A cidade viva de Lys'tara se erguia diante deles como uma tapeçaria em movimento, onde raças, culturas e histórias se entrelaçavam com uma energia que pulsava no ar. Torres de pedra entrelaçadas com trepadeiras mágicas se erguiam ao lado de casas de madeira simples. Bandeiras de todas as cores tremulavam entre pontes suspensas, e as vozes do povo formavam uma sinfonia caótica e acolhedora. Era uma cidade que respirava com ritmo próprio, moldada por séculos de coexistência e conflito superado.
Humanos de diferentes estirpes dividiam o espaço com anões comerciantes, elfos andarilhos, draconianos tatuados, faunos bardos e até criaturas que poucos sabiam nomear. Havia mercados de especiarias exóticas, templos de diversas fés, ruas pavimentadas com cristal e vielas tomadas por brumas azuis que escondiam santuários secretos e estalagens clandestinas. Tudo coexistia com uma ordem sutil, como se uma força invisível mantivesse o caos em equilíbrio.
Arion sentia o peso de cada olhar que recaía sobre a espada presa às suas costas, mesmo que coberta por tecido grosso. A energia da cidade parecia reconhecê-la, ou talvez apenas reagisse ao que ele carregava dentro de si. Cada passo ecoava não apenas nas pedras da rua, mas também nas memórias do que deixara para trás. Guiado por um mapa simples fixado em uma placa, liderou o grupo em direção ao Templo de Lumiron.
O templo, situado em uma das colinas do centro da cidade, era uma construção de pedra clara e vitrais dourados que captavam a luz do sol, refletindo-a como chamas suaves. Guardiões em armaduras prateadas observavam os visitantes em silêncio, enquanto clérigos de mantos brancos varriam as escadarias com serenidade ritualística. Havia algo de solene naquele lugar, como se cada pedra tivesse sido abençoada.
Quando Arion se apresentou aos clérigos, pedindo audiência com Elenya, foi conduzido por corredores tranquilos, onde o ar parecia mais leve e os ecos sussurravam preces antigas. No pátio interno, uma fonte de água pura jorrava do centro de uma estátua alada de Lumiron, o deus da luz redentora. O som da água era reconfortante e solene, como um lembrete de tudo o que havia em jogo.
Elenya surgiu de trás de um arco esculpido, trajando uma armadura leve, feita de prata polida e linho cerimonial. Seus cabelos eram negros como ébano e seus olhos irradiavam sabedoria e uma severidade tranquila. Ela observou Arion com um misto de curiosidade e cautela, como quem avalia um desconhecido que carrega um artefato perigoso.
— Você veio até o Templo de Lumiron... com uma espada irradiando poder descontrolavelmente. — Sua voz era firme, mas neutra. — Quem é você, viajante? E por que está aqui?
Arion deu um passo à frente, respirando fundo.
— Meu nome é Arion. Vim em busca de Elenya, Alta Paladina da Luz Eterna. Preciso de treinamento... orientação.
Ela cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
— Elenya sou eu. E não costumo aceitar discípulos que se anunciam com ordens e enigmas. Você diz precisar... mas não explicou o que busca de verdade.
— Busco me tornar digno da espada que carrego. — Arion retirou cuidadosamente o pano que cobria a lâmina de Elloryn. — Esta espada não é só um legado. É um fardo. E preciso aprender a carregá-lo sem que ele me destrua.
Elenya estreitou os olhos, dando um passo mais próximo da lâmina, mas sem tocá-la.
— Essa espada tem a bênção de uma era perdida. — Sua voz se tornou mais grave. — E você... parece assombrado por ela.
Ela se virou, gesticulando vagamente para a porta de entrada do templo.
— Volte quando puder me dizer não apenas o que carrega... mas por que o carrega. E o que está disposto a sacrificar por ele.
Sem mais palavras, ela se retirou, deixando apenas o som da fonte entre eles.
Arion permaneceu estático por longos instantes, sentindo-se mais vazio do que antes. Algo dentro dele parecia afundar, como se todas as certezas fossem levadas por aquela mesma água que jorrava ao seu lado.
Foi Draven quem quebrou o silêncio ao colocar uma mão em seu ombro, a palma firme como a rocha.
— Cada um de nós tem um caminho. O nosso se separa aqui.
Thalia, que até então observara tudo em silêncio, assentiu com os olhos fixos na luz refletida nos vitrais.
— Tenho que procurar Maelion na Torre Carmesim. Sinto que minha prova também está apenas começando. Não será fácil... mas também não estou mais disposta a fugir de quem sou.
Tark sorriu, meio sem jeito, ajeitando a correia da mochila com a adaga pendurada ao lado.
— O mercado subterrâneo desta cidade está cheio de boatos. Se Algrin estiver mesmo aqui, vou encontrá-lo. Ou ele me encontrará. Talvez os ratos falem mais do que os homens, se você souber onde ouvir.
Draven deu um passo para trás, as asas se ajustando em suas costas.
— Eu ouvi o nome de Sorya sussurrado nos becos. Se ela existe, é com ela que preciso aprender. Há coisas em mim que só podem ser limpas pela dor... e pela disciplina.
O grupo trocou olhares longos, carregados de história e de ausências futuras. Nenhuma promessa foi feita em voz alta, mas todos sabiam: reencontrar-se-iam, e seriam mais do que eram agora. Eram mais do que aventureiros — eram fragmentos de uma esperança que precisava ser reconstruída.
Com um último aceno e corações pesados deresponsabilidade, cada um tomou um rumo diferente pelas ruas vivas de Lys'tara.As multidões os engoliram em diferentes direções, mas seus passos levavam a umdestino entrelaçado. Arion permaneceu no jardim externo do templo, pensando noque Elenya lhe dissera.

