Alexander chegou ao beco às 8h, o coração apertado ao ver Lucas encostado na parede, o rosto claramente tentando disfarçar a dor. A luz fraca da manhã mal iluminava as latas de spray espalhadas, e o cheiro de tinta velha pairava no ar. Ele correu até Lucas, os olhos arregalados de preocupação.
— O que aconteceu com você? — perguntou, a voz tremendo enquanto se aproximava.
Lucas desviou o olhar, esfregando o braço. — Promete não me julgar? — perguntou, a voz rouca carregando um peso que Alexander não entendia.
Alexander franziu a testa, claramente confuso. — Claro que não vou te julgar, Lucas. Pode confiar em mim.
Lucas hesitou antes de falar:
— Sabe, Alexander, nem todo mundo nasce em berço de ouro. Eu... eu faço programa pra sobreviver. Ontem, um cara me pagou pra transar com ele. Foi horrível, mas eu precisava do dinheiro. Me sinto um lixo por isso e queria desabafar com alguém.
Antes que Alexander pudesse responder, Lucas se agachou e começou a chorar, os soluços ecoando no beco silencioso. Alexander ficou paralisado por um instante, os olhos refletindo uma mistura de choque e compaixão. Ele se aproximou e se sentou ao lado de Lucas no chão frio, hesitando antes de colocar uma mão gentil no ombro dele, sentindo o tremor sob a camisa gasta.
— Não se sinta assim, Lucas — disse Alexander, a voz firme apesar da emoção. — Você não é lixo. Tá só lutando pra sobreviver.
Lucas ergueu o rosto, os olhos já vermelhos de tanto chorar.
— Me sinto péssimo por viver essa vida, Alexander — confessou entre soluços.
Alexander respirou fundo, determinado. — Olha, não quero que passe por isso de novo. Meu pai tem uma empresa... posso te arranjar um trabalho lá. Pintar, organizar, qualquer coisa. Te tiro dessa, se me deixar.
Lucas levantou o olhar novamente, os olhos brilhando com uma mistura de dúvida e esperança. Abriu a boca pra protestar, mas o cansaço o venceu, e ele assentiu, baixo. — Tá bom, riquinho... mas se for pra me tratar como empregado ou se seu pai me tratar como lixo, eu saio na hora.
Alexander sorriu fraco, pegando uma lata de spray do chão. — Não é caridade, é uma chance. E meu pai só é grosso e frio comigo; com os outros, ele bota uma máscara de bom moço. Vem, vamos pintar pra esquecer isso hoje. — Ele se levantou, ajudando Lucas a se erguer. Os dois se aproximaram do mural, o chiado da tinta cortando o silêncio, enquanto uma nova estrela começava a tomar forma no concreto, um símbolo tímido de algo que poderia mudar.
— Meu pai se chama Vitor, Vitor Albuquerque. Ele gosta que o chamem de senhor Vitor — disse Alexander, quebrando o silêncio.
— Não perguntei, riquinho, mas obrigado pela informação — retrucou Lucas, dando uma leve risada.
— Hoje à noite vou falar com ele sobre você. Vou dizer que te conheci através da Clara e que nos tornamos amigos.
— Você acha que ele vai acreditar? — perguntou Lucas, parando de pintar e colocando a lata no chão.
Alexander fez o mesmo e se virou para ele.
— Não sei. Vou pedir ajuda à Clara. Espero que ele acredite.
Lucas assentiu lentamente, os olhos ainda carregados de incerteza, mas um leve alívio começava a se misturar à exaustão em seu rosto.
— Tá, mas se ele me olhar torto, juro que saio correndo — disse, o tom carregando um misto de sarcasmo e vulnerabilidade. — Não quero ser o cachorro de estimação de ninguém, nem teu nem do seu pai.
Alexander riu baixo, um som raro que aqueceu o ar entre eles. — Não vai ser assim. Vou falar com a Clara pra reforçar a história. Ela é boa em convencer o velho. E você, Lucas, vai mostrar pra ele que vale. Com essa tua garra, ele vai acabar te respeitando.
Lucas ergueu uma sobrancelha, um sorriso torto surgindo. — Garra? Eu mal consigo ficar de pé hoje, riquinho. Mas... valeu por tentar. Nunca ninguém fez isso por mim.
Alexander o observou em silêncio, o coração acelerado ao ver o esforço de Lucas. Por um instante, ele se perdeu nos traços cansados, mas tão vivos, do rosto dele — os olhos castanhos, agora úmidos de lágrimas, brilhavam com uma força que o deixava sem ar, e aquele sorriso torto, mesmo fraco, tinha uma beleza crua que o encantava. Lucas era fofo de um jeito que ele nunca imaginara, uma mistura de vulnerabilidade e garra que fazia o peito de Alexander apertar, como se quisesse protegê-lo de tudo.
