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O Amado da Luzz
Capítulo 24
1605 palavras • 9416 caracteres • ⏱ 6 min 25 s

Capítulo 24

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No dia seguinte, Arion permanecia no mesmo local, ele havia passado a noite ali, com horas em silêncio absoluto, ajoelhado diante das raízes esculpidas de uma figueira. Meditou até que seus pensamentos cessassem de sussurrar e passou horas refletindo em silêncio sobre as palavras de Elenya: "Volte quando puder me dizer não apenas o que carrega... mas por que o carrega. E o que está disposto a sacrificar por ele." Essas palavras ecoavam em sua mente como um enigma, como um convite à verdade. Questionou a si mesmo, revendo não apenas suas intenções, mas também suas fraquezas e motivações. Quando a última estrela desapareceu no céu e o vento trouxe consigo o primeiro sopro de luz, ele sentia que não tinha todas as respostas — mas havia reencontrado o centro que lhe faltava. Não buscava respostas, mas clareza. Não desejava mais provar seu valor, mas entender quem era naquele novo mundo que se revelava diante dele.

O sol ainda não havia atingido o zênite quando Arion adentrou no Templo de Lumiron, desta vez com o coração mais leve e a mente mergulhada em reflexão. A recusa de Elenya ainda ecoava em seus pensamentos como um eco seco.

Recebido com acenos silenciosos pelos clérigos, foi conduzido novamente ao pátio interno do templo. Elenya o aguardava sob a luz suave da fonte, de pé, com os braços cruzados e o semblante impenetrável. A água cristalina jorrava do centro da estátua de Lumiron, refletindo a luz da manhã em padrões suaves sobre os mosaicos do chão.

— Você voltou. — disse ela, seca, sem mover-se.

— Ainda não sei todas as respostas. — Arion respondeu, com honestidade. — Mas compreendi que a espada não é um troféu, nem uma armadura contra a dor. Ela é uma promessa. E uma promessa não vale nada se não houver sacrifício.

Elenya arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Palavras bonitas. Mas promessas não seguram muralhas. O que você está disposto a sacrificar, Arion? Sua glória? Sua certeza? Sua própria vida?

Arion respirou fundo, deixando o silêncio se alongar antes de responder.

— Tudo isso. E mais. Estou disposto a sacrificar o direito de estar certo. O conforto de culpar o passado. Estou pronto para aceitar que não serei um herói como os contos querem... mas talvez um escudo, mesmo que anônimo. Só quero ser digno da fé que outros depositaram em mim.

O olhar de Elenya endureceu por um instante. Depois, algo se abrandou. Talvez fosse aprovação, talvez apenas respeito.

— Siga-me.

Atravessaram um corredor decorado com tapeçarias antigas que narravam feitos heroicos dos primeiros paladinos de Lumiron. Ao final, uma porta pesada de madeira se abriu para revelar um campo de treino nos fundos do templo. Era uma arena circular, ladeada por colunas de pedra branca, marcada com insígnias sagradas e trechos de escrituras gravados em espirais ao redor do centro. Três cavaleiros já os aguardavam, imóveis como estátuas, portando armaduras leves e espadas de madeira.

— Este é o desafio. — disse Elenya, sem rodeios. — No centro da arena está um estandarte, uma representação simbólica da luz. Seu objetivo é protegê-lo por dez minutos. Não se trata de vencer os inimigos, mas de defender o que é frágil e precioso. A luz nem sempre ofende. Às vezes, apenas resiste.

Arion assentiu com determinação. Mas no fundo, a confiança que ainda reluzia em seu peito carregava um resquício de arrogância. Ele empunhou sua espada como se a vitória já fosse certa, como se o mundo estivesse pronto para reconhecê-lo.

O combate começou com um toque suave de sinos distantes.

Os cavaleiros atacaram sem hesitação. Seus movimentos eram coreografados como uma dança disciplinada, visavam não ferir Arion, mas expor suas fraquezas, empurrá-lo para além de seus limites. Arion tentou manter o centro, mas cada golpe sofrido desorganizou sua estratégia. Tentou contra-atacar, mas logo estava cercado, pressionado, desarmado. Um dos cavaleiros se moveu com precisão e o atingiu na costela com a espada de treino.

Ele caiu. O estandarte foi derrubado.

O tempo ainda não havia acabado, mas a mensagem era clara.

Elenya se aproximou, observando-o do alto. Seu tom era firme, mas não cruel.

— Lutou como se o estandarte fosse uma extensão do seu ego. Como se sua proteção fosse um palco para sua própria força. A luz não serve ao orgulho. Ela exige propósito, não exibição.

Arion ficou no chão por alguns instantes, os olhos fechados. Não havia raiva, nem frustração. Apenas o peso da verdade. Uma verdade que cortava mais fundo que a derrota: ele ainda não estava pronto.

Nos dias seguintes, voltou. Toda manhã, antes do nascer do sol, posicionava-se diante da fonte para saudar a luz. Cada treino mostrava uma nova falha. Mas com cada lição, forjava uma nova virtude. Aprendeu a antecipar movimentos, a ceder antes de resistir, a proteger não com fúria, mas com foco. E sobretudo, aprendeu a escutar o silêncio.

