O céu ainda estava azul claro quando Arion, espada às costas e coração refeito, atravessou os jardins do Templo de Lumiron. O sol nascia preguiçoso, tingindo os vitrais com tons de ouro e púrpura, refletindo sobre os mosaicos do chão como se a luz estivesse se preparando para julgá-lo mais uma vez.
Ele caminhava com passo firme. O dia anterior havia lhe oferecido mais do que derrota e revelações — dera-lhe direção. A voz de Elenya o esperava como um sino silencioso dentro de sua mente: "Veremos se a luz o escolhe de novo."
Enquanto atravessava os portões do templo, uma brisa suave sussurrou entre os corredores. A alvorada carregava promessas. E desafios.
A Torre Carmesim se erguia como um farol de poder contido no lado leste de Lys'tara. Sua estrutura espiralada de pedra negra e cristais escarlates parecia engolir os relâmpagos que cruzavam o céu acima. Era uma fortaleza viva de conhecimento mágico, e Thalia sentia a pressão invisível de suas defesas antes mesmo de cruzar os degraus da entrada.
Ela chegara após uma caminhada longa, coberta pela poeira da cidade e pela ansiedade da incerteza. Carregava em mãos uma carta entregue pela anciã Ilmara, mas temia que isso pouco significasse num lugar regido por tradição e poder.
Os degraus da torre ecoavam sob seus pés quando empurrou as pesadas portas de carvalho. O interior era amplo, com tetos altos e janelas vermelhas que filtravam a luz em tons de sangue. Um corredor longo conduzia ao saguão principal, onde aprendizes de túnicas carmesim cruzavam apressados, alguns flutuando sobre círculos de energia, outros mergulhados em discussões esotéricas.
Thalia avançou com hesitação, sentindo os olhares atravessarem-na como lâminas veladas. Ninguém a impediu, mas também ninguém ofereceu ajuda. Caminhou até uma pequena bancada de recepção, onde uma jovem elfa de olhos dourados ergueu o olhar sem entusiasmo.
— Tenho uma carta da anciã Ilmara do templo de Eldrasil. Fui enviada para treinar com Maelion.
A elfa pegou o documento sem um comentário sequer. Leu rapidamente e então gesticulou vagamente para um banco encostado na parede.
— Espere. Se ele quiser recebê-la, será chamada.
Thalia esperou por horas. Observou a movimentação dos magos. O poder circulava naquele lugar como um vento antigo, e ela sentia-se pequena. Menor ainda quando passou a ser ignorada por completo.
Quando o céu começava a se avermelhar pela tarde, foi finalmente chamada por um aprendiz de túnica azul-escuro. Foi levada por corredores espiralados, subindo vários lances até alcançar um salão alto, com pilares vividamente iluminados por energia elétrica e símbolos arcanos pulsando.
No centro do salão, com as costas voltadas para a porta, uma figura solitária observava uma esfera de tempestade girando em silêncio sobre um pedestal. Raios percorriam a esfera como serpentes presas.
Thalia parou, esperando. A figura falou sem se virar:
— Thalia do Lago dos Espelhos. Qual seu objetivo? Porque usa da recomendação de uma velha amiga para buscar a mim?
Ela hesitou.
— Para me entender. Para entender o poder que carrego... antes que ele destrua a mim e aos outros.
O homem se virou. Maelion tinha olhos negros e profundos, pareciam ver além da carne. Trazia um manto de azul tempestade, e sua presença era como a calmaria antes do trovão.
— Não costumo aceitar recomendados. Mas deixo que o caos me guie quando ele sussurra mais alto. Veremos se há algo em você além da raiva. Me prove o porque devo aceitá-la.
Ele estalou os dedos. Um círculo de runas acendeu-se sob os pés de Thalia. Espíritos elementais se materializaram ao redor dela: fogo, gelo, vento. Cada um carregava um fragmento de emoção. Começaram a rodar ao seu redor, pressionando seu corpo e sua mente. Seus pensamentos e lembranças sendo exibidos como em uma projeção.
— De quem sente raiva? — perguntou Maelion, andando lentamente ao redor. — Do pequeno demônio? Da sua mãe? Desse Arion? De si mesma?
Thalia gritou. As esferas colapsaram ao seu redor. Tentou conter, mas sua magia explodiu num redemoinho de água fervente, que inundou o círculo e evaporou com um trovão conjurado por Maelion.
Ela caiu de joelhos, ofegante.
— Controle não é prender o mar, menina. É conhecê-lo. É aceitar que ele vive em você. Você não é vítima da tempestade. Você É a tempestade. E enquanto não aceitar isso, seu poder será sua prisão.
Thalia chorou. Silenciosamente. Sentiu-se exposta, despida diante do próprio reflexo. As imagens de Nyxil, a culpa, a raiva e o medo se sobrepunham. Ela entendeu naquele momento que sua instabilidade não vinha do poder... mas do que ela se recusava a encarar dentro de si.
— Eu tento ser calma porque tenho medo do caos que eu possa causar — sussurrou.
Maelion, agora à sua frente, abaixou-se.
— Então pare de tentar. O caos também pode ser bom. O caos é equilíbrio.
O círculo arcano apagou-se. A tempestade em sua alma, pela primeira vez, cedeu um passo.
— Retorne amanhã. Trazida pela sua própria vontade, não por um papel.
Thalia assentiu. Levantou-se sozinha. Não havia vencido nada naquele dia — mas pela primeira vez, não fugira. Aceitara.
E isso era o começo.

