Duas semanas se passaram desde que Thalia contratara a guilda nas profundezas de Thuncorn. Duas semanas de noites insones, de vigilância silenciosa ao lado de Arion, de idas diárias à caverna escurecida onde Vixel a aguardava com novos sussurros vindos das sombras. E finalmente, naquela madrugada enegrecida pelo vapor das fornalhas, veio a notícia que ela tanto esperava.
— Encontramos os dois. — disse Vixel, surgindo da penumbra com os olhos felinos semicerrados. — O gnomo está em uma vila chamada Karraveth, a três dias de Grelm, seguindo a trilha do leste. Um caixeiro nos disse que ele viaja com um sujeito chamado Algrin, dormindo em barracos improvisados e fuçando peças em ferros-velhos. O tengu, por outro lado, está em Varda'sh, um oásis ao norte do Deserto de Aerthuun. Foi visto treinando com uma guerreira cega chamada Sorya, em uma espécie de enclave isolado de combate espiritual. Ninguém ousa se aproximar deles.
Thalia assentiu, o semblante sério. Por um instante, respirou fundo. A tensão em seus ombros parecia se dissolver com a notícia, ainda que momentaneamente.
— Envie mensagens agora. Quero que cheguem a eles imediatamente. Diga assim:
"Arion está muito mal. Estamos em Thuncorn. Ele precisa de vocês. Venham o mais rápido que conseguirem. Estou esperando."
Vixel torceu o canto da boca num sorriso enviesado.
— Mensagem direta. Gostei. Vai dar certo, boneca. Deixa comigo.
Enquanto ele saía para providenciar os corvos de comunicação da guilda, Thalia permaneceu no salão sombrio, observando as chamas tremularem nos braseiros ao redor. Um peso diferente caía sobre seus ombros. Agora que a esperança tinha nomes e destinos, a espera se tornaria uma espada pendente sobre cada batida de seu coração. O som da porta de ferro rangendo ao se fechar atrás de Vixel ecoou como um prenúncio. Os olhos de Thalia ardiam, mas ela não chorou. Apenas voltou para o templo.
Draven recebeu a mensagem nas dunas abrasadoras de Aerthuun, em meio ao calor cortante e ao som do vento varrendo as tendas do enclave. Estava terminando um exercício com Sorya, suas asas cobertas de areia e suor, quando o corvo pousou com uma urgência silenciosa. Ele leu o bilhete apenas uma vez. Não disse nada. Despediu-se com um breve aceno e partiu sem demora.
Tark, por sua vez, lia as palavras enquanto desmontava um de seus autômatos aos pés de uma caravana estalando em ferrugem, com Algrin dormindo ao lado. Mal terminou a leitura, já empacotava ferramentas e se despedia. O chamado era claro.
A viagem foi um desafio por si só.
Tark seguia sozinho pelas planícies escarlates que cercavam as Montanhas Fumegantes, o corpo pesado de sono e o espírito cansado de incertezas. A trilha era estreita, margeada por vegetação retorcida e silhuetas de árvores mortas que lançavam sombras sinistras. Estava quase chegando à base da encosta que levava aos portões de Thuncorn quando a floresta pareceu prender a respiração. Um cheiro acre, de carne podre e terra queimada, invadiu o ar.
Do nada, o ataque.
Bestas corrompidas emergiram das sombras com guinchos horrendos. Tinham corpos disformes, peles como couro rachado e olhos brancos, opacos como vidro leitoso. Tark gritou, girando nos calcanhares e sacando sua adaga. Sua pequena arma cortou o ar, acertando uma das criaturas no focinho, mas eram muitas — quatro, cinco, talvez mais, e todas o cercavam.
— Ah, pelos engrenados! — exclamou, ativando uma de suas engenhocas que lançou uma labareda curta e descontrolada.
A explosão derrubou duas bestas, mas outras avançaram. Tark cambaleou para trás, o ombro já rasgado por uma garra, sangue escorrendo pelas vestes manchadas. Mal conseguia ver, os olhos embaralhados pela dor e desespero.
E então, o céu rugiu.