Entre treinos e meditações, certa tarde, sentiu-se impelido a explorar uma ala esquecida do templo: os arquivos da Ordem. Um santuário de pedra escurecida, repleto de prateleiras altas, tomos encadernados à mão e relíquias lacradas por tempo e poeira. O cheiro de pergaminhos antigos impregnava o ar. Um sussurro silencioso de séculos passados.

Arion percorreu corredores estreitos até uma estante nos fundos, onde um relicário pequeno, entalhado com runas élficas esmaecidas, parecia chamá-lo. Era como se algo vivo ali repousasse, aguardando seu toque.

Ao abrir a caixa, o ar pareceu mudar. Dentro, havia folhas de pergaminho delicadamente dobradas, algumas soltas, outras enroladas com fitas. Anotações, pensamentos, trechos de sonhos. No topo, em caligrafia familiar, um nome: Elloryn.

Arion se ajoelhou no chão de pedra, as mãos tremendo ao tocar os escritos. Leu em silêncio. Palavras de amor, temor, visões de um futuro incerto. Reflexões sobre o fardo de ser guia, sobre o dilema entre salvar e sacrificar. Havia esboços de feitiços nunca completados. Cartas não enviadas. Relatos de presságios.

Ali, naquele relicário silencioso, viu o pai que nunca conhecera. Não um herói dos contos, mas uma alma frágil e corajosa, cheia de dúvidas e fé. O homem por trás da lenda.

E chorou.

Chorou por tudo o que foi dito e por tudo o que foi silenciado. Chorou mas não de dor. Chorou como se visse o pai sentado ao seu lado, compreendendo-o, guiando-o.

Enquanto ainda folheava as últimas páginas, absorto nos registros de Elloryn, um leve ruído de porta rangendo interrompeu o silêncio dos arquivos. Elenya apareceu na entrada da ala, olhando em volta com o cenho levemente franzido. Claramente, não esperava encontrar ninguém ali.

— Eu ouvi um barulho. — disse ela, e ao notar Arion, seus olhos se suavizaram por um instante. — Não imaginava que alguém estivesse usando os arquivos agora.

— Eu... estava explorando. Só queria ver o que havia guardado aqui. — disse ele, limpando discretamente os olhos. — Mas acabei encontrando isto... — apontou para o relicário. — E então... não consegui parar de ler. Achei que saber a verdade me daria força. Mas só me trouxe mais perguntas.

Elenya caminhou até ele, observando os documentos espalhados ao redor do relicário.

— Você já conhecia a lenda de Elloryn? — perguntou Elenya, examinando um dos pergaminhos com interesse, ainda sem entender a conexão pessoal de Arion.

— Não exatamente. — respondeu ele, hesitante. — Só ouvi falar dele há pouco tempo. Descobri que ele... era meu pai.

Elenya ergueu os olhos para ele, surpresa.

— Elloryn? Seu pai? — A voz dela soou mais baixa, como se estivesse tentando conciliar a revelação com tudo que sabia.

— Sim. Minha mãe usou magia para me esconder, para estender a gestação até que fosse seguro. Eu cresci achando que era filho de Thalion, herdeiro de Eldanesh. Mas agora... sei a verdade. Que sou filho de Elloryn. Que carrego a memória dele, e talvez, algo mais. Não apenas sua espada.

— Isso muda muita coisa, Arion. Mas também significa que o fardo que você carrega... nunca foi seu sozinho. Você é parte de algo antigo, e vivo.

Ela se agachou ao lado dele.

— Você queria ser digno da espada dele. — murmurou. — Mas agora vê que precisa ser digno do coração dele também.

— E da escolha que ele fez. — Arion suspirou. — Elloryn sacrificou tudo para selar Mor'drak. E minha mãe sacrificou tudo para salvar minha vida. Agora sei que carrego não só a dor de uma nação destruída, mas a herança de dois sacrifícios maiores do que qualquer um jamais me contou. E isso... é algo que ainda estou tentando entender. Algo belo e terrível ao mesmo tempo.

Elenya o observou por um momento.

— Por que me contou tudo isso?

Arion ergueu os olhos.

— Porque não quero seguir sozinho. Porque a verdade só é útil se for compartilhada com alguém que possa transformá-la em sabedoria. E porque... eu confio em você.

Ela não respondeu de imediato. Por um longo instante, apenas observou os olhos de Arion, como se buscasse ali alguma centelha que justificasse a fé que ele acabara de depositar.

— Então venha amanhã ao nascer do sol. — disse por fim, com voz firme. — E traga a espada. Veremos se a luz o escolhe de novo.

E saiu, deixando Arion cercado pelos registros do pai — mas desta vez, não com o peso da solidão, e sim com a clareza de quem está pronto para seguir.

A espada às suas costas ainda pesava, mas agora, era um peso que ele escolhia carregar.

Carregava a memória viva de quem o antecedeu, apromessa de proteger não apenas o mundo, mas também os sonhos deixados poraqueles que amaram antes dele.


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