Me ajuda a convencer o velho, por favor. Amanhã tem que dar certo. Meu plano é que você chegue antes dele e já comece a elogiá-lo, falando do talento dele em pintura e como ele pode ajudar na empresa.”


Ela riu do outro lado, a voz leve. — Claro, Ale. Vou caprichar na história e chegar cedo pra preparar o terreno. Te devo uma mesmo. — Desliguei, o coração mais leve, mas com um fio de ansiedade persistente. Amanhã seria o teste de fogo, e eu precisava garantir que Lucas se destacasse desde o início.


---


Lucas:


Cheguei em casa com as pernas bambas, o corpo doendo a cada passo no chão rachado do AP. O cheiro de mofo me envolveu, misturado ao resto de comida que Dona Maria deixara sobre a mesa. Joguei-me no colchão, o braço latejando, e fiquei encarando o teto amarelado, a mente a mil. O que o riquinho tava tramando? Um emprego na empresa do pai dele? Parecia bom demais pra ser verdade, e eu não confiava nesse Vitor, não depois do que Alexander me contou. Ainda assim, a esperança, aquela danada insistente, começou a rastejar no meu peito, entremeada por um medo gelado de falhar.


Passei a tarde inquieto, andando de um lado pro outro, o barulho dos vizinhos brigando lá fora me deixando ainda mais nervoso. E se o pai dele me odiasse? E se me tratassem como lixo? Apertei o braço machucado, tentando me firmar. À noite, o celular vibrou no bolso, e o nome de Alexander apareceu na tela. Atendi depressa, a voz trêmula.


— Alô, riquinho? — perguntei, tentando soar firme.


— Lucas! Consegui! — disse ele, a animação transbordando. — Falei com meu pai, ele topou. Amanhã você começa, um teste na empresa. Chega lá às 9h, tá? A Clara vai ajudar a deixar ele mais tranquilo.


Fiquei mudo por um segundo, o coração disparado. — Sério? — murmurei, quase sem acreditar. — Tá bom, mas se der errado, eu te mato, hein.


Ele riu, e o som me arrancou um sorriso apesar de tudo. — Não vai dar errado. Confia em mim. Descança hoje, você vai arrasar. Outra coisa: mandei uma pessoa de confiança entregar uma roupa social simples pra você. Meu pai repara muito na vestimenta.


— Certo, obrigado, riquinho. Te devo uma — respondi, feliz.


Desliguei, jogando o celular na cama, o corpo tremendo de ansiedade e alívio. Amanhã seria o dia. Olhei pro teto, imaginando a estrela no mural, e por um instante, senti que talvez pudesse reescrever minha vida.


Meia hora depois, a campainha tocou, e levei um susto — tinha esquecido da entrega. Levantei do chão rápido e fui até a porta. Ao abrir, deparei-me com um cara alto de aparência sombria, segurando um saco de marca chique.


— Senhor Lucas? — perguntou ele, a voz fria.


— Sim, sou eu.


— Toma, o senhor Alexander mandou pra você — disse, passando o saco pra minha mão.


— Obrigado — agradeci.


Ele assentiu levemente com a cabeça antes de descer a escadaria. Fechei a porta e me sentei no chão pra abrir o saco da tal roupa "simples" que Alexander mandou. Arregalei os olhos ao ver as marcas caras.


— Como ele me dá uma coisa tão cara assim? — murmurei, quase sem acreditar.


Nas mãos, uma camisa social preta da Tom Ford — tecido fino, corte ajustado, colarinho firme —, uma calça social da Armani — modelagem reta, caimento perfeito, tecido italiano leve —, e, no fundo do saco, sapatos de couro da Prada — polidos, com brilho sutil e sola firme, feitos à mão. Fiquei parado, o tecido escorregando entre os dedos como algo sagrado. Meu coração batia forte, uma mistura de choque e vergonha me invadindo. — Caralho, isso deve custar mais que meu AP inteiro... — passei a mão no rosto, atônito. Nunca vesti algo tão fino, e a ideia de usar isso amanhã na empresa do pai dele me deixou nervoso pra caralho.


Levantei-me devagar, colocando as roupas no colchão, admirando cada detalhe como um tesouro. Sentia um calor estranho no peito — não era só alívio, era gratidão, e isso me irritava um pouco. Fui até a janela, olhando a rua lá embaixo, o barulho dos vizinhos diminuindo. E se eu estragasse tudo? E se o Vitor achasse que eu tava me achando com essas roupas? Apertei os punhos, o medo voltando, mas a lembrança de Alexander me acalmou. Talvez ele tivesse razão. Talvez eu pudesse tentar.


O celular vibrou de novo, e atendi quase derrubando-o no chão. Era Alexander.  

— Alô, riquinho? — retruquei, tentando esconder o nervosismo.


