Os dias que se seguiram à primeira purificação foram longos como eras e pesados como chumbo. Arion, frágil e silencioso, acordava sempre antes do amanhecer, com os olhos opacos e a respiração curta, como se apenas existir exigisse esforço. Tseshtia, impassível, o esperava no Coração Ígneo com sua expressão de pedra e olhos de chama. A cada novo ritual, as chamas azuis pareciam mais famintas, mais violentas, como se devorassem não apenas a corrupção, mas também a resistência do próprio Arion.
Os gritos começaram discretos, abafados pela dignidade do elfo. Mas à medida que os dias passavam, tornaram-se impossíveis de conter. Ecos de dor ressoavam pelas galerias de Thuncorn, atravessando paredes de pedra e aço, mergulhando ferreiros em silêncio, calando as canções dos mercados subterrâneos. O povo anão, orgulhoso e resistente, apenas inclinava a cabeça em respeito quando os gritos ecoavam. Sabiam que algo muito maior que eles estava acontecendo ali — sabiam que a própria Crepusculum intervia.
Thalia passava os dias entre o silêncio e a vigilância. Dormia pouco, comia menos. Era vista frequentemente sentada à beira da plataforma do ritual, mesmo quando este já havia terminado, observando Arion repousar sob os efeitos da dor. E embora nunca dissesse nada em voz alta, o modo como seus olhos demoravam sobre ele, o modo como seus dedos buscavam os dele na escuridão dos aposentos... diziam tudo. Seus olhos, outrora duros como aço, agora reluziam em momentos de distração, e seu coração vacilava sempre que ele gemia no sono inquieto.
As noites eram as mais difíceis. O som dos gritos de Arion tornava impossível o descanso pleno. Thalia andava pelos corredores iluminados por tochas, seus passos ecoando pela pedra viva. Certa noite, sem aviso, tomou uma decisão.
Deixando o templo com o capuz erguido, caminhou pelas vielas secundárias de Thuncorn, cruzando escadarias que levavam a níveis mais profundos da cidade. Ali, sob o sussurro do magma e o ranger de engrenagens antigas, encontrou o que procurava: uma guilda negra. Espiões, assassinos, contrabandistas, negociadores de segredos.
A entrada da guilda era discreta, oculta atrás de uma oficina abandonada. Guardas a interceptaram de imediato. Dois homens encapuzados surgiram das sombras.
— Perdida, florzinha? — disse um deles com escárnio, bloqueando a passagem.
— Ou veio se jogar nas sombras de propósito? — zombou o outro. — Isso aqui não é lugar pra uma criaturinha como você.
Thalia não respondeu. Apenas retirou uma bolsa de couro repleta de moedas de ouro reluzente. Jogou-a no chão entre eles. O som do metal silenciou qualquer insolência. Eles se entreolharam e, com relutância, abriram caminho até uma porta oculta, batendo três vezes em um padrão específico.
O interior era escuro, repleto de fumaça e sussurros. Havia mesas baixas, dados sendo rolados, garrafas espalhadas, e homens e mulheres de olhos desconfiados. Vixel, o líder da guilda — um gnomo de dentes afiados, cabelo emplumado e olhar felino — ergueu o rosto de uma mesa coberta por mapas e contratos.
— Quem te mandou aqui, boneca? — perguntou ele, com a voz baixa e venenosa. — E por que uma garotinha metida se sujaria com a nossa lama?
Thalia ergueu o queixo e lançou a bolsa de ouro sobre a mesa, como fizera antes.
— Estou pagando por silêncio e eficiência. Preciso encontrar dois companheiros. Draven, um tengu guerreiro de olhos vermelhos, cerca de dois metros. E Tark, um gnomo inventor com ferramentas demais e juízo de menos. O primeiro foi visto pela última vez seguindo para o norte, depois de Lys'tara. O segundo pode ter ido até Grelm atrás de alguém chamado Algrin.
Vixel esfregou o queixo com o polegar.
— Tengu no deserto e gnomo entre ratos. Não vai sair barato.
Thalia puxou outra pequena bolsa de dentro da túnica e a colocou ao lado da primeira.
— Quero um relatório das buscas todas as noites. Quero progresso, nomes, rotas, tudo. Não me tragam boatos — me tragam rastros. E não vão até mim, eu virei até vocês.
Já virando-se para sair, parou de súbito.
— E mais uma coisa. Quero tudo que souberem sobre os movimentos sombrios, demônios, vampiros, cultos, símbolos, cidades desaparecidas. Se puderem me entregar rumores com dentes, serei grata. E pagarei por eles.
Vixel sorriu. Um sorriso largo e desconfortável.
— Dois trabalhos de risco, ouro limpo, e um rosto bonito. Acho que teremos uma bela temporada.
Thalia saiu sem responder, o capuz já cobrindo os cabelos novamente.
Toda noite, como combinado, ela retornava disfarçada às profundezas para ouvir os relatórios. Nos primeiros dias, nada. Apenas promessas e mapas riscados.
Mas no oitavo dia, Vixel a aguardava com um sorriso curioso.
— Seu tengu foi visto. No Deserto de Aerthuun. Um acampamento nômade mencionou um guerreiro alado. Alto, veloz, treinando com guerreiros do sul. Não temos mais que isso ainda. Mas estamos no rastro.
Thalia permaneceu em silêncio. Seus olhos brilharam por um instante.
— E Tark?
— Indícios em Grelm. Um gnomo estranho, com mochilas barulhentas. Mas Grelm é um poço de mentiras. Ainda estamos apurando.
— E os sombrios?
Vixel ficou sério.
— A Rainha Demônio Drenhayr marchou. Cidades humanas ao norte foram destruídas ou rendidas. Outras sumiram. Há símbolos antigos sendo pintados nos portões das vilas. Os ventos carregam cheiro de sangue.
Thalia cerrou os dentes. A ameaça crescia. O mundo caía, e o elfo que poderia ser sua esperança... ainda ardia sob as chamas.
Naquela noite, como em todas, os gritos de Arion ecoaram pela montanha.
E Thalia, diante das fornalhas, não se moveu.
Porque ainda havia esperança.
E ela jamais deixaria que ele enfrentasse aquilosozinho.

