Alexander acordou cedo em sua mansão fria e silenciosa nos Jardins, o sol filtrando-se pelas cortinas pesadas como uma promessa que nunca se cumpria. O quarto luxuoso, com móveis caros e paredes impecáveis, parecia uma prisão disfarçada, o silêncio cortado apenas pelo tique-taque de um relógio antigo sobre a cômoda. Ele se sentou na cama, o peito apertado pela lembrança do beco e do olhar desafiador de Lucas — um vislumbre de liberdade que o aterrorizava e, ao mesmo tempo, o atraía. "Por que eu me envolvi?", pensou, passando a mão trêmula pelo rosto.
O noivado com Clara, imposto pelo pai para selar negócios, pairava como uma sombra densa, e o peso das expectativas familiares o sufocava como ar viciado. Ele pegou o relógio do avô, o metal frio queimando contra sua pele, uma herança que simbolizava o legado que ele detestava. Uma lágrima solitária escorreu, pingando no chão polido. O destino dos Albuquerque era sucesso a qualquer custo; por que o dele seria diferente? E, no fundo, ele se perguntava se Lucas, com suas mãos manchadas de tinta, poderia entender essa prisão dourada.
Então, Alexander fechou os olhos, e as memórias do passado o invadiram como uma correnteza gelada, carregando o som distante de risadas infantis. Ele tinha dez anos, correndo pelo quintal com um amigo da escola, o vento bagunçando seu cabelo enquanto o sol aquecia seu rosto. De repente, a voz grave do pai cortou o ar, interrompendo a brincadeira:
— Pare com isso, Alexander. Você é um Albuquerque, não uma criança comum. Entre agora e vá estudar.
Alexander assentiu, cabeça baixa, o coração apertado. Antes de entrar, virou-se para o amigo, sussurrando um "desculpa" quase inaudível, o peso da culpa já se instalando. Nos corredores frios da mansão, o pai o encarou com severidade, o eco dos passos reverberando nas paredes altas.
— Alexander Albuquerque, não quero mais você brincando com esse tipo de gente. Você tem que estudar, pois vai herdar o legado dos Albuquerque.
Ao lado, a mãe, submissa como sempre, assentia lentamente, os olhos baixos, e murmurava:
— Obedeça, filho, é para o seu bem.
Os anos avançaram, e aos 18, o noivado com Clara foi anunciado, selando seu destino. Clara, uma menina calada de olhos tristes, tão submissa ao pai quanto ele, parecia um reflexo de sua própria resignação. Ele implorou em silêncio que aquilo fosse um pesadelo, mas obedeceu, sentindo o vazio se instalar como um hóspede indesejado. Naquela noite, chorou sozinho no quarto, o som abafado pelo travesseiro, desejando reescrever as estrelas que o prendiam como correntes invisíveis.
Aos 19 anos, o vazio tornou-se um buraco negro em seu peito. Todas as noites, ele desejava a morte, o pensamento rondando sua mente como um espectro. Em um ato desesperado, tentou se enforcar com a gravata, o nó apertando seu pescoço enquanto o mundo girava. Mas, no meio do caminho, suas mãos fraquejaram, e ele caiu na cama, chorando até o corpo ceder ao sono, o gosto salgado das lágrimas misturando-se ao silêncio opressivo.
Alexander abriu os olhos, o coração ainda pesado. A chuva havia parado, deixando apenas o cheiro úmido no ar, mas as correntes invisíveis continuavam a amarrá-lo. Talvez Lucas, com seu sarcasmo e sua arte, fosse a chave para quebrá-las — ou o erro que o destruiria. Um pensamento o atravessou: Será que ele já sentiu esse peso? Será que me entenderia?
Com uma nova determinação acendendo um brilho fraco em seu peito, ele pegou as latas de tinta compradas escondido, o metal frio contra os dedos, e saiu da mansão sem ser visto. No caminho para o beco, ergueu os olhos para o céu; a noite estava linda, repleta de estrelas que piscavam como promessas distantes. Respirou fundo, o ar fresco enchendo os pulmões, e lembrou-se do sonho de ser um grande cientista, um desejo que o pai transformara em cinzas com suas exigências implacáveis.
Chegando ao beco, deu de cara com Lucas recostado na parede, os braços cruzados, esperando com um olhar impaciente.
— Você demorou, riquinho — disse Lucas, a voz carregada de sarcasmo.
— Desculpa, eu só estava esperando meu pai ir dormir para conseguir sair — respondeu Alexander, a voz baixa, tingida de tristeza, os olhos evitando os de Lucas.
Lucas o observou por um momento, o silêncio entre eles preenchido pelo som distante da cidade. Então, deu de ombros, como se o passado e o futuro de Alexander não lhe dissessem respeito.
— Vem, vamos pintar, riquinho.
Alexander assentiu e se aproximou, tirando as latas de tinta da bolsa com mãos hesitantes.
— Podemos desenhar um céu estrelado? — perguntou, os olhos brilhando com uma mistura de esperança e vulnerabilidade.
— Claro, por que não? Se é o que te faz sentir um pouco de liberdade... — rebateu Lucas, o tom suavizando-se com uma pitada de curiosidade.
Eles começaram a pintar juntos. Alexander, desajeitado no início, foi pegando a prática enquanto Lucas o guiava, as mãos de ambos se aproximando ao ajustar os traços no muro. O cheiro de tinta fresca misturava-se ao ar úmido, e o som rítmico do spray preenchia o espaço.
— Por que você escolheu um céu estrelado, riquinho? — perguntou Lucas, os olhos fixos na pintura que tomava forma.
— Meu pai nunca me deixou ser livre. As estrelas... elas me dão a esperança de que um dia eu possa ser eu mesmo — respondeu Alexander, a voz tremendo levemente, os olhos ainda na parede, como se temesse o julgamento de Lucas.
— Bem-vindo ao clube, riquinho — disse Lucas, o sarcasmo suavizado por um tom de empatia, um sorriso torto escapando enquanto ele continuava a pintar.

