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O Amado da Luzz
Capítulo 29
1100 palavras • 6829 caracteres • ⏱ 4 min 24 s

Capítulo 29

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O chamado veio como um trovão na calmaria dos corredores da Torre Carmesim. Thalia interrompeu seu treino com Maelion quando o mensageiro, exausto e ofegante, caiu de joelhos diante da entrada principal. Suas palavras, entrecortadas pelo cansaço e pela urgência, carregavam um peso que não se podia ignorar:

— Arion... ele está morrendo. Me enviaram para avisá-la, estão convocando você no templo.

Sem hesitar, Thalia reuniu seus poucos pertences. O mestre da torre nada disse, apenas observou-a com um olhar que misturava respeito, pesar e compreensão. Sabia que aquela jornada não era só por dever — era por conexão. Ela desceu os degraus da torre como uma tempestade contida, determinada, feroz, guiada por um vínculo que ia além das palavras.

Ao chegar às portas do Templo de Lumiron, Elenya a aguardava na entrada, com semblante grave.

O reencontro foi breve. Elenya conduziu Thalia até a sala onde Arion jazia inconsciente. O elfo parecia uma sombra de si mesmo, a pele marcada por veios escurecidos e o rosto abatido.

— O que aconteceu com ele? — perguntou Thalia, se aproximando.

— Fomos a uma missão fora da cidade. Bakrium apareceu. Disse que estava ali por Arion. Eles lutaram... e ele foi brutalmente derrotado. Os paladinos que nos acompanhavam foram mortos. Eu fui presa numa barreira de chamas negras. Quando consegui me libertar, Bakrium havia deixado Arion à beira da morte. Trouxe-o para cá o mais rápido que pude.

Thalia apertou os punhos, contendo a emoção.

— E os sacerdotes...?

— Tentaram tudo. Encantamentos, preces, selos... Nada funcionou. A corrupção resiste à Luz. Foi quando os anciãos disseram que havia apenas uma esperança: levá-lo a Thuncorn, ao Templo da Deusa Crepusculum. Somente a chama dela pode purificar esse tipo de mal.

— Eu o levarei.

— Eu deveria ir — disse Elenya, com pesar. — Mas os anciãos me proibiram. Se Bakrium chegou tão perto, outras forças podem tentar novamente. Não posso deixar Lys'tara vulnerável. Por isso te chamei. Porque confio em você. Eu tentei contatar Tark e Draven também. Enviei mensageiros, mas nenhum retornou.

Thalia se aproximou da maca e segurou a mão de Arion.

— Então é por isso que eu estou aqui. Eu o levarei. E o trarei de volta.

A partida exigiu preparação. Elenya organizou pessoalmente os suprimentos e escoltou Thalia até os estábulos do templo, onde um pequeno grupo de paladinos já os aguardava. Cavalos selados, equipamentos de cura, proteções mágicas — tudo foi meticulosamente preparado.

Naquela mesma manhã, quando o sol ainda lutava contra a neblina do vale, o grupo partiu em direção ao sopé das Montanhas Fumegantes. O caminho atravessava planícies escarpadas, trilhas de floresta densa e desfiladeiros ameaçadores. A viagem foi lenta, cuidadosa, e marcada por longas vigílias ao lado do corpo enfraquecido de Arion, mantido vivo por feitiços de sustentação.

Após dias de marcha silenciosa, finalmente avistaram Thuncorn. A entrada da cidade anã era uma maravilha de engenharia esculpida na própria montanha: portões colossais de ferro entalhado com brasões antigos, ladeados por estátuas de guerreiros anões empunhando martelos e escudos.

Guardas anões os interceptaram imediatamente. Diferente do que esperavam, os anões não se intimidaram com os símbolos de Lumiron nem com os selos de Eldrasil. Exigiram explicações com firmeza. Thalia explicou a situação, apresentou os documentos, e ao mencionar o nome de Tseshtia, os olhos dos guardas se estreitaram.