Um assobio cortante precedeu a queda de uma sombra alada. Draven mergulhou dos céus como um cometa, as asas abertas como lâminas negras. Sua lança perfurou o peito de uma das criaturas, arremessando-a contra uma pedra com impacto seco. Girou no ar, cortando outra ao meio com as garras afiadas. O chão tremeu com sua chegada. O restante das bestas fugiu, apavoradas.
Draven pousou ao lado de Tark, respirando pesado, olhos ainda atentos.
— Você nunca aprende, não é? — murmurou, enquanto Tark caía sentado no chão, arfando.
— Achei... que podia dar conta... — respondeu Tark, tossindo.
— E eu achei que você tinha mais juízo. — Draven o ergueu sem esforço, segurando-o nos braços como um saco de mantimentos.
Com um impulso forte, alçou voo novamente. O vento cortava o rosto, e das alturas, viram o que nenhum dos dois gostaria de confirmar.
Ao longe, uma marcha fúnebre.
Uma horda imensa de demônios, bestas corrompidas e aberrações que não pertenciam a nenhum mundo vivo avançava como uma mancha. Estavam organizados. Comandados. E marchavam direto para o sul. Rumo a Thuncorn.
— Droga... — sussurrou Draven, acelerando o voo. — Segure firme.
Tark nada respondeu. Estava pálido, mas consciente. Os olhos arregalados de ambos miravam a mesma coisa: o início da guerra.
Eles chegaram aos portões de Thuncorn quando a madrugada ainda envolvia a cidade. Os guardas anões os interceptaram imediatamente, mas bastou o nome de Arion para abrirem caminho. Conduzidos pelos corredores de pedra e calor, seguiram até o Coração Ígneo, onde Arion descansava, ainda marcado pelas chamas do ritual.
Tark se ajoelhou ao seu lado, tocando a testa do amigo.
— Resistiu mesmo... moleque teimoso.
Draven permaneceu em silêncio, mas sua postura demonstrava alívio.
Enquanto isso, Thalia estava nas profundezas da guilda, diante de Vixel. O gnomo segurava um mapa esfumaçado nas mãos, apontando para pontos marcados com carvão.
— Sabe o que mais descobrimos? — disse ele. — Drakmir. A cidade dos kobolds nas Montanhas Cinzentas. Virou pó. Fumaça, cinzas e lamentos. Ninguém sobreviveu. Drenhayr passou por lá... e continuou marchando.
Thalia empalideceu, a boca entreaberta como se as palavras tivessem arrancado o ar de seus pulmões.
— Para onde?
— Sul. Tudo indica que Thuncorn é o próximo alvo.
Sem dizer mais nada, Thalia se virou e disparou pelas vielas de pedra, subindo escadarias e cruzando pontes suspensas. Quando chegou ao templo, seu coração batia como um tambor de guerra, mas, ao atravessar os corredores, deparou-se com uma visão que a fez parar por um instante.
Draven e Tark estavam ali, ao lado de Arion, que repousava após mais uma sessão com Tseshtia. O alívio varreu seu rosto. Por um momento, ela esqueceu das sombras que se acumulavam além da montanha.
— Vocês vieram... — disse ela, se aproximando com os olhos marejados.
Draven sorriu brevemente.
— Recebemos sua mensagem. Não íamos deixá-lo enfrentar isso sozinho.
Tark coçou a nuca, visivelmente cansado, mas vivo.
— A viagem foi longa... e um pouco agitada, digamos assim.
Thalia franziu o cenho.
— O que aconteceu?
Draven se adiantou.
— Encontramos criaturas corrompidas nas planícies. Bestas deformadas por magia sombria. Quase perdemos Tark. E do alto... vimos algo.
— Uma horda — completou Tark — Uma marcha. De monstros, demônios, sombras... rumo a estas montanhas. Enorme.
Thalia sentiu o chão fugir sob os pés. As palavras de Vixel fizeram ainda mais sentido.
— Eu acabei de saber de algo parecido. Drakmir... a cidade dos kobolds... foi destruída. As forças de Mor'drak estão vindo para cá.
Nesse instante, Tseshtia apareceu subitamente, os olhos incandescentes como tochas de batalha.
— Venham comigo. Torgrin precisa ouvir isso imediatamente.
