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O Amado da Luzz
Capítulo 34
1112 palavras • 6854 caracteres • ⏱ 4 min 27 s

Capítulo 34

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O luto ainda pairava sobre o templo como uma nuvem densa de cinzas. Tseshtia havia se tornado memória, centelha e sacrifício. As palavras que deixara ecoavam no peito de todos, especialmente no de Arion, cuja alma agora carregava não apenas o fogo da deusa, mas também o peso da vida que fora entregue por ele. Ninguém conseguia falar. Apenas respirar já era um esforço.

Foi então que os tambores mudaram.

De fora dos salões do templo, o som seco e rítmico dos alarmes começou a ecoar pelos corredores de Thuncorn. Martelos batiam três vezes sobre o ferro: o chamado de urgência. O som se espalhou como eletricidade. Os olhos se abriram. Os corpos se moveram. A realidade voltou a gritar.

— Eles chegaram — disse Draven, já se virando para correr.

Tark engoliu seco. Thalia apenas fechou os olhos por um instante, como se deixasse as lágrimas secarem para sempre.

Arion permaneceu imóvel por um segundo a mais. Então se levantou, vestindo pela primeira vez a armadura cerimonial deixada pelos paladinos que o acompanharam de Lys'tara. Era feita de placas prateadas com detalhes em azul-celeste, marcada por antigos símbolos de proteção da Luzz. Em sua cintura, firmemente presa, estava a Espada de Elloryn — enviada por Elenya junto de seu manto, como símbolo da luz que ainda resistia.

Ajustando os ombros, ainda sentindo o corpo recente e estranho, ele partiu.

No portão da muralha principal, o povo se reunia. Os guardas apontavam para o horizonte. Draven, Thalia e Tark já estavam ali, assim como o alto comando anão. Torgrin Martelo de Lume apareceu com sua armadura rubra, os olhos faiscando como brasas.

— Onde está a serpente de chamas? — perguntou ele, sem esconder o tom rude. Mas ao encontrar os olhos silenciosos dos heróis, suas palavras perderam o peso da ofensa. Torgrin suspirou, e por um instante o sarcasmo se diluiu em respeito. — Ah... então ela escolheu a forma mais fácil de fugir da guerra. — Olhou para o céu. — Que os deuses recebam a santa das escamas. Queimou como viveu: com intensidade.

Do topo da muralha, avistava-se o horror: o exército de Mor'drak estendia-se como uma mancha viva pela planície. Demônios, aberrações, espectros envoltos em correntes de névoa negra e soldados sombrios com armaduras que pulsavam. Um cheiro acre de enxofre e sangue estagnado enchia o ar.

— Anões! — bradou Torgrin. — Paladinos! Clérigos da Chama! Filhos da Pedra e do Fogo! Hoje, queimaremos o abismo!

E os portões se abriram.

A primeira linha de combate saiu com gritos de guerra. Magias ancestrais, lanças enfeitadas com rúnicos, montarias blindadas, e escudos flamejantes marchavam unidos. Arion ajustou o elmo e correu com os demais. Seus pés cravavam no solo com firmeza, o coração vibrava como um tambor antigo. Ao seu lado, Thalia conjurava esferas de água e lâminas líquidas que chicoteavam com precisão mortal; Draven deslizava no ar como uma flecha viva, a lança em mãos brilhando com fúria ancestral; Tark ativava suas engenhocas explosivas, torretas giratórias e minas rúnicas lançando ondas de destruição controlada.

O primeiro impacto foi brutal.

Machados cortavam carne pútrida, magias explodiam em clarões que cegavam os sentidos. Arion avançava entre as linhas, sua espada desenhando rastros de luz dourada. Cada golpe fazia os demônios estremecerem. Seu corpo respondia com mais força e velocidade, os ensinamentos dos paladinos e os dons de Tseshtia fluindo como um só.

Thalia era um furacão prateado no campo. Invocava colunas de água fervente que se erguiam em espirais para engolir as criaturas sombrias, suas mãos traçavam gestos precisos enquanto sua magia fluía com controle absoluto. Quando os aliados tombavam, ela os protegia com escudos de água concentrada, repelindo flechas e chamas infernais. A náiade lutava com o corpo, a mente e a alma — e por Arion, lutava com o coração.

Draven, por sua vez, mostrou-se mais do que um guerreiro: era uma tempestade de precisão. Seus golpes não vinham com fúria, mas com estratégia. Ele sabia onde cortar, onde atingir. Suas asas rasgavam o ar enquanto ele mergulhava entre linhas inimigas, lançando sua lança em espirais antes de recuperá-la no voo seguinte. Em um momento, derrubou três demônios em um único giro, cortando seus pescoços com a frieza de quem havia deixado o medo para trás. Ele protegia os flancos, resgatava soldados feridos, guiava os mais novos como um verdadeiro general dos céus.

Tark era o caos calculado. Corria entre as linhas com engrenagens tilintando em sua mochila, lançando bombas de fumaça encantada, acendendo runas que transformavam o chão em armadilhas. Criou uma barreira de espelhos mágicos que desviava magias lançadas pelos inimigos, confundindo seus próprios conjuradores. Ele parecia em todos os lugares ao mesmo tempo — rindo, gritando, ativando alavancas, explodindo artefatos improvisados. Era um gênio do campo de guerra. Ao ver um grupo de anões encurralado, montou em segundos uma plataforma giratória com lanças mágicas giratórias, que varreu os demônios de volta para o abismo.

Por um momento, a batalha parecia vencida. As fileiras inimigas recuavam. O povo de Thuncorn rugia. A muralha não havia cedido. Ainda havia esperança.

Até que o chão tremeu.

Uma explosão vinda das profundezas da terra abriu uma cratera flamejante. Dezenas de guerreiros anões foram engolidos em um instante. Uma onda de energia pútrida atravessou o campo, fazendo as armas se contorcerem nas mãos, as runas apagarem, os escudos trincarem.

E então, o silêncio.

Três figuras emergiram da fumaça e do fogo.

À esquerda, Drenhayr, a Rainha Demônio da Perversão: pele escarlate, cabelos chamejantes, armadura viva. Seus braços estavam cobertos por veias visíveis de sangue que fluíam no ar como serpentes. Cada gesto seu extraía sangue dos inimigos próximos, moldando-o em lanças e correntes. A manipulação era grotesca, bela, impossível de ignorar. Quando tocava o chão, o próprio sangue dos guerreiros mortos se erguia como golens sangrentos.

No centro, Belial, o Rei Demônio da Iniquidade: corpo titânico, couraça adornada com ossos e ouro maculado. Seus olhos não piscavam. Ele caminhava sem pressa, e cada passo fazia as placas do chão racharem como vidro fino. A terra cedia sob sua fúria silenciosa. Sua presença era uma declaração de morte inevitável.

À direita, Glasya-Labolas, a Rainha Demônio da Carnificina: véus ensanguentados, máscara sorridente, correntes vivas dançando em suas mãos. Seu riso era um assobio cortante, como garras arranhando o céu. Suas correntes se moviam como serpentes famintas, chicoteando com vontade própria, arrastando guerreiros para a escuridão com gritos sufocados.

As forças de Mor'drak rugiram em uníssono. O ar ficou denso. As estrelas desapareceram.

E Arion, no meio da batalha, sentiu seu coração acelerar.

A alvorada não viria com o sol.

Viria com o fogo.

E ele estava pronto para queimá-lo com eles.


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