O cheiro de cigarro enchia o quarto, misturado ao perfume doce que Selina insistia em passar como se fosse escudo contra a realidade. Eu saía do banheiro, ainda secando os cabelos com a toalha, e já encontrava minha irmã estirada sobre a cama, tragando devagar, soltando a fumaça como se fosse artista de cabaré.\n
— Você vai acabar se matando desse jeito. — resmunguei, arrancando o cigarro de seus dedos e esmagando-o no cinzeiro.\n
Selina riu, jogando uma almofada em mim. — Relaxa, Bel. Morrer todo mundo morre. Mas viver? Isso é luxo.\n
Sentei ao lado dela, exausta, mas não consegui conter o riso. Era sempre assim: ela me irritava, eu a repreendia, e no fim acabávamos rindo. Por mais que Selina fosse um imã para problemas, era também meu único alívio.\n
— Sabe o que andei pensando? — ela se ergueu, apoiando os cotovelos nos joelhos, os olhos faiscando. — Que a gente podia dar o fora daqui.\n
— O quê?\n
— Fugir, bel. Eu tenho escondido umas coisas… — ela abriu a gaveta do criado-mudo e tirou um punhado de notas enroladas, presas por um elástico. — Falta pouco pra ser o bastante. Outro país, outro nome. A gente some, nunca mais olha pra trás.\n
Meu coração acelerou. Fugir. Eu já tinha sonhado com isso, mas nunca ousado dizer em voz alta.\n
— Selina… você sabe que não é tão simples.\n
— Claro que é! — ela sorriu, igual uma criança pedindo doce. — A gente pega esse dinheiro, aumenta a pilha, e pronto. Duas passagens, uma mala e liberdade.\n
Sentei na beira da cama, puxando a pilha de notas da mão dela e devolvendo à gaveta.\n
— Não fala como se fosse um jogo. Se ele descobrir…
\nEla riu, nervosa.\n
— Se ele descobrir, eu corro. Você corre comigo.-diz Selina
\n
— Você não entende, Sel. Ele nos caçaria. — minha voz saiu baixa, quase um sussurro. — Se fugíssemos, Dmitri nos encontraria. E quando encontrasse…\n
Não precisei terminar a frase. Ambas sabíamos. Nosso pai não era homem de perdoar.
\n
Selina fez uma careta, mas tentou disfarçar a dor com mais uma piada:\n
— Melhor morrer tentando do que apodrecer aqui.\n
— Eu não vou deixar você morrer. — respondi firme, apertando sua mão. \n
Por um instante, ela se calou. Nossos dedos entrelaçados eram a única coisa que nos mantinha de pé naquela casa.\n
Selina era literalmente a única família que eu tenho aqui, eu prometi a mim mesma e á minha mãe que a protegeria de tudo e todos \n
Logo após essa conversa, fomos chamados para o jantar
\n
O jantar foi servido na sala de refeições, mas ninguém ousava chamá-la de “sala de jantar”. Não era lar. Era palco de interrogatório. A mesa comprida, coberta por veludo bordô, parecia mais um altar de sacrifício.\n
Dmitri já estava sentado, o copo de uísque entre os dedos, oque não pode faltar. Seus olhos de gelo nos seguiram até sentarmos em silêncio.\n
— Finalmente. — murmurou, como se já estivéssemos atrasadas. — Espero que, pelo menos hoje, não me envergonhe.\n
O garfo congelou em minha mão. Selina, claro, não resistiu.\n
— O que é uma pequena vergonha diante de tantas outras, papai? — disse com um sorriso debochado.\n
O som seco do copo sendo posto na mesa me fez estremecer. O olhar de Dmitri poderia derrubar impérios.\n
— Veja só… — ele se recostou na cadeira. — As filhas de Mikhailov já estão prometidas a homens de poder. Educadas. Refinadas. Verdadeiras herdeiras. E eu? Eu tenho… — fez um gesto com a mão, como se apontasse para dois erros de cálculo. — Azar em dobro.\n
Senti o rosto queimar. Selina apertou o guardanapo, quase rasgando o tecido.\n
— Talvez se o senhor nos tratasse como filhas, e não como moedas de troca… — ela começou, mas eu lhe chutei discretamente a perna, tentando calar sua coragem suicida.\n
Dmitri sorriu sem humor. — Pelo menos uma de vocês sabe quando calar a boca. — Seus olhos caíram sobre mim, como lâminas. — Izabel, espero que tenha aprendido alguma utilidade. Ao menos para não desonrar o nome que carrega.