Guiados pela Ssylith, atravessaram os corredores mais antigos da cidade até o Grande Anfiteatro de Fogo. Os salões ancestrais rugiam com o calor das fornalhas eternas. O som de martelos ecoava pelas paredes talhadas em rocha viva, como se o coração da montanha estivesse em constante pulsação. O grupo foi conduzido por dois sentinelas até uma escadaria curva que levava ao salão principal. Ali, entre colunas flamejantes e brasões antigos, encontraram Torgrin Martelo de Lume, o governante de Thuncorn.
Torgrin estava de pé sobre uma plataforma de obsidiana, cercado por conselheiros armadurados. Sua barba era grossa, trançada com fios de cobre incandescente, e seus olhos pequenos brilhavam como carvões acesos. Ao vê-los, estreitou o olhar e ergueu uma mão pesada.
— Vocês entram no meu salão como se fossem donos dele — disse, sua voz reverberando pelas paredes como trovão nas cavernas. — Quem são e por que vêm?
Tseshtia foi a primeira a se adiantar, mantendo o queixo erguido. Sua presença impunha respeito não apenas por sua aparência, mas pela energia feroz que a rodeava.
— Viemos com um aviso que não pode esperar. Uma horda está marchando pelas planícies do norte. A cidade de Drakmir foi destruída. Thuncorn está no caminho deles.
Torgrin arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o peito largo.
— Drakmir? Isso é grave... mas o que me garante que não estão exagerando? Há muito os mercadores inventam tragédias para justificar preços altos.
Draven avançou com um passo firme, os olhos rubros fixos no líder anão.
— Eu vi com meus próprios olhos. Criaturas corrompidas. Uma marcha organizada. Viemos o mais rápido possível. Se esperar para confirmar, pode ser tarde demais.
Tark pigarreou, o braço enfaixado ainda latejando.
— Fui atacado no caminho. Bestas corrompidas, deformadas por magia sombria. Se Draven não tivesse me encontrado, eu não estaria aqui agora.
Torgrin franziu o cenho, mas seus olhos não se desviaram de Tseshtia. A tensão aumentava.
— E você? Ssylith entre os nossos, posando de santa? — disse ele, cuspindo as palavras. — Desde quando permitimos que uma criatura das escamas fale por Thuncorn? O templo era dos anões. Éramos nós que carregávamos o fogo de Crepusculum.
Tseshtia deu um passo à frente, as chamas ao seu redor intensificando-se levemente. Sua cauda se movimentava com impaciência, e seus olhos dourados cintilavam com indignação.
— A deusa não escolhe pelo sangue. Ela escolhe pelo espírito. E se você não entende isso, Torgrin, talvez tenha esquecido o que significa carregar o fogo.
Ela falou com voz firme, ríspida e sem rodeios, como alguém que não tinha tempo para bajulações. Tseshtia era o tipo de figura que queimava ao tocar, que não se dobrava nem mesmo diante de reis.
Thalia se intrometeu, a voz firme.
— Arion ainda está vivo por causa dela. Ela tem feito o que nenhum dos seus curandeiros foi capaz. Você pode não gostar da forma que ela tem, mas negá-la agora é negar a própria chance de sobreviver.
Torgrin olhou para ela, os olhos estreitos como lâminas.
— E você, náiade, ousa me ensinar sobre honra anã? Você vem aqui, traz um aviso e exige ação sem provas. E espera que eu confie em palavras sopradas por uma serpente?
Tseshtia cerrou os punhos, mas não respondeu. O silêncio entre eles era como brasas prestes a explodir.
Por fim, Torgrin voltou-se para seus conselheiros, murmurando entre dentes.
— Se há sequer uma chance disso ser verdade, não posso arriscar. Não pelo orgulho.
Voltou-se ao grupo.
— Que os tambores soem. Que os ferreiros alimentem as forjas. Que as muralhas sejam reforçadas. Se a guerra está vindo... Thuncorn estará pronta para recebê-la com fogo e ferro.
Os tambores ancestrais começaram a ecoar nas profundezas. A cidade estremeceu com o chamado à guerra.
A alvorada viria em meio às chamas.

