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O Amado da Luzz
Capítulo 35
1088 palavras • 6677 caracteres • ⏱ 4 min 21 s

Capítulo 35

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O campo de batalha era um inferno vivo.

As muralhas de Thuncorn, antes tão sólidas quanto a própria montanha, tremiam sob os impactos colossais. Pedras ancestrais explodiam em estilhaços quando os punhos de Belial as alcançavam. Cada golpe do Rei Demônio da Iniquidade era um trovão, uma sentença. Torres desabavam, gritos desapareciam em meio ao estrondo. Os paladinos e anões caíam aos montes — esmagados, dilacerados, queimados. As defesas mágicas que resistiam há séculos sucumbiam em segundos.

Drenhayr avançava entre o caos, envolta por véus carmesins que vibravam como tentáculos de sangue vivo. Suas mãos moldavam o fluido vital dos inimigos em armas, muralhas e horrores grotescos. Com um gesto, fazia corpos explodirem. Com outro, erguiam-se servos de sangue, cadáveres transformados em soldados.

Thalia e Draven correram para enfrentá-la. A náiade já sentia a exaustão pesar nos músculos e na alma. Suas reservas de água estavam quase esgotadas, mas ela continuava. A cada respiração arfante, invocava colunas de água fervente, moldando-as em lâminas e muralhas líquidas para repelir os ataques orgânicos de Drenhayr. Seus pés deslizavam sobre o solo ensanguentado como se dançasse com a própria morte, desviando com precisão de projéteis feitos de veias cristalizadas, moldadas pela inimiga.

Drenhayr sorria enquanto atacava, seus olhos rubros cintilando com um prazer perverso. Ela fazia o sangue do próprio campo de batalha ferver e se erguer contra Thalia, como se o terreno estivesse vivo, como se cada gota de dor alimentasse sua arte macabra.

Draven voava em círculos ao redor da rainha demoníaca, sua lança cortando o ar com assobios mortais. Ele mergulhava e atacava em ângulos inesperados, procurando brechas, tentando desestabilizá-la. Seus olhos rubros estavam cheios de foco, os músculos tensos. A cada investida, sentia a pressão da magia de Drenhayr como um redemoinho ao redor de seu corpo, dificultando os movimentos, tornando o ar pesado.

Um de seus golpes quase atingiu o flanco da demônia, mas foi desviado por uma barreira de sangue que se solidificou no último segundo. Em resposta, Drenhayr fez chover agulhas de plasma escarlate, obrigando Draven a recuar com uma manobra rápida. Ainda assim, ele não cedia. Ele não recuava. Thalia e Draven lutavam em sintonia, unindo defesa e agilidade, magia fluida e ataque aéreo, como dois instrumentos distintos tocando uma mesma sinfonia desesperada.

Mas mesmo juntos, enfrentavam um redemoinho de destruição.

No coração do campo, Tark se encontrava acuado, cercado por demônios menores que ignoravam seus truques. Ele ativava runas de explosão, criava barreiras de vapor e espalhava minas de choque, mas o cerco apertava. Quando um dos braços metálicos de sua engenhoca quebrou e a mochila explodiu em faíscas, ele caiu de joelhos, indefeso, o sangue escorrendo do ombro.

Foi quando Arion surgiu.

Um corte dourado iluminou o campo. A Espada de Elloryn rugiu como um trovão sagrado ao atravessar as trevas. Arion saltou entre as bestas com um grito de guerra que cortou o caos. Seus olhos brilhavam com a luz da Luzz e a fúria de quem carrega o legado de vidas sacrificadas. Cada movimento era como um poema de luz — preciso, implacável, irreversível. Cortava a carne sombria dos inimigos como se desfizesse a própria corrupção.

Ele parou diante de Tark, a armadura resplandecente coberta de fuligem, os olhos dourados como sóis em chamas.

— Está tudo bem agora — murmurou.

Tark assentiu, cambaleante, e correu para recarregar o que podia.

Mas o momento de respiro foi breve. Belial avançou.

O chão tremeu com a aproximação do rei demônio. Cada passo fazia a terra vibrar como se o mundo estivesse prestes a ceder. Arion firmou os pés, ergueu a espada com ambas as mãos e se preparou. O impacto foi brutal. O braço de Belial colidiu com a lâmina com tal força que uma onda de choque varreu tudo ao redor. Detritos voaram. Soldados próximos foram arremessados como bonecos. Arion foi lançado para trás, girando no ar, mas aterrissou em uma queda controlada, seus pés escavando o solo com força.

Com um grito que misturava coragem e desespero, correu para o ataque.

A luta entre os dois era titânica. Cada golpe da espada de Arion era envolto em luz, como se o próprio céu intervisse. Cada soco ou pisão de Belial trazia consigo o peso do inferno. O choque de forças rasgava o chão, distorcia o ar. Arion avançava, desferindo golpes em velocidade absurda, a espada deixando rastros de fogo branco. Ele esquivava-se por instinto, canalizando a energia de seu novo corpo, tentando conter o colosso à sua frente.

Glasya-Labolas juntou-se à batalha. As correntes vivas zumbiam ao redor de Arion como serpentes assassinas. Elas assobiavam ao passar, estalavam no ar, arranhavam pedras e armaduras. Arion girava, cortava, se esquivava, mas a pressão aumentava. Belial rugia, Glasya ria com prazer distorcido, e o céu parecia tremer com a colisão.

Arion resistia. Canalizava o poder de Elloryn com maestria. Seus pés dançavam pelo campo, desviando, golpeando, respondendo com inteligência, não apenas força. As aulas com Elenya não haviam sido em vão. Pela primeira vez, Arion parecia ser tudo o que a profecia prometia: luz em meio à noite. Sua espada rebatia as correntes, perfurava a couraça negra de Belial, cada movimento ensaiado entre gritos e explosões.

Mas então...

O coice veio.

A alma não acompanhou o corpo. A mente escorregou. A centelha que unia espírito, carne e magia se desequilibrou. O corpo era novo, mas a essência ainda buscava a sincronia do corpo antigo. E isso custou caro.

Num instante de hesitação, Glasya-Labolas acertou um golpe. Uma das correntes atravessou o flanco de Arion, rasgando carne e armadura com um estalo agudo. Ele gritou, a dor perfurando sua consciência como uma lâmina incandescente. Caiu de joelhos, a mão pressionando a ferida aberta. Belial não perdeu tempo. Um soco direto contra seu peito o lançou metros adiante. Arion rolou no chão, sangue escorrendo, respiração falha. A espada caiu de suas mãos, cravando-se no solo como um farol esquecido.

Atordoado, tentou se levantar. Seu olhar turvo buscou por luz, por esperança.

E viu o pior.

Thalia e Draven estavam caídos.

A náiade jazia entre poças d'água e sangue, a pele marcada por cortes profundos. Sua respiração era fraca, seu corpo tremia. Draven estava de joelhos, as asas dilaceradas, a lança partida, tentando erguer-se com uma das mãos ensanguentadas. Drenhayr caminhava em direção a eles, as mãos vermelhas e prontas.

— Não... — murmurou Arion. — Não...

O medo se espalhou pelo campo. Os gritos cessaram. Os corações pararam. A esperança se diluía como sangue na chuva.

E então, tudo ficou em silêncio.


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