O mundo pareceu parar no instante em que as lâminas de Arion e Bakrium colidiram. O som metálico ressoou pela floresta como um trovão contido, ecoando entre as árvores como o prenúncio de uma tempestade. A energia da Luzz cintilava na espada de Arion, dourada como o sol nascente, enquanto a lâmina de Bakrium pulsava com trevas líquidas, como se a própria noite tivesse sido moldada em aço.
Arion avançou com precisão, os pés firmes no solo úmido da floresta. Seus olhos estavam fixos no inimigo, e por um momento, tudo o que aprendera parecia fluir com perfeição. Estocadas rápidas, defesas bem calculadas, desvios no último instante. Ele não pensava — era como se o corpo soubesse antes da mente.
Mas Bakrium não era um adversário comum. Ele se movia com uma leveza cruel, quase preguiçosa, como se dançasse em meio ao caos. Sua espada encontrava brechas, seus passos previam os movimentos de Arion. A cada choque de lâminas, um impacto. A cada rosnado, um trovão interior.
— Você luta como se ainda acreditasse que pode vencer — provocou Bakrium, bloqueando um golpe de Arion com o antebraço revestido em sombras. — Isso é encantador. Quase comovente.
Arion recuou, respirando com dificuldade. O sangue escorria de um corte na sobrancelha, entrando em seus olhos. Seus músculos doíam, mas ele ignorava a exaustão, forçando o corpo além dos próprios limites.
Com um grito, ele avançou novamente, desferindo uma sequência veloz de golpes. A espada de Elloryn cintilava com cada estocada, espalhando luz pelas folhas da floresta. Mas Bakrium absorvia os ataques com sua lâmina negra, desviando com facilidade, como se estivesse participando de uma dança particular. Ele sorria durante a luta, como se tudo aquilo fosse uma brincadeira.
— Olha só... tanta fúria... tanta esperança nos olhos. Que desperdício — zombou, desviando com um giro gracioso e empurrando Arion com uma mão no peito. — Isso é tudo que aprendeu com os paladinos? Onde está o poder dos seus ancestrais?
Bakrium golpeou o peito de Arion com a parte chata da espada, lançando-o contra uma árvore com força brutal. Arion sentiu as costelas estalarem. O ar escapou de seus pulmões com um gemido rouco. A dor queimava, mas ele se obrigou a levantar. Seus braços tremiam, os dedos mal seguravam a empunhadura da espada.
Bakrium se aproximou com passos calmos, rindo baixinho.
— Você luta com tanta seriedade... mas ainda é um menino jogando guerra. — Ele deu uma estocada lateral que Arion mal conseguiu bloquear. — Sabe o que eu vejo? Alguém que tenta provar algo, mas nem sabe pra quem.
— Eu luto por Ellyndor! — rugiu Arion, contra-atacando.
— Não. Você luta porque tem medo de ser esquecido. — Bakrium desviou com facilidade, girando o corpo e lançando Arion ao chão com um chute giratório. — Medo de ser irrelevante. Um príncipe sem reino. Um herdeiro sem passado.
Arion tentou se levantar mais uma vez, mas sua visão escurecia. Sangue gotejava de sua boca. Seus joelhos falhavam.
— Você ainda não está pronto — murmurou Bakrium, se agachando ao lado dele. — Ainda luta como se fosse um garoto tentando ser um herói. Mas o mundo não precisa de heróis. Precisa de monstros que saibam onde morder.
Bakrium cravou a mão livre no ombro de Arion. A energia negra penetrou sua carne como fogo gelado. Arion gritou, a dor era insuportável, como se sua alma estivesse sendo arranhada por dentro. Sua pele se retorcia com as marcas negras formando veios escuros que se espalhavam como raízes de podridão sob a pele.
— Um presente — disse Bakrium, erguendo-se. — Para que se lembre de mim.
Ele se virou e caminhou calmamente para as sombras da floresta. A barreira de fogo que prendia Elenya se desfez com a sua saída. Ela correu até Arion, ajoelhando-se ao seu lado.
— Arion... Arion! — gritou, tentando estancar o sangramento. Mas não era só um ferimento físico. A corrupção pulsava como uma doença viva sob sua pele.
Ela pressionou as mãos sobre o peito dele e murmurou palavras sagradas, mas a energia da Luz hesitava em tocar o que fora envenenado pelas trevas.
— Não... não posso perder você também — murmurou.
Com esforço, ergueu Arion nos braços e o conduziu, cavalgando o mais rápido que pôde, até o Templo de Lumiron. O percurso foi uma corrida contra a morte, e cada solavanco arrancava novos gemidos de dor do corpo desacordado do elfo.
Quando chegaram, sacerdotes vieram correndo ao vê-la atravessar os portões com o corpo ensanguentado de Arion. Levaram-no para os aposentos internos, tentaram curá-lo com todos os encantamentos disponíveis. Mas nada funcionava. A corrupção parecia se alimentar da própria luz, rejeitando qualquer tentativa de purificação.
— Não conseguimos estabilizá-lo. — disse um dos anciãos, cabisbaixo. — A escuridão... ela já se enraizou.
— O que poderia causar uma corrupção assim? — perguntou uma das sacerdotisas, trêmula.
Os sacerdotes se entreolharam. Um deles, o mais velho, respirou fundo.
— Diga-nos, Elenya. Quem lançou esta maldição sobre ele?
— Foi Bakrium. O Filho do Dragão da Morte. As chamas negras dele... queimaram até a alma de Arion.
Um murmúrio de horror correu entre os sacerdotes. O ancião aproximou-se, mais sério do que antes.
— Então devemos levá-lo até Thuncorn. Ao Templo da Deusa Crepusculum e procurar por Tseshtia, sua representante na terra. Somente o poder da deusa-dragão das chamas poderá purificar algo assim. A Luz comum não é suficiente para dissolver as chamas da morte.
Elenya assentiu lentamente, ainda segurando a mão de Arion.
— Então que seja feito. Eu irei com ele.
Mas o ancião ergueu a mão, interrompendo-a.
— Não pode. Se Bakrium, o filho do Dragão da Morte, conseguiu se aproximar tanto de Lys'tara, então outras forças sombrias também podem estar à espreita. Sua presença é necessária aqui, para proteger a cidade e o templo. Se partir, deixará o templo de Lumiron vulnerável.
Elenya cerrou os punhos, lutando contra a frustração. Seus olhos marejados, mas sua voz firme.
— Então enviarei mensageiros. A todos os companheiros de Arion. Vão para onde ele disse que estariam. Encontrem-nos. Rastreiem-nos. Somente com eles ele terá forças para seguir.
Os mensageiros partiram, velozes. O tempo corria. O destino de Arion agora dependia não apenas dos deuses... mas dos laços que ele havia construído.
Algum tempo depois, apenas um retornou.
— Senhora Elenya — disse o jovem, exausto — encontramos a náiade Thalia. Mas os outros... ainda estamos procurando. Nenhum sinal de Tark ou Draven.
Elenya assentiu, olhando para Arion, pálido, entre o limiar da vida e da morte. A corrupção ainda pulsava, mas algo no peito dele — algo em seu coração — ainda brilhava com a luz da Luzz.
Ela segurou sua mão, apertando com força.
— Você não vai morrer aqui. Não agora. Não depois de tudo.
Acima deles, o céu escurecia lentamente, como se até os deuses estivessem em luto. A floresta, silenciosa, aguardava.
A batalha havia terminado. Mas a guerra em Arion pelasua vida apenas começava.

