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O Amado da Luzz
Capítulo 33
1120 palavras • 6569 caracteres • ⏱ 4 min 29 s

Capítulo 33

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O silêncio nos aposentos de Arion era espesso como fumaça antes da tempestade. Ele observava as runas antigas gravadas no teto de pedra, enquanto as palavras de Tseshtia ainda ardiam em sua mente. O preço era a vida. E mesmo assim...

Ele tentou se levantar da cama, mas seus músculos protestaram com um tremor quase imperceptível. A mão escorregou sobre a pedra fria ao tentar se apoiar. As pernas fraquejaram. O suor brotou na testa. Mas ele se manteve. Cada passo em direção à porta era lento, arrastado, como se lutasse contra um peso invisível. Não havia firmeza em seus movimentos — apenas determinação bruta.

— Eu aceito. — Sua voz rompeu o silêncio como uma lâmina. — Faça o ritual.

Tseshtia não sorriu. Apenas assentiu com a gravidade de quem sela um destino.

— Vista-se. Encontre-me no centro do Coração Ígneo. A chama o aguarda. — disse ela, antes de desaparecer pelos corredores do templo.

Algum tempo depois, envolto por vestes cerimoniais brancas, Arion deixou os aposentos com passos lentos e trôpegos. Cada degrau era um desafio, cada corredor uma lembrança da fragilidade que ainda o cercava. O som das fornalhas crescia à medida que descia, e as paredes vibravam como se a própria Thuncorn murmurasse segredos antigos.

No Coração Ígneo, onde uma chama azul ancestral ardia desde os primórdios dos anões, Tseshtia preparava o ritual. Círculos rúnicos haviam sido traçados em várias camadas concêntricas, vasos com cinzas sagradas alinhavam o altar, e névoas de prata pairavam no ar, dançando entre pilares de fogo encantado. O chão era coberto por símbolos antigos que pareciam se mover sutilmente quando olhados por muito tempo.

Quando Arion entrou, Draven, Thalia e Tark logo o seguiram, alarmados com a presença dele ali.

— O que está acontecendo? — perguntou Tark, ofegante.

— Arion? — Thalia arregalou os olhos. — Você não devia estar de pé!

O elfo os encarou, ainda apoiando-se discretamente em uma das colunas para disfarçar a fraqueza. Sua voz, porém, saiu firme.

— Tseshtia vai me curar. O ritual... vai purificar tudo. E me tornar mais forte para a batalha.

Draven e Tark sorriram por um instante, aliviados.

— Isso é ótimo. Finalmente uma boa notícia — disse Draven, dando um leve tapinha no ombro de Tark.

Mas logo o sorriso de ambos se apagou ao notar o semblante sério de Arion.

— Por que essa cara? — perguntou Tark, franzindo a testa. — Arion? O que você não está nos contando?

Arion hesitou por um segundo. Então falou:

— O ritual... tem um preço. Para funcionar, ele exige minha vida.

O choque caiu como uma avalanche sobre os três.

— O quê?! — Thalia deu um passo à frente, incrédula. — Você quer dizer que vai morrer?!

— Não podemos permitir isso! — Tark exclamou.

Draven se adiantou, a expressão grave.

— Isso é loucura, Arion. Não depois de tudo. Não agora.

Thalia virou-se imediatamente para Tseshtia, os olhos em fúria.

— Você fez isso? Você empurrou ele pra isso?! Que tipo de monstro convence alguém a se matar?!

Tseshtia respondeu com um olhar sereno, porém firme:

— Eu dei a ele uma escolha. Nada mais. Ele escolheu.

— Não vamos permitir — disse Draven.

Arion ergueu a mão.

— Já decidi. E se tentarem me impedir, vão apenas desperdiçar o tempo que ainda me resta.

Ele virou-se para Tseshtia.

— Por favor, peça aos guardas que os impeçam de interromper.

Tseshtia assentiu. Com um leve aceno de mãos, os guardas se reuniram bloqueando a entrada. Os três companheiros foram contidos. A dor nos olhos de Thalia era palpável.

O ritual começou.

Tseshtia entoou cantos em dracônico ancestral. As chamas azuis tornaram-se lívidas, quase brancas. O Coração Ígneo inteiro tremeu. O círculo rúnico acendeu-se sob os pés de Arion. Linhas de energia começaram a subir pelo seu corpo, como raízes penetrando até a alma.

A dor veio como um relâmpago. Não era apenas física — era existencial. Como se cada lembrança fosse arrancada, queimada, vasculhada. As chamas brancas invadiram suas veias, expurgando as sombras enraizadas. A corrupção se contorcia, resistindo. As sombras gritavam, e Arion gritava junto.

Sua pele se abriu em veios de luz, seu corpo tremia como se fosse despedaçar. Sentia os ossos se rearranjarem, os músculos se retorcendo sob o calor purificador. A dor era tão imensa que sua mente quase se partiu. Ele mordeu a língua, sangue escorreu. Chorou. Gritou. Suplicou. Sentiu como se estivesse morrendo várias vezes, como se sua alma estivesse sendo dilacerada e recomposta.

E então... veio a reconstrução.

Os estilhaços da alma foram recolhidos, realinhados. As chamas negras foram consumidas. Uma força ancestral preencheu o espaço deixado. Ele sentiu o peso das eras, o toque da própria Crepusculum, moldando-o em algo novo.

Quando a luz cessou, Arion estava de pé. As vestes haviam desaparecido, consumidas pelo fogo. Seu corpo era outro: mais alto, mais definido, pulsando energia viva. Seus cabelos estavam brancos como a chama da purificação, os olhos dourados como os de Tseshtia.

Draven e Tark correram até ele. Thalia se aproximou em silêncio, lágrimas caindo. Arion sorriu, mas era um sorriso melancólico.

— Me sinto inteiro. Forte. Mas... sei que não tenho muito tempo.

Foi então que Tseshtia cambaleou, o corpo prestes a desabar. Arion correu para ampará-la, ainda desnudo, com os pés descalços sobre as cinzas.

— Você... realmente acreditou que o preço era a sua vida? — sussurrou, com um pequeno riso.

Ela segurou sua mão.

Arion congelou.

— Como assim?

— O preço... é a vida do sacerdote. Sempre foi. E eu... sabia que se dissesse, você recusaria. Por isso... menti.

Arion ficou atônito por um breve momento.

Todos ficaram em silêncio. Ela caiu de joelhos, sangue escorrendo da boca.

Thalia correu até ela, soluçando.

— Não! Você não pode morrer. Me perdoa... por tudo que te disse. Eu não sabia...

Tseshtia tocou o rosto da náiade, com a palma quente, quase luminosa.

— Você me deu algo que quase ninguém ousa oferecer a alguém como eu: confronto. Isso também é uma forma de amor.

Ela voltou-se para Arion.

— Agora você está pronto. Não só para lutar... mas para ser quem nasceu para ser. Vá. Lidere. Lute. Salve o que ainda pode ser salvo. Meu fogo... agora vive em você. Seus olhos são a prova.

E então, em um último suspiro, o corpo de Tseshtia começou a brilhar. Ela sorriu. Um sorriso calmo, de quem cumpriu o destino.

Seu corpo se desfez em cinzas prateadas, elevando-se ao teto da câmara como uma constelação fugaz. A chama do Coração Ígneo acendeu com o dobro de intensidade, como em reverência.

Todos se ajoelharam.

E Arion, coberto em luz, jurou que jamais deixaria aquele sacrifício ser em vão.


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