Drenhayr se aproximava lentamente de Thalia e Draven, como uma predadora se deliciando com o sofrimento das presas. O silêncio era quebrado apenas pelo som viscoso das poças de sangue sendo pisadas. Cada passo seu parecia ecoar diretamente no coração dos dois guerreiros caídos, intensificando o terror iminente.
Thalia tentou se erguer, mas seu corpo não respondia. Seus olhos azuis ainda ardiam de determinação, mesmo que a magia estivesse quase esgotada. A água ao seu redor evaporava aos poucos com o calor da batalha, deixando apenas a umidade do sangue e do desespero. Draven, ofegante, apoiava-se na lança quebrada, suas asas rasgadas deixando rastros vermelhos no chão como cicatrizes na terra.
Com um gesto elegante e cruel de Drenhayr, uma esfera líquida e escarlate ergueu-se ao redor de Thalia. O sangue se moldou como uma prisão viva, e a náiade foi envolta, flutuando em seu centro. Dentro da esfera, o líquido pulsava, vibrava, afogando-a lentamente. O desespero se espalhou em seus olhos quando percebeu que não conseguia respirar. O sangue era denso, pegajoso, e entrava pelas narinas, pela boca, pelos ouvidos, selando todos os seus sentidos em um pesadelo vermelho.
— Que ironia deliciosa... — sussurrou Drenhayr, parando diante de Thalia. — Uma náiade... que respira sob a água. Vamos ver como se sai... em sangue.
Thalia se debatia dentro da prisão vermelha. O sangue invadia seus pulmões, queimando como ácido. Sentia cada batida do próprio coração ecoar no interior da esfera, como um tambor de morte. Suas forças se esvaíam, sua visão turvava. A agonia era excruciante. A náiade, filha das águas, era agora tragada pela perversão de sua essência.
Draven gritou e tentou avançar, cambaleando, mas Drenhayr sorriu.
— Ah, o nobre guardião alado... — ela sussurrou. Com um estalo de dedos, tentáculos de sangue emergiram do solo e envolveram as asas dilaceradas de Draven. Em um movimento brusco e sem piedade, elas foram arrancadas de vez, num corte grotesco que fez o tengu urrar de dor. Seu grito se elevou acima dos sons da guerra, tão primal que fez até os demônios hesitarem por um instante.
O sangue jorrou como um rio aberto, suas penas voando pelo campo como neve escarlate. Drenhayr segurou as asas em mãos como troféus e riu alto.
— Sempre quis saber se os pássaros sentem dor quando se quebram as asas... — ela murmurou, antes de arremessá-las ao chão como trapos inúteis, pisando sobre elas com desdém.
Foi então que Arion, ao longe, gritou.
Um grito que cortou os céus, cheio de desespero e fúria contida.
O Medalhão de Luzz em seu peito brilhou como nunca antes, uma luz dourada e ardente que queimou as trevas ao redor. As feridas em seu corpo começaram a se fechar, os músculos se reconstituindo, o sangue recuando como se temesse a luz. Seus olhos se reacenderam com fúria, não mais a chama de um príncipe perdido — mas a de um guerreiro renascido.
A Espada de Elloryn, cravada no solo distante, tremeu e voou até sua mão. Arion a agarrou com força, seu corpo envolto em luz branca flamejante. Ele correu.
Avançou com tudo o que tinha, rompendo a linha do medo e da dor. Mas as correntes de Glasya-Labolas o agarraram no meio do caminho. Elas o puxaram para trás, prendendo seus braços, suas pernas, seu peito. Belial surgiu logo em seguida e desferiu outro soco brutal em seu estômago, fazendo-o cuspir sangue. O chão rachou sob seus pés.
Por um breve instante, Arion vacilou. A dor era insuportável. Sua mente girava, imagens de Tseshtia, de seus amigos, do sacrifício feito por tantos. O desespero se arrastava por seus pensamentos, como se a derrota estivesse selada.
E então, uma sombra colossal desceu do céu como um eclipse. As asas negras como carvão abriram-se com uma explosão sônica, e um rugido ancestral fez a terra estremecer. Era Bakrium.
Em sua forma dracônica, o Filho do Dragão da Morte pousou no campo de batalha com um impacto que abriu uma cratera. Demônios e soldados das sombras foram arremessados no ar como folhas ao vento. O calor de seu hálito era sufocante. Por um segundo, tudo parou. Anões e paladinos — todos congelaram diante daquela presença.
Mas então, o inesperado aconteceu.
Bakrium lançou uma rajada de chamas negras contra o exército de Mor'drak. Os demônios queimaram em gritos de agonia, as trevas se retorcendo com dor. Glasya-Labolas recuou, surpresa. Belial rugiu em fúria. Drenhayr, atônita, encarava o jovem dragão com um olhar indecifrável. Não era só surpresa. Era dor. Traição.
Arion, ainda ofegante, fitava a cena com incredulidade. Aproveitou a confusão e correu para Thalia e Draven. Glasya-Labolas e Belial tentaram impedi-lo, mas uma barreira flamejante ergueu-se entre eles — as chamas de Bakrium, vivas e conscientes, protegendo Arion.
Bakrium pousou atrás dele, olhos flamejantes fitando os Reis Demônios. Uma fumaça negra cobriu todo seu corpo e ele retornou a sua forma humana.
— Chega. Eu não sou escravo de ninguém. — Sua voz era como trovão entre dragões. — Drenhayr... minha mãe. Não servirei mais aos caprichos de Mor'drak. A partir de agora, serei eu quem dita meu destino.
O silêncio caiu como um manto pesado. Drenhayr não respondeu de imediato. Havia um tremor em seus lábios. Não de medo — mas de algo que parecia quase... humano.
Arion, com os olhos ainda arregalados, libertou Thalia da esfera de sangue com um corte preciso da Espada de Elloryn. O sangue caiu ao chão em torrentes, e ela arfou, cuspindo o líquido da prisão.
— Respira... Thalia, respira. — disse ele, amparando-a.
Thalia agarrou sua mão com força, os olhos marejados.
Arion correu até Draven e o puxou, apoiando-o contra uma rocha.
— Está tudo bem agora — sussurrou.
Draven assentiu, mesmo ferido, as asas agora ausentes em seu corpo como um eco silenciado. Seus olhos estavam opacos, vazios, como se seu espírito tivesse sido derrotado.
E então, lado a lado, Arion e Bakrium voltaram-se contra os Reis Demônios.
Luz e trevas. Vida e morte. Filho do sacrifício e filho do sangue.
E a batalha estava longe de acabar. Na verdade, estava apenas começando.

