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O Amado da Luzz
Capítulo 38
979 palavras • 5872 caracteres • ⏱ 3 min 55 s

Capítulo 38

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O dragão de chamas mergulhou com um rugido que atravessou o firmamento. A criatura colossal feita da união das chamas brancas de Arion e negras de Bakrium riscou o céu como um cometa, colidindo com Glasya-Labolas em um impacto que sacudiu o mundo.

A explosão foi absurda.

Chamas varreram o campo de batalha, estendendo-se em ondas devastadoras. O rugido se fundiu aos gritos distantes de demônios que tentavam fugir. A Besta da Carnificina gritou com todas as vozes absorvidas em sua carne abominável, mas não houve misericórdia. O fogo consumiu tudo: a carne, as correntes, os ossos, os lamentos. A terra tremeu, o ar ficou rarefeito e, por um instante, parecia que o tempo havia parado. Quando a luz se dissipou, nada restava da rainha demoníaca. Nada além de cinzas.

Os poucos demônios remanescentes, vendo seu terror cair, bateram em retirada desesperada. Alguns se consumiram pela própria corrupção, outros desapareceram em portais fétidos. O campo de Thuncorn ficou em silêncio, coberto de sangue, brasas e poeira. Logo em seguida o brado de vitória dos sobreviventes ecoou por toda a planície.

Thuncorn estava salva.

Mas parcialmente destruída.

As muralhas estavam rachadas, as torres em ruínas, o solo manchado pela guerra. Anões recolhiam corpos, choravam por seus mortos e batiam os martelos em honra aos caídos. Em meio aos destroços, os heróis se reencontraram.

Draven estava desacordado, os ferimentos graves tratados de forma emergencial. Suas asas arrancadas agora eram apenas lembranças sangrentas sobre panos. Tark ajudava a improvisar suportes para transportar os feridos, mesmo tremendo de exaustão. Thalia jazia sentada entre escombros, o rosto sujo de fuligem, mas os olhos ainda firmes. Ela olhou para Arion com um sorriso fraco quando o viu aproximar-se.

Bakrium, de pé, mantinha-se em silêncio. Observava o campo como quem encara as próprias cicatrizes. O sangue de sua linhagem ainda fervia, mas seus olhos não tinham mais a sede antiga de destruição. Estavam pesados. Humanos. Reais.

Arion caminhou até ele, ainda com a espada em punho.

— Por quê? — perguntou, a voz grave e firme. — Por que nos ajudou?

Bakrium não desviou o olhar. Seus olhos se fixaram no horizonte, onde as nuvens ainda carregavam a poeira da batalha.

— Porque eu me cansei.

O silêncio entre os presentes pesou. Até mesmo os ventos pareciam escutar.

— Por anos servi Mor'drak. Fiz coisas que vocês não imaginam. Fui sua garra, sua sombra. Vi cidades queimarem. Vi inocentes serem sacrificados em nome de um plano maior. Eu acreditava que fazia parte de algo inevitável. Mas...

Ele olhou para a espada em suas mãos, e seu olhar se suavizou.

— Eu perdi tudo. Amigos. Amor. Liberdade. E percebi que era apenas uma peça. Um peão em um tabuleiro de deuses que brincam com o destino. Não quero mais ser isso. Não sou um servo. Não sou um instrumento. Cansei de ser o Filho de Drenhayr, o Filho das Trevas, o Filho de Zephyron, o Arauto de Mor'drak. Eu sou Bakrium. E quero viver por mim mesmo de agora em diante.

Um longo silêncio. Mesmo Tark, com toda sua desconfiança, não disse nada. Thalia, embora ainda furiosa por tudo o que ele representava, desviou os olhos. Não havia perdoado. Mas aceitaria o que Arion decidisse.

Arion assentiu lentamente.

— Então lute ao nosso lado. Até o fim.

Bakrium respirou fundo.

— Até o fim.

Alguns dias depois, a cidade de Thuncorn ainda estava sendo limpa e reconstruída. As muralhas foram reforçadas, os templos consagrados novamente. Mas a ausência de Torgrin era um buraco que nenhum canto dos anões conseguia preencher. O corpo do Rei de Fogo havia sido encontrado em meio aos destroços, esmagado pela queda de uma torre enquanto combatia com bravura. Os anões o honraram com uma pira acesa nas fornalhas eternas, entoando hinos até que a fumaça tocasse os céus.

Seu filho, Gorlan Martelo de Cinza, assumira o posto de regente interino. Era mais jovem, menos duro que o pai, mas carregava um senso de honra firme. Ele já havia anunciado que, em breve, haveria um novo Gauntlet do Rei: o desafio mortal onde guerreiros disputariam, através de força e astúcia, o direito de comandar Thuncorn. Matar um oponente não era proibido. Era a forma dos anões selarem o luto com a tradição. Os preparativos já começavam, com ferreiros afiando lâminas e escribas registrando os nomes dos participantes.

O grupo permaneceu na cidade por algum tempo. Draven repousava, sem asas, ele estava vivo, mas seu olhar era vazio, como se algo tivesse morrido por dentro. Tark reconstruía algumas de suas engenhocas com partes dos destroços, tentando manter as mãos ocupadas para não pensar demais. Thalia ajudava a purificar os canais de água da cidade com sua magia, mas seu silêncio dizia mais do que qualquer gesto. Todos estavam vivos, mas marcados.

Arion, agora mais calado, passava boa parte dos dias no alto das muralhas. Com o Medalhão de Luzz no peito e a Espada de Elloryn na cintura, ele olhava o horizonte como quem tenta escutar os passos do futuro. Mas sabia que o tempo de paz seria breve.

Bakrium, no entanto, não permaneceu com eles. Após descansar da batalha, partiu silenciosamente. Foi visto alçando voo, afastando-se das muralhas ao entardecer, suas chamas se elevando com o crepúsculo. Antes de partir, dirigiu-se a Arion com um olhar sereno:

— Não se preocupe. O destino sempre nos une... quando for necessário.

E com isso, desapareceu entre as nuvens incandescentes do crepúsculo.

Naquela noite, a cidade permaneceu em silêncio. Os sinos do templo tocaram lentamente. Estrelas surgiram, tímidas, como se temessem olhar para baixo. Arion permaneceu nas muralhas, observando os ecos da batalha que ainda vibravam na terra.

Ao longe, as montanhas escondiam sombras que nenhum fogo conseguia banir. Mor'drak estava lá fora. Observando. Esperando. E agora, ele sabia.

O Amado da Luzz não estava sozinho.

O fim não era o fim.

Era apenas o começo.


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