O vazio entre mundos era frio.
Ali, onde o tempo não fluía e a matéria não existia, pairava apenas a essência daquilo que nunca deveria ter existido — e que, ainda assim, persistia.
Sombras reptavam por entre espirais de trevas líquidas, como fumaça viva. Sons sem origem ecoavam no abismo: palavras distorcidas, nomes esquecidos, promessas feitas antes mesmo da criação. E, no centro desse não-lugar, olhos se abriram.
Seis pupilas, cada uma com uma cor que os mortais não poderiam nomear.
Mor'drak estava acordado.
Ele não havia rugido.
Não havia gritado.
A derrota de Belial. A traição de Bakrium. A ruína de Glasya-Labolas. Tudo isso... fazia parte.
— O tabuleiro se move, — sussurrou a voz, ecoando em si mesma. — E até mesmo as peças falham em reconhecer o jogo.
Uma forma começou a se erguer das sombras, algo maior que um gigante, mais antigo que os ossos do mundo.
— Que o Amado da Luzz brilhe, então. Que se torne farol, esperança... — a voz hesitou, como quem saboreia um vinho amargo. — Pois até a luz, um dia, sucumbe ao próprio reflexo.
Uma rachadura invisível no véu que separava mundos começava a se expandir.
O selo que o prendia, tecido por mãos divinas na alvorada do tempo reforçado pelo sacrifício de Elloryn, estava prestes a se desfazer. E para isso, era necessário que luz e trevas se unissem.
Arion e Bakrium.
Tudo estava acontecendo conforme os planos de Mor'drak.
Ao longe, nas bordas do plano material, um fio de poder escapou. Uma nova fenda se abria.
E através dela... algo começava a espreitar.

