Lucas acordou com o som da chuva batendo na janela de seu apartamento apertado na periferia de São Paulo. A noite anterior ecoava em sua mente como um sonho ruim — o riquinho de olhos curiosos, a proposta absurda, o mural que agora parecia manchado por algo que ele não conseguia definir. Ele se arrastou até a cozinha, o chão frio sob os pés descalços, e preparou um café amargo, pensando no pai que o abandonara anos atrás por causa de sua "arte inútil" e sua orientação sexual. "Por que eu aceitei?", murmurou para si mesmo, sentindo um aperto no peito. A solidão pesava como a chuva lá fora, e a ideia de confiar em alguém como Alexander só tornava tudo mais doloroso. Ele pegou a lata de spray velha, mas, em vez de inspiração, uma lágrima inesperada escorreu. O destino nunca fora bondoso com ele; por que seria agora?
Então, Lucas fechou os olhos, e uma memória do passado inundou sua mente. Ele tinha oito anos, sentado no chão da sala, com lápis de cor espalhados ao redor, desenhando estrelas coloridas num céu onde tudo parecia possível. De repente, a porta se abriu com força.
— "O que é isso, menino? De novo com essas bobagens?" — gritou o pai, arrancando o desenho das mãos dele e rasgando-o ao meio.
A mãe, ao lado, balançava a cabeça com uma expressão de puro desgosto.
— "Você deveria estar estudando, menino, não sujando a casa com isso."
As lágrimas escorriam pelo rosto de Lucas enquanto via seus desenhos serem destruídos, os pedaços caindo como estrelas mortas.
— "Mas, pai, isso é arte..." — murmurou ele, mas o pai apenas bufou:
— "Arte não coloca comida na mesa."
Naquele dia, Lucas percebeu que seus sonhos podiam ser despedaçados em segundos.
Os anos se passaram, mas a dor só se aprofundava. Aos 13 anos, Lucas se escondia no banheiro, desenhando em pedaços de papel higiênico e os guardando atrás do armário. Criava mundos onde podia ser feliz e livre. Mas um dia, sua mãe descobriu os desenhos e os jogou no lixo:
— "Isso é perda de tempo, Lucas! Seja um homem de verdade e vá estudar."
Ele chorava em silêncio, limpando as lágrimas com as mãos sujas de tinta.
A memória mais dolorosa veio como um soco. Aos 17 anos, Lucas foi pego beijando um menino no beco atrás de casa. Seu pai, que chegara mais cedo do trabalho, viu a cena e explodiu em fúria.
— "O que é isso, Lucas? Isso é nojento! Você é a vergonha da nossa família. Não sei onde errei na sua criação, moleque nojento!"
A mãe chorava, mas concordava:
— "Nós te criamos para ser normal, não essa aberração. Sai dessa casa agora!"
Lucas, com os olhos cheios de lágrimas, tentou implorar aos pais que não o expulsassem.
— "Mãe, pai, eu sou... Deixem eu explicar, por favor!" — disse ele, as mãos tremendo.
Mas o pai o arrastou e jogou ele e suas coisas no meio da rua.
— "Eu não quero um filho assim. Vá embora e não volte nunca mais!"
Lucas passou a noite no beco, misturando tintas com as mãos trêmulas. Naquele momento, o destino o havia marcado para sempre — sozinho, mas determinado a reescrever sua própria história.
Lucas abriu os olhos, de volta ao apartamento úmido. A chuva ainda caía lá fora, mas seus olhos brilhavam com uma determinação renovada para reescrever sua própria história, mesmo que isso significasse confiar naquele riquinho.

