Lucas e Alexander estavam imersos na pintura do mural no beco, o som rítmico do spray ecoando contra as paredes úmidas. O céu estrelado começava a tomar forma, com traços brilhantes que refletiam a esperança nos olhos de ambos. Lucas guiava Alexander, corrigindo os movimentos desajeitados dele com um sorriso torto, enquanto o ar fresco da noite trazia o cheiro forte de tinta. De repente, Alexander, distraído pela beleza do desenho, tropeçou em uma lata caída. Com um grito abafado, ele caiu desajeitadamente sobre Lucas, os dois rolando até encostarem na parede.
Por um instante, paralisaram. Os rostos estavam tão perto que podiam sentir a respiração um do outro, os olhares se cruzando em um silêncio tenso. Lucas sentiu o coração acelerar, batendo forte contra o peito, enquanto o calor do corpo de Alexander o envolvia. Alexander, igualmente atordoado, percebeu seu próprio coração disparar, o rosto a centímetros do de Lucas. O tempo parecia congelar, o barulho da cidade desaparecendo ao fundo.
— Sai de cima de mim, riquinho! — exclamou Lucas, a voz trêmula, empurrando Alexander com um gesto rápido.
Alexander se levantou, atrapalhado, e Lucas virou o rosto para o lado, as bochechas coradas traíndo sua emoção. Alexander, ainda sorrindo timidamente, sentiu o próprio rosto queimar enquanto um rubor subia, os olhos brilhando sob a luz das estrelas que haviam acabado de pintar.
Antes que Alexander pudesse processar tudo aquilo, seu celular tocou.
Era o pai ligando, e na hora seu sangue gelou, o rosto empalidecendo. Ele atendeu com relutância, tentando disfarçar o nervosismo na voz.
— Alô! Oi, pai — disse Alexander, hesitante.
— Onde você está, Alexander? — A voz do pai saiu fria, cortante.
Alexander não respondeu de imediato, sentindo o coração acelerar e um frio percorrer o corpo.
— Clara me chamou para vê-la, pai. Ela disse que era urgente — respondeu, tentando soar convincente.
— Tá bem, mas quando você chegar, eu vou ligar pra ela — retrucou o pai, desligando na cara de Alexander.
Ele suspirou pesadamente, encostando-se na parede, o peso do momento o esmagando.
— Tá tudo bem, Alexander? — perguntou Lucas, a voz carregada de preocupação.
Alexander olhou para ele, os olhos um pouco arregalados, surpreso por Lucas o chamar pelo nome.
— É só meu pai me controlando como sempre. Tô cansado de viver assim, mas acho que nunca vou conseguir minha sonhada liberdade — disse Alexander, a voz embargada pela emoção.
— Alexander... isso não é verdade. Você vai sim conquistar sua liberdade, mas precisa lutar por ela — respondeu Lucas, aproximando-se e repousando a mão no ombro dele com firmeza.
Os olhos de Alexander se encheram de lágrimas. Ele olhou para Lucas e, num impulso, jogou-se nos braços dele, chorando silenciosamente contra seu peito.
Lucas ficou sem reação por um momento, mas logo relaxou, deixando Alexander desabafar em seus braços.
— Vai ficar tudo bem, Alexander... — murmurou Lucas, acariciando as costas dele com suavidade.
Alexander assentiu, afastando-se um pouco de Lucas, as lágrimas ainda escorrendo.
— Desculpa por chorar assim em você. Eu só precisava de um ombro pra desabafar — disse ele, enxugando as lágrimas com as mãos trêmulas.
— Tá tudo bem, pode chorar à vontade. Eu tô aqui — respondeu Lucas, o tom gentil surpreendendo até a si mesmo.
Após se acalmar, Alexander olhou nos olhos de Lucas e confessou:
— Você é a primeira pessoa que me faz sentir vivo.
Lucas ficou sem palavras, um rubor subindo às suas bochechas, e respondeu com um leve sorriso:
— Não se acostume, riquinho.
Lucas se levantou, pegou uma lata de tinta e adicionou uma estrela extra ao mural.
— Essa aqui é pra sua liberdade — declarou, os olhos fixos na pintura.
Alexander sorriu, ainda secando as lágrimas.
— Obrigado, Lucas. Podemos tentar mais amanhã? — perguntou, a voz carregada de esperança.
— Claro, riquinho. Pode deixar suas latas comigo, eu guardo pra você — respondeu Lucas, estendendo a mão.
Alexander sorriu e deu um breve abraço em Lucas, o calor do gesto aquecendo o ar frio do beco.
— Até amanhã, Lucas — disse ele, virando-se para ir embora.
— Até, Alexander — respondeu Lucas, sorrindo enquanto o observava partir.