— A roupa chegou, Lucas? Experimenta hoje à noite, pra ver se tá tudo certo. Meu pai repara nessas coisas, então tem que ficar impecável — disse ele, a voz calma.


— Chegou sim, vou experimentar depois. Mas como você teve coragem de me dar roupas tão caras, Alexander? Eu não posso pagar por isso — retruquei, nervoso.


— Não tô pedindo seu dinheiro, Lucas. Te dei isso porque quis. Você merece — respondeu ele, a voz tão calma que me irritou um pouco.


Fiquei sem palavras por um momento, a cabeça girando. Só pensava em como Alexander era fofo, e isso me dava um tesão do caralho por ele.  

— Tá bom, muito obrigado por tudo que você tá fazendo por mim, riquinho. Prometo não estragar as coisas — falei, a voz mais calma, mas ainda sentindo o peso da responsabilidade.


— Relaxa, tu vai arrasar. Durma bem — disse ele, desligando. Fiquei olhando pro celular, o sorriso nos lábios, mas a ansiedade me corroendo por dentro. Amanhã seria o dia de verdade. Peguei a camisa com cuidado, decidido a experimentá-la, o tecido roçando minha pele como um sonho que eu nunca achei que teria.


Fiquei ali, parado com a camisa Tom Ford nas mãos, o tecido fino roçando minha pele como um convite proibido. O calor no peito virou algo mais quente, mais pesado, enquanto a voz calma do riquinho ecoava: "Você merece." Caralho, isso mexeu comigo de um jeito que eu não esperava. Joguei a camisa no colchão e me sentei de novo, o coração disparado, as mãos suadas agarrando o joelho. Na minha cabeça, só rolava a imagem de Alexander — aqueles olhos castanhos me encarando, o corpo dele roçando o meu no beco, o sussurro no ouvido que ainda me arrepiava. Fofo? Não, ele era mais que isso, um tesão do caralho, e eu tava lutando pra não me deixar levar.


Levantei-me de supetão, andando pelo AP como se pudesse fugir dos meus próprios pensamentos. O barulho da rua lá fora sumiu, e tudo que eu sentia era o calor subindo pelo corpo, concentrado no meio das pernas. Peguei a calça Armani, passando os dedos pelo tecido italiano, imaginando como ficaria nela, e a ideia de Alexander me vendo assim me deu um arrepio safado. — Porra, Lucas, controla isso — murmurei pra mim mesmo, mas minha mão já descia, hesitante, sentindo o volume que crescia apesar de mim. Fechei os olhos, a imagem dele sussurrando de novo me invadindo, e deixei um gemido baixo escapar, a respiração pesada. Não dava pra negar — o riquinho tava me deixando louco, e eu tava a um passo de me perder ali, com aquelas roupas caras como testemunhas do meu descontrole.


O celular vibrou de novo, me assustando e me trazendo de volta. Era uma mensagem dele: "Vestiu a roupa?" Olhei pro celular, o rosto queimando, e digitei rápido, com um sorriso sarcástico: "Sim, tô um galã agora, riquinho. Ansioso pra amanhã." Menti, jogando o celular na cama, tentando respirar fundo e apagar o fogo que ele acendeu. Amanhã seria um teste, mas hoje... hoje eu tava ferrado por causa dele.


---


Alexander:


Depois da ligação com Lucas, sentei-me no quarto, o celular quente na mão, pensando no que viria. Ele aceitou o teste, e isso era um começo, mas o jeito como meu pai me olhou hoje me deixou inquieto. Aquele "vou pensar" dele carregava um tom de desconfiança que eu conhecia bem. Caminhei até a janela, observando as luzes da cidade, e me perguntei se ele suspeitava de algo. Mandei o motorista entregar as roupas pra Lucas — algo simples, mas decente pra impressionar o velho: Tom Ford, Armani, Prada. Nada exagerado, só o bastante pra mostrar que ele valia o esforço.


O celular tocou de novo, e era Clara. — Ale, já montei a história — disse ela, animada. — Vou dizer que conheci o Lucas num evento de arte, que ele é um talento bruto, e tu o trouxe pra ajudar na empresa. Seu pai vai comprar isso, confia. Chegarei cedo amanhã pra falar com ele antes do teste, destacando o valor do Lucas.


— Valeu, Clara. Você é a melhor — respondi, aliviado. — Só reza pra ele não me pressionar amanhã.


— Deixa comigo. Boa sorte com o Lucas — riu ela, desligando. Fiquei olhando pro teto, imaginando Lucas com aquelas roupas, o sorriso torto brilhando. Queria protegê-lo, mas sabia que amanhã seria um teste pra nós dois. Peguei o celular e mandei uma mensagem rápida: "Confia em mim, tu vai arrasar. Durma bem." Apertei enviar, o coração batendo forte, torcendo pra que o dia seguinte provasse que eu tava certo.

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