O céu sobre Lys'tara estava tingido de tons escarlates quando Elenya bateu à porta dos aposentos de Arion. Ele já estava de pé, revestido pela armadura cerimonial da Ordem que ganhara de sua mestra e com a espada embainhada às costas. Os dias de treino o haviam transformado. Seus olhos, embora ainda jovens, carregavam a gravidade de quem havia começado a entender o peso do mundo.
— Vista-se. Vamos sair. — disse Elenya, com sua voz firme e direta.
— Pra onde vamos? — perguntou Arion, franzindo o cenho.
— Uma caravana foi atacada ao norte. Normalmente isso seria trabalho dos guardas. Mas os rastros indicam algo... incomum. E por isso fomos chamados. Acredito que você está pronto para ver o que o mundo exige dos que empunham a luz.
Arion assentiu em silêncio.
Poucas horas depois, atravessavam a floresta ao norte da cidade, acompanhados por três paladinos da Ordem. A brisa era úmida, carregando o cheiro de terra e sangue. O caminho estava repleto de sinais de combate: flechas negras cravadas em árvores, carroças despedaçadas, pegadas fundas como se a terra tivesse tremido sob algo pesado.
— Isso não foi um ataque de bandidos. — murmurou Arion, observando um símbolo queimado no tronco de uma árvore: uma espiral invertida feita de fuligem.
— Você está certo. — disse Elenya. — Essa marca não é humana. E veja toda essa energia corrupta se espalhando...
Foi então que a floresta silenciou. O vento cessou. Os animais pararam. Um frio repentino tomou o ar como se o mundo tivesse prendido a respiração.
E então, ele apareceu.
Do alto de uma elevação rochosa, uma figura de manto escuro e olhos de um vermelho incandescente os observava. Seu semblante era jovem, belo, mas havia algo cruel em sua postura. Sua presença alterava o próprio ar, tornando-o mais denso, como se a escuridão tivesse uma vontade própria.
— Então aí está você. — disse Bakrium, com um sorriso enviesado. — Arion. O herdeiro de Elloryn.
Arion puxou a espada num reflexo instintivo. Elenya colocou-se à frente.
— Afaste-se, Arion. Esse é Bakrium, filho do Dragão da Morte. Um dos arautos das sombras. Ele não deveria estar nos domínios de Lumiron.
— E ainda assim, aqui estou. — respondeu Bakrium, descendo da rocha com a leveza de um predador. — Estranho como a luz sempre acredita que pode definir os limites da escuridão.
Ele caminhou lentamente até o centro da clareira, ignorando os paladinos, ignorando Elenya, com os olhos fixos apenas em Arion.
— Você ainda sonha com os cães dos demônios nas florestas escuras? — perguntou ele, com um tom enigmático.
Arion franziu o cenho, desconcertado.
— Como você...?
Bakrium não respondeu. Apenas sorriu, quase gentilmente.
— E naquela ruína, quando a coragem falhou... você ouviu uma voz, não foi? Um sussurro que parecia seu, mas não era. Uma força que ergueu sua lâmina quando seu corpo cedeu.
Arion engoliu seco. A lembrança dos episódios — a aparição de ajuda invisível contra os Vorkhul, o impulso inexplicável de continuar na provação das ruínas — agora ecoava de forma mais clara. Não havia dito isso a ninguém.
— Foi você. — sussurrou Arion.
Bakrium não confirmou. Apenas deu de ombros.
— A verdade tem muitos nomes, e eu não carrego nenhum deles com orgulho.
— Por que está aqui? — exigiu Elenya. — O que quer de Arion?
Bakrium lançou-lhe um olhar lateral, desinteressado.
— Você não está no centro desta história, paladina. Ele está. E ele sabe disso.
Os paladinos se entreolharam, espadas prestes a se erguer. Elenya avançou um passo.
— Não vamos deixá-lo ferir ninguém.
Bakrium suspirou.
— Sempre a mesma canção. Oferecemos palavras e recebemos aço. E depois eu que sou o maligno.
Os paladinos avançaram.
No instante seguinte, tudo se transformou.
Bakrium respondeu com um gesto sutil. Colunas de fogo negro explodiram sob os pés deles. Dois foram consumidos instantaneamente. O terceiro tentou recuar, mas foi arremessado contra uma árvore por uma rajada de energia sombria.
Elenya correu para intervir, mas Bakrium traçou um arco com os dedos no ar. Uma espiral flamejante ergueu-se ao redor dela, prendendo-a em uma barreira de chamas negras. Ela golpeou as chamas, mas foi repelida com brutalidade.
— Não a machuque! — gritou Arion.
Bakrium voltou-se para ele. Seus olhos ardiam, mas seu tom era sereno.
— Isso depende de você, Arion. Estou aqui por você. Vamos ver até onde vai a luz que você diz carregar.
A espada de Arion brilhou com a luz dourada da Luzz. Seus olhos se fixaram nos de Bakrium. E naquele instante, entre palavras não ditas e memórias ocultas, o confronto tornou-se inevitável.
Quando suas lâminas colidiram pela primeira vez, não foi só o ar que tremeu.
Foi o destino.
Bakrium recuou com um salto fluido, girando no ar antes de aterrissar com os joelhos dobrados e a capa esvoaçando como sombras vivas. Arion manteve a postura, os olhos firmes na figura à sua frente. O campo agora iluminava-se com a alternância de luz e trevas conforme seus poderes se chocavam.
— Você está hesitando — provocou Bakrium, girando a lâmina negra com uma elegância desconcertante. — Isso foi tudo que aprendeu? A temer suas próprias sombras?
Arion não respondeu. Avançou com uma estocada precisa, que Bakrium desviou por milímetros, contra-atacando com um arco largo que quase atingiu o flanco de Arion. O som das lâminas cortando o ar ecoava como trovões entre as árvores.
Elenya observava da barreira, os punhos cerrados e os olhos cheios de frustração. Cada vez que tentava romper a prisão de chamas, era repelida com violência.
— Arion! Ele quer desestabilizar você! Mantenha o foco! — gritou ela.
Mas Arion mal ouvia. Cada movimento de Bakrium parecia prever o seu, como se ele conhecesse sua forma de lutar. Como se tivesse observado... ou treinado com ele.
Bakrium sorriu de novo, cruel e enigmático.
— Vamos ver até onde você pode ir antes de quebrar.
Com um giro preciso, ele conjurou uma rajada de energia escura que Arion bloqueou por instinto. O impacto o lançou para trás, mas ele se firmou com os pés cravados no chão. A espada emitiu um brilho intenso, respondendo à sua determinação.
— Eu não vou recuar. Não desta vez. — disse Arion, a voz baixa, mas firme.
Bakrium avançou.
E a verdadeira batalha começou.