\nNão respondi. Porque qualquer palavra seria usada contra mim.\n
O resto do jantar correu em silêncio sufocante. Só o tilintar dos talheres e o eco dos insultos pairando no ar.\n
Após o jantar\n
De volta ao quarto, Selina caiu na cama de barriga para cima e riu alto. Riu de nervoso, riu de raiva, riu porque não podia chorar.\n
— “Azar em dobro”, você ouviu? — repetiu, zombando da própria dor. — Devíamos bordar isso nas nossas roupas. Azar em dobro, edição Vodkavo.\n
Deitei ao lado dela, cansada demais até para brigar. Apoiei a cabeça em seu ombro.\n
— Ele nunca vai mudar, Sel. Só temos uma à outra.\n
Ela virou o rosto para mim, séria pela primeira vez naquela noite. — Então vamos embora, Bel. Ainda dá tempo. Eu juro que junto mais dinheiro. Nós fugimos e recomeçamos. Só nós duas.\n
Meu coração se apertou. Ah, como eu queria dizer sim. Mas não podia. Não quando o fantasma de Dmitri pairava sobre cada respiração nossa.\n
— Não podemos. — sussurrei. — Fugir seria assinar a nossa sentença.\n
Selina fechou os olhos, mas não insistiu. Ficamos ali, deitadas lado a lado, como duas crianças presas em corpos já condenados.
\nNo corredor, passos pesados ecoaram.
\nA voz de Dmitri atravessou a porta, como açoite:
\n— Amanhã será o baile. Quero vocês impecáveis. Sem escândalos. Sem erros. — fez uma pausa. — E lembrem-se se ousarem me envergonharem no baile.....vocês desejarão a morte\n
A porta se fechou. O silêncio voltou.\n
Selina abriu um sorriso torto, me cutucando. — Impecáveis, Bel. Vamos brilhar como nunca.\n
Mas em seus olhos, eu vi a fagulha da rebeldia. E soube que, por mais que tentasse, jamais conseguiria segurar Selina por muito tempo.\n
⏳ Noite seguinte – No quarto das gêmeas\n
O quarto parecia um ateliê tomado por perfumes, tecidos e joias. Selina girava diante do espelho com o vestido vermelho colado ao corpo. O fogo em forma de gente.\n
— O que acha? — perguntou, ajeitando o batom.\n
— Acho que vai atrair todos os olhares — respondi, ajustando meus brincos discretos no azul-escuro.\n
— Melhor assim. Enquanto olham pra mim, você fica livre. — Ela piscou, cúmplice. — E talvez eu consiga o suficiente pra nossa fuga.\n
Virei de frente pra ela, firme.
\n— Selina, não. Não fala disso. Não faz nada.\n
Ela riu, sem medo.
\n— Você ainda vai me agradecer, bel.
\nSuspirei, tentando ignorar o peso no peito. O relógio bateu a hora.\n
Selina sorriu com malícia.
\n— Hora do show.\n
Olhei meu reflexo, sentindo o coração apertar.
\n— Hora da arena.

A Noiva da vendetta: entre vingança e sangue
CAPÍTULO 1
1122 palavras • 6490 caracteres • ⏱ 4 min 29 s
CAPÍTULO 1
0
0
0
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar ❤️
Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.
