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O Amado da Luzz
Capítulo 22
1107 palavras • 6622 caracteres • ⏱ 4 min 26 s

Capítulo 22

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O vento que soprava sobre as copas das árvores trazia o cheiro distante de pinho e terra molhada, como se o mundo estivesse tentando limpar suas feridas. A trilha diante deles se estendia por colinas ondulantes e vales densos, uma tapeçaria viva onde a natureza os observava com olhos silenciosos e antigos. Atrás deles, o templo de Eldrasil desaparecia sob a sombra das grandes árvores, como se a floresta quisesse guardar em segredo tudo o que ali havia sido revelado. À frente, o destino chamava com sua própria promessa de respostas: Lys'tara.

Partiram ao amanhecer, com as palavras de Eldrasil ainda ressoando em suas mentes como um eco sagrado. Não houve despedidas formais — apenas um silêncio pesado que acompanhava cada passo como uma sombra inquieta. Era o tipo de silêncio que carregava mais do que cansaço físico — era feito de dúvidas, presságios e esperanças mal costuradas.

Draven caminhava à frente, olhos atentos aos arredores, suas asas dobradas rente ao corpo como lâminas prestes a se abrir. Tark vinha logo atrás, os dedos tamborilando nervosamente contra a correia de couro que prendia sua mochila de ferramentas. Thalia seguia ao lado de Arion, que andava mais devagar, como se cada pegada pesasse mais que a anterior, como se a terra o puxasse para baixo.

Durante horas, o grupo permaneceu em silêncio, absortos em pensamentos que não sabiam nomear. Foi apenas quando o sol alcançou o zênite que Thalia, com a voz trêmula e suave, falou:

— Ainda estou tentando entender o que vi...

Arion permaneceu calado por longos minutos. O som dos passos na terra parecia ecoar dentro dele, como um lembrete da realidade que não dava trégua. Seus olhos estavam distantes, fixos em um ponto invisível no horizonte.

— Você está bem Arion? — Thalia perguntou com cuidado.

Ele demorou a responder. Sua voz saiu baixa, carregada de hesitação.

— Não sei se estou pronto. Todos vocês falam de expectativas. Eu sinto como se estivesse carregando uma condenação. Como se eu fosse o erro de alguém... e agora todo mundo espera que eu corrija isso.

O grupo permaneceu em silêncio por um tempo que pareceu eterno. As palavras de Arion pairavam no ar como névoa. Não havia resposta certa, apenas a certeza de que aquela jornada era mais do que uma missão. Era uma travessia interior.

Quando a noite caiu, montaram acampamento em um pequeno planalto cercado por pedras cobertas de musgo e árvores retorcidas. O céu acima era um mar escuro salpicado de estrelas, e o som distante de grilos e corujas trazia uma tranquilidade frágil.

Enquanto Tark preparava a fogueira, Draven caçava ao redor com movimentos silenciosos, e Thalia purificava água de um riacho próximo, Arion afastou-se por um instante, sentando-se em uma rocha. Olhava as estrelas, tentando encontrar nelas alguma resposta, algum sinal de que estava no caminho certo. A espada de Elloryn repousava ao seu lado, imóvel, mas viva. Ele passou os dedos pela empunhadura como quem toca a memória de alguém que já se foi.

Foi então que, sem aviso, a noite rasgou-se. Silhuetas negras, envoltas em neblina viva, surgiram das sombras. Os Caçadores das Sombras. Criaturas moldadas na essência do medo e da dúvida, atraídas por almas que carregavam o peso do destino. Seus olhos brilhavam como carvões em brasa, e suas garras cortavam o ar com uma velocidade sobrenatural.

Arion gritou primeiro, instintivamente puxando a espada. Draven reagiu como uma tempestade, suas asas se abrindo com violência enquanto investia contra os inimigos. Thalia ergueu os braços e canalizou a água do riacho, erguendo uma muralha líquida que se solidificava ao toque dos monstros. Tark sumiu na escuridão, e reapareceu com sua pequena adaga em punho, movendo-se com velocidade entre as sombras para desferir golpes rápidos e precisos. Seus movimentos eram mais instintivos do que técnicos, e seu olhar revelava a tensão de quem ainda não havia encontrado seu lugar em meio à batalha.

A luta foi intensa. Um balé de luz e sombra, dor e coragem. Arion empunhou a Espada de Elloryn. Mas antes que pudesse canalizar qualquer poder, Thalia gritou:

— Arion, não! Não use o poder da espada! Você lembra o que aconteceu da última vez!

As palavras dela cortaram o ar como um açoite. Arion hesitou por um instante, a luz dourada da lâmina vacilando.

Ele assentiu brevemente, os olhos fixos nas criaturas. Então respirou fundo, firmou os pés no chão e mudou sua postura. Lutaria apenas com sua técnica.

A lâmina parecia mais pesada assim, sem o auxílio da energia da Luzz, mas também mais sua. Cada golpe era focado, preciso, e trazia a memória do treinamento que tivera com seu pai e com os guardiões de Eldanesh. Como se a própria herança do mundo corresse por ela. Cada golpe seu era um grito silencioso, um desabafo do medo e da raiva acumulados.

Os Caçadores não eram apenas monstros: eram reflexos. Cada vez que atacavam, murmuravam vozes familiares, dúvidas que os quatro guardavam em segredo. "Você vai falhar...", "Você é um fardo...", "Não é digno...". Mas mesmo com o coração dilacerado, eles resistiram.

Quando o último dos Caçadores caiu, desintegrando-se em brumas negras que se dissiparam com o vento, o grupo permaneceu em silêncio. O fogo da fogueira queimava baixo. A respiração ofegante era o único som entre eles.

Thalia aproximou-se de Arion, ajoelhando-se ao seu lado.

— Eles pareciam... focados em você. Seus olhos estavam sempre na espada. Era como se soubessem que ela era importante.

Ele assentiu, olhos baixos, a espada ainda cravada na terra.

— Estou cansado de ser o motivo pelo qual as coisas dão errado.

Draven, sujo de fuligem, sangue e suor, colocou uma mão firme em seu ombro.

— Então comece a ser o motivo pelo qual elas dão certo.

O silêncio que se seguiu não foi mais de dor. Foi de decisão.

Ao amanhecer, depois de uma noite inquieta, retomaram a jornada. E então, ao final de uma trilha íngreme entre colinas douradas e campos recém-cultivados, a viram.

Lys'tara.

A cidade se erguia como uma miragem sólida, vibrante sob o sol nascente. Torres de vigia marcavam o horizonte, sentinelas imóveis vigiando o que era precioso. Muralhas altas protegiam a liberdade ali cultivada, enquanto soldados em patrulha percorriam as ameias com olhos atentos.

Mas além da defesa, havia vida. Ruas movimentadas. Telhados coloridos. Bandeiras dançando ao vento. Riso. Música. Esperança.

Era uma cidade que não se escondia do medo, mas também não deixava que ele a moldasse. Lys'tara não era apenas um destino. Era uma promessa.

E assim, com os corações marcados mas esperançosos, os quatro companheiros desceram rumo à cidade onde o destino os esperava.

Lys'tara os aguardava.


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