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O Amado da Luzz
Capítulo 32
815 palavras • 4885 caracteres • ⏱ 3 min 16 s

Capítulo 32

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Thuncorn se transformava diante dos olhos de quem ousasse observar. O rugido das forjas era contínuo, como se a própria montanha sussurrasse em aço e fogo. Os salões, antes ocupados por artesãos e mercadores, agora serviam de acampamento para soldados, estrategistas e ferreiros armando os voluntários. Os tambores de guerra não cessavam; batiam ritmados como o coração de um deus ancestral, convocando todos à resistência.

Tark, Draven e Thalia se dividiam entre ajudar nos preparativos e cuidar de Arion, que ainda permanecia nos aposentos reservados do templo. As notícias se espalhavam mais rápido que o calor das chamas: a horda marchava, cada vez mais próxima, deixando um rastro de cinzas e ossos por onde passava. O povo anão, resiliente e orgulhoso, trabalhava com precisão cirúrgica: túneis colapsados para conter avanços subterrâneos, torres de vigia reformadas com armas rúnicas, armadilhas mágicas plantadas nos corredores mais estreitos. Tudo respirava tensão. Tudo pulsava com a iminência do conflito.

Enquanto isso, no templo, as horas passavam em silêncio entre os corredores iluminados por tochas sagradas. Arion permanecia desacordado, ainda marcado pelas últimas sessões de purificação. Thalia o visitava, muitas vezes apenas para segurar sua mão ou cantar baixinho antigas melodias do Lago dos Espelhos. Ela não sabia se ele a ouvia — mas continuava, como se sua voz pudesse ancorá-lo no mundo dos vivos.

E então, entre os ecos das marteladas nas muralhas que soavam mais altos do que nunca, Arion despertou.

Seus olhos abriram-se devagar, como se até a luz lhe fosse um peso. Sentia-se drenado, como se seu corpo tivesse sido reconstruído com areia e fumaça. Olhou em volta, reconhecendo vagamente o teto abobadado de pedra do templo. Respirou fundo, tossiu levemente e tentou se erguer, mas gemeu de dor.

Thalia, que permanecia sentada a seu lado, imediatamente segurou seus ombros.

— Devagar — disse ela, com um tom suave. — Você está fraco ainda.

Arion piscou lentamente, os olhos se ajustando.

— Quanto tempo...? — murmurou ele.

— Duas semanas. Desde o ataque — respondeu ela, sem conseguir esconder o alívio na voz.

Ele franziu o cenho, buscando memórias nubladas. Bakrium. A dor. A escuridão. Os rituais com Tseshtia.

— E vocês... estão bem? Onde estavam?

Draven e Tark, que entravam no aposento naquele momento, se entreolharam antes de responder. Draven assentiu.

— Não se preocupe com isso. Estamos aqui agora. E vamos ficar.

Arion inspirou profundamente, sentindo o ar pesado dos aposentos. Queria fazer perguntas — tantas perguntas — mas seu corpo e mente ainda lutavam para se reconectar. Por ora, apenas estar acordado já era uma vitória.

Ele ficou alguns instantes em silêncio, reparando nos olhares cansados dos amigos, na rigidez tensa dos ombros de Thalia, no cansaço cravado nos olhos de Tark. Mesmo sem entender, algo estava errado. O ambiente era diferente. As conversas vinham sempre cercadas de cautela.

Foi então que Tseshtia entrou nos aposentos. Seus olhos ardiam com algo além da habitual intensidade. Fechou a porta atrás de si e aproximou-se da cama com passos firmes.

— Poderiam nos deixar a sós por um momento? — pediu ela. Thalia, Draven e Tark saíram em silêncio, respeitando sua autoridade.

Tseshtia se aproximou da cama, cruzou os braços e avaliou Arion com o olhar de uma guerreira.

— Está consciente. Isso é bom. Você resistiu bem às últimas sessões — comentou.

Arion a fitou com olhos ainda pesados, mas mais lúcidos.

— Eu... escutei sons estranhos. Movimentações. Algo me diz que o mundo lá fora não está em paz.

Tseshtia assentiu levemente.

— Sua intuição está afiada. O mundo jamais está em paz, Arion. Mas agora, o tempo ruge como um dragão ferido. E é por isso que estou aqui. Para lhe dar uma escolha.

Ela puxou uma cadeira e sentou-se à frente dele.

— Arion, você está vivo. Mas apenas isso não basta. O veneno das trevas ainda pulsa em você. O que tenho feito até agora é conter... não eliminar. E chegou o momento de decidir.

Arion sustentou seu olhar.

— Decidir o quê?

— Serei direta: durante nossas sessões de cura, percebi o potencial latente na sua alma. E precisamos desse potencial para nos ajudar na batalha que se aproxima. Eu posso curar você. Eliminar completamente a escuridão do seu corpo. Fazer com que sua alma e sua carne voltem a dançar na mesma música. Mais do que isso — posso despertar o poder que repousa em você desde o nascimento. Mas isso tem um preço.

— Qual?

Tseshtia não hesitou.

— A vida.

O silêncio se seguiu como uma cortina densa, abafando até o som das fornalhas distantes. Arion respirou fundo. Seus pensamentos, embora lentos, se agitaram como brasas sob a cinza.

Tseshtia se levantou, os olhos dourados como brasas vívidas.

— Pense bem, Arion. Às vezes, o verdadeiro sacrifício não é morrer... é continuar vivo.

Ela se virou em direção à saída.

— Tseshtia, espere... — sussurrou ele.


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