Com o passar dos dias, o tempo em Lys'tara assumiu um ritmo diferente para Arion e Thalia. Suas rotinas tornaram-se marcadas pelo suor, pela disciplina e pela solidão controlada. Ambos sabiam o que precisavam fazer. Ambos sabiam que não poderiam fracassar. Mantinham contato por cartas breves, trocando palavras de encorajamento e fragmentos de progresso. Era um fio invisível que os unia, fino, mas resistente.
No entanto, nem Tark nem Draven haviam enviado qualquer notícia desde que partiram em busca de seus próprios mestres. Essa ausência começava a pesar. Às vezes, enquanto encarava a estátua de Lumiron, Arion se perguntava se eles ainda estavam vivos. Eles não eram mais apenas desconhecidos que tinham um objetivo em comum, depois de tantos desafios superados juntos, eles eram seus fiéis companheiros, pessoas em quem ele confiaria sua retaguarda sem pestanejar.
Na alvorada, o Templo de Lumiron era banhado por uma luz dourada que filtrava-se pelos vitrais como bênçãos silenciosas. Arion caminhava descalço pelos mosaicos frios da arena sagrada, sentindo cada passo como uma oração. A espada estava presa às costas, mas sua mente repousava em outro lugar. Desde sua última conversa com Elenya nos arquivos, havia meditado noite após noite, buscando compreender não só o que carregava, mas o porquê.
Elenya o aguardava, de pé ao centro da arena, braços cruzados e olhos atentos.
— Você sabe por que está aqui? — ela perguntou, sem rodeios.
— Para aprender a proteger o que importa. Mesmo quando tudo dentro de mim grita para atacar — respondeu Arion, com humildade na voz e firmeza no olhar.
Ela assentiu.
— Hoje, o escudo será sua lâmina. Sua primeira tarefa: permanecer no círculo por três minutos enquanto quatro paladinos testam sua estabilidade. Não contra-ataque. Apenas resista.
A prova começou. Rajadas de luz, estocadas suaves, pequenos impactos — todos desenhados para desestabilizá-lo. Arion caiu, hesitou, levantou-se. Tremeu, mas não cedeu. Quando o tempo terminou, Elenya apenas disse:
— Amanhã, quatro minutos.
Enquanto isso, a Torre Carmesim rugia sob um céu cinzento, onde trovões dançavam como serpentes elétricas. Thalia atravessava os corredores de pedra negra, marcados com runas vivas que pulsavam com o fluxo da magia. A cada passo, enfrentava olhares desconfiados, comentários velados. Para os magos da torre, ela era apenas mais uma alma instável tentando não se afogar no próprio poder.
Ela notava. Mas não reagia como antes. Agora, ao passar por aprendizes, por vezes retribuía com um leve aceno de cabeça. Não esperava resposta — e não se importava se recebia. Estava mais centrada. Mais calma. Algo nela mudava, ainda que sutilmente.
Maelion a submetia a desafios cada vez mais severos. Ora físicos, ora mentais. Num salão circular envolto por espelhos de energia, Thalia era confrontada por ilusões: sua mãe, Nyxil, Arion ferido. Vozes e imagens que a arrancavam do equilíbrio. Sua primeira reação era sempre lutar, repelir.
— Não fuja — dizia Maelion. — Não se vence a tempestade com negação. Se vence conhecendo o trovão pelo nome.
Certa tarde, ela gritou. A água fervente que girava ao seu redor transbordou. Mas desta vez, não destruiu. Transformou-se. Tomou forma e se estabilizou em torno dela. Maelion observou, em silêncio.
— Muito bem. Agora começamos de verdade.
No templo, Elenya combatia Arion com golpes rápidos e calculados. Cada movimento era uma pergunta: "Você protege com raiva ou com propósito?". Ela o desarmava com elegância, forçando-o a pensar além da lâmina.
— Você quer vencer. Eu quero que você resista. A vitória pode ser uma ilusão, mas a resistência molda heróis de verdade — disse ela, fazendo-o cair de costas mais uma vez.
Arion levantou-se com um leve sorriso.
— Então me ensine a resistir.
Elenya sorriu de volta, brevemente.
— Está começando a entender.
À noite, Arion escrevia uma breve mensagem para Thalia:
"Hoje me mantive em pé por quatro minutos. Parece pouco, mas doeu mais do que qualquer batalha. Espero que você esteja bem. Ainda sem notícias de Tark e Draven. Me pergunto onde estão..."
A resposta dela viria só no dia seguinte:
"Maelion me fez encarar minha mãe hoje. Literalmente. Estou viva. E com raiva. Mas pela primeira vez, sem medo dela. Também estou preocupada com os outros dois... Espero que estejam seguros."
Arion sorriu ao ler a carta. Não só pelo conteúdo, mas pelo modo como ela agora escrevia. Mesmo entre relâmpagos e lembranças dolorosas, Thalia estava mais leve, mais atenciosa. Era como se o centro dela estivesse se realinhando. Ele começou a imaginar a expressão dela ao escrever aquelas palavras. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se menos só.
Na Torre, Maelion a colocava diante de um orbe elementar instável. O menor descontrole, e tudo ruiria. Thalia não mais afastava as emoções. Ela as nomeava. As enfrentava. Aos poucos, as águas da sua alma paravam de transbordar.
No Templo, Arion ajoelhava-se diante da estátua de Lumiron, olhos fechados, espada embainhada ao seu lado. Não buscava poder — buscava clareza.
— Não quero ser uma lenda. Quero ser um escudo. Que ninguém mais precise morrer como meus pais — sussurrou ele. E a luz da alvorada respondeu.
E assim, separados por torres e templos, mas unidos pela missão, Thalia e Arion continuavam sua jornada. Cada um enfrentando batalhas que não se vencem com espadas, mas com o coração exposto e a alma em chamas. Ainda não sabiam onde estavam Tark e Draven. Mas sabiam que em breve, o caminho de todos voltaria a se cruzar.
Porque a tempestade se aproxima. E desta vez, ela encontrará escudos prontos.