— Se é ela quem o tratará... que os deuses os acompanhem — murmurou um deles, antes de abrir passagem.

Adentraram a cidade subterrânea, uma tapeçaria viva de forjas eternas, salões escavados e pontes suspensas sobre rios de magma. Thuncorn pulsava com calor, eco e fumaça, mas também com dignidade ancestral. Passaram por mercados subterrâneos, cavernas onde anões trocavam minérios por relíquias mágicas, e templos esculpidos diretamente no granito.

O caminho até o Coração Ígneo foi uma sequência de corredores e escadarias esculpidas, guardadas por sentinelas em armaduras pesadas. Quando finalmente chegaram, Thalia sentia o calor aumentar a cada passo.

Tseshtia os aguardava. Ela não era como Thalia havia imaginado. Não havia serenidade ou suavidade em sua presença. Era intensidade bruta. Escamas opalinas, olhos dourados que queimavam como brasas e uma postura que impunha respeito. Ela não demonstrou surpresa — apenas impaciência.

— Quem ousa perturbar o Coração Ígneo? — sua voz era como rocha se partindo.

Thalia deu um passo à frente, curvando-se levemente.

— Senhora Tseshtia. Sou Thalia, enviada de Lys'tara. Este é Arion. Ele foi corrompido pelas chamas negras de Bakrium, o filho do Dragão da Morte. Os sacerdotes de Lumiron não conseguiram curá-lo. Disseram que apenas a chama de Crepusculum poderia purificá-lo.

Tseshtia estreitou seus olhos dourados.

— Que idiotas ousaram tocá-lo com Luz comum? Isso só fortalece as trevas dele. — Ela bufou, se aproximando da maca onde Arion estava. — E vocês o trouxeram até aqui em estado instável? Vocês têm sorte por ele ainda estar respirando.

— Por favor — disse Thalia, com humildade. — Ele precisa de ajuda. Eu o protegerei com minha vida se for necessário.

Tseshtia girou a cauda com impaciência, depois assentiu.

— Coloque-o sobre a plataforma. E se prepare para ouvir gritos. Isso vai doer.

O ritual começou ali mesmo, no coração de Thuncorn. Cânticos dracônicos antigos ecoaram pelas paredes de obsidiana. Chamas azuladas envolveram o corpo do elfo, tocando a corrupção como se acariciassem uma ferida.

Dentro de si, Arion flutuava num mar de memórias fragmentadas. Lirael, sua mãe. Elenya. Thalia. O medo. A culpa. E, no centro de tudo, uma voz. A voz de Thalia chamando-o de volta. Não com gritos, mas com presença. Com constância. Com esperança.

A escuridão recuou.

As marcas negras retorceram-se, tentando resistir à purificação, mas Tseshtia manteve-se firme, entoando nomes antigos e selando cada veia com fogo sagrado. O corpo de Arion contorceu-se. Gritou. Chorou. Mas não foi abandonado.

Thalia segurava sua mão.

Após longas horas, as runas cessaram. A luz acalmou-se. As trevas não sumiram completamente — mas cederam. As marcas escuras se retraíram até o ombro e perderam intensidade. Os olhos de Arion, por fim, abriram-se.

— Thalia...? — sussurrou.

— Seja bem-vindo de volta, Arion — respondeu ela, emocionada.

Tseshtia se aproximou.

— A corrupção ainda está aí. Mais fraca, mas viva. Você só resistiu ao primeiro fogo. Terá de passar por esse ritual todos os dias, até que a sombra seja consumida completamente.

Arion assentiu, fraco, mas consciente. O caminho seria longo. Mas agora, havia um caminho.

E no coração da montanha, enquanto as forjas rugiam como dragões adormecidos, a batalha pela vida de Arion havia começado a virar.

E o mundo, ainda girando em trevas, parecia um pouco mais claro.


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