— Riquinho? — chamou Lucas. — Eu sei que sou lindo, mas se tu continuar me secando assim, vou ficar desnutrido — disse com sarcasmo.
Alexander saiu do transe e corou ao ouvir as palavras de Lucas.
— Me diga, riquinho, como é seu pai e a futura empresa onde vou trabalhar? Quero saber onde estou me metendo.
Alexander, tentando se recuperar do constrangimento, falou:
— Meu pai é um homem de 50 anos. Ele herdou a empresa depois que meu avô morreu. Sempre foi rígido e bruto comigo e com minha mãe. Na frente dos outros, ele faz o papel de bom homem, bom pai e bom marido. É um velho bem conservado, 1,90m de altura, musculoso, pele de bebê, cabelos sedosos, os olhos dele são como os meus, castanhos escuros. Nessa parte, gosto dele, porque me deu essa minha linda aparência e genética. — Fez uma pausa e continuou: — Ele administra bem a empresa, trata bem os funcionários e tal. Tem um segurança pessoal chamado Arthur, que vive colado nele. Arthur tem 45 anos, parece uma montanha viva, 1,95m, negro, super musculoso, com olhos cor de mel. Acho que é tudo que você precisa saber.
Lucas ouviu tudo atentamente, os olhos semicerrados enquanto processava as informações. A descrição de Vitor — um homem de 50 anos, 1,90m, musculoso, com pele de bebê e olhos castanhos escuros como os de Alexander — pintou uma imagem que ele guardou com curiosidade e desconfiança. Mas o que realmente chamou sua atenção foi Arthur, o segurança descrito como uma "montanha viva" de 1,95m, pele escura, músculos imponentes e olhos cor de mel, sempre ao lado do pai. Aquela proximidade, somada ao comentário de Alexander sobre o pai ser "rígido e bruto" — e implicitamente homofóbico —, fez um pensamento escapar pela mente de Lucas antes que pudesse segurá-lo: *"Seu velhote tem cara de ser um gay enrustido."*
Ele segurou uma risada, disfarçando com um pigarro. — Tá, riquinho, teu pai parece um galã de novela e o segurança um brutamontes de filme. Espero que eu não tenha que lidar com os dois ao mesmo tempo — disse, o tom carregado de sarcasmo, mas com um brilho de diversão nos olhos.
Alexander riu baixo, aliviado por quebrar a tensão. — Não se preocupa. Arthur é só um capacho, e o velho vai estar ocupado demais pra te dar trabalho. Vou garantir que tu comece devagar, só pintando ou algo que goste. E, sério, tu vai se dar bem. Já vi teu talento aqui.
Lucas deu de ombros, mas um sorriso tímido escapou. — Tomara, porque se eu tropeçar nesse teu mundo chique, vou te culpar, hein, riquinho. E... valeu de novo. Não tô acostumado com isso.
De repente, Alexander se aproximou por trás, os movimentos suaves mas decididos. Lucas sentiu o calor do corpo dele antes mesmo de ouvir a voz, e um arrepio subiu pela espinha quando os músculos firmes de Alexander — escondidos sob a roupa elegante, mas agora perceptíveis contra suas costas — roçaram levemente contra ele. Alexander inclinou-se, a boca próxima ao ouvido de Lucas, o hálito quente contrastando com o ar frio do beco.
— Tu é mais forte do que imagina, sabia? — sussurrou Alexander, a voz baixa e carregada de admiração. — Isso me deixa admirado por você. E eu não vou deixar ninguém te derrubar de novo.
Lucas corou instantaneamente, o rosto queimando enquanto o coração disparava. Ele virou a cabeça ligeiramente, os olhos encontrando os de Alexander por um breve segundo, antes de desviar, tentando esconder o rubor com um resmungo. — Para de falar besteira, riquinho, ou eu pinto teu rosto de vermelho — retrucou, o sarcasmo vacilando enquanto tentava disfarçar o efeito das palavras e da proximidade.
Mas um pensamento explodiu em sua mente, impossível de ignorar: *"Caralho, eu vou ficar duro na frente dele se ele sussurrar no meu ouvido assim de novo."* O calor subiu pelo pescoço, e ele apertou a lata de spray com força, o metal frio contra a palma suada, lutando para manter a compostura enquanto o corpo traía sua fachada sarcástica com um tremor sutil.

