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O Amado da Luzz
Capítulo 21
1510 palavras • 8760 caracteres • ⏱ 6 min 02 s

Capítulo 21

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A passagem se fechou com um estalo seco. O som reverberou nas paredes da realidade, e por um instante, o mundo pareceu prender a respiração. Então veio a luz — brutal, viva, como uma bofetada do mundo real. O grupo foi lançado para fora da Caverna das Almas Antigas e tombou sobre a relva áspera de uma colina encoberta por névoa dourada. O céu, implacável, derramava luz sobre eles com uma intensidade quase cruel, como se o mundo real exigisse sua atenção de volta — um lembrete de que a jornada não havia terminado.

Draven caiu de joelhos primeiro, arfando, os olhos vasculhando o horizonte como uma besta encurralada. Nos braços, Arion jazia inconsciente — os cabelos colados de suor, a pele manchada de sangue seco e poeira. Tark e Thalia surgiram logo depois, mais cambaleando que andando. A náiade se arrastava, o corpo tremendo entre dores físicas e fraturas emocionais que ainda não sabiam nomear.

— Precisamos ir. Agora. — rosnou Draven, a voz rouca como pedra arrastada. — Para o Templo de Eldrasil. Antes que alguma outra coisa nos ache.

Ninguém discutiu. Estavam exaustos, quebrados, mas o instinto de sobrevivência era mais velho que o medo. Avançaram pela floresta como espectros, guiados pela lembrança do caminho. A natureza parecia silenciosa demais. O farfalhar das folhas era discreto, como se até a floresta os observasse com respeito — ou temor.

Horas depois, tropeçando pelos últimos arbustos, avistaram a entrada do templo por entre as árvores. Os guardiões emergiram como sombras alvas, os rostos tensos. Reconheceram Arion, Thalia, Draven e Tark, mas hesitaram diante do estado em que voltavam. Era como assistir a heróis voltando da morte.

Com um gesto rápido, as portas se abriram. Runas acenderam-se no ar, conjurando macas flutuantes. Arion e Thalia foram levados sem cerimônia, envoltos em luzes restauradoras. Tark e Draven seguiram atrás, silenciosos, como quem retorna de um campo de guerra que ninguém ousa nomear.

Arion despertou dias depois, entre véus de murmúrios e brisas carregadas de flores. Sua primeira visão foi o teto trançado de folhas vivas do templo e, depois, os rostos de seus companheiros, que se iluminavam ao vê-lo acordar.

A reunião com os anciãos foi marcada por um silêncio pesado. Reunidos na câmara central, o grupo se sentou sob os galhos resplandecentes da Árvore do Mundo. Arion contou tudo — a descida pelos corredores vivos, os espelhos que arrancavam verdades, o combate contra reflexos que conheciam suas falhas, o julgamento das próprias feridas... e, por fim, o momento em que a matriz da caverna se ativou.

Com voz firme, Arion revelou o que Vael'thar dissera: que somente o sangue de Elloryn poderia despertar aquele poder. E que, ao fazê-lo, Arion revelara sua própria herança. Ele encarou os anciãos.

— Quero saber a verdade. Se o que ouvi lá é real... quem eu sou? Por que meus pais esconderam isso de mim?

Um silêncio caiu como manto sobre o salão. Até o vento pareceu hesitar.

Foi quando uma figura cruzou os pilares com passos lentos. Lirael.

— Príncipe Arion — disse ela, a voz embargada por lembranças que sangravam. — Chegou a hora.

Ela parou diante dele, com o peso do tempo nos ombros, e começou.

— Você é filho de Elloryn.

As palavras caíram como relâmpago. Os anciãos se entreolharam. Alguns cerraram os punhos, outros desviaram o olhar. Mas Lirael continuou.

— Antes do sacrifício final de Elloryn, sua mãe já o carregava. Sabendo o que viria, ela recorreu a uma magia proibida. Um antigo encantamento de suspensão vital... Ela selou a si mesma e a você num sono espiritual profundo, estendendo sua gestação por décadas. O tempo parou dentro dela. Foi sua única chance.

Ela fez uma pausa. Os olhos de Arion estavam arregalados, mas ele não dizia nada.

— Thalion os encontrou. Sabia da verdade e decidiu guardá-la. Criou você como filho. Eles escolheram esperar... até que você estivesse pronto.

Os anciãos cochichavam entre si. A revelação era uma ferida nova para eles também. Arion sentia o coração bater descompassado, como se seu peito não comportasse mais o peso da verdade. Ele queria gritar, fugir, pedir tempo — mas tudo estava acontecendo rápido demais. Era como se tivesse sido reconstruído com peças que não reconhecia. As memórias da infância, antes alicerces de sua identidade, agora pareciam ilusões fragmentadas. Mas não havia espaço para processar. O destino o empurrava, e ele mal conseguia manter-se de pé.

— Seus pais não mentiram por covardia. Eles temiam o que o conhecimento precoce poderia despertar em você. Preferiram que se tornasse digno antes de se tornar poderoso.

As palavras de Lirael ficaram no ar por longos segundos, até que algo mudou.

Uma luz dourada desceu do teto, filtrando-se por vitrais vivos. As colunas estremeceram com um sussurro que parecia vir das raízes do mundo.

E então ela falou.

A voz de Eldrasil preencheu o templo — grave, suave, antiga como as estrelas.

— Filhos de Ellyndor... a aurora das trevas ergue sua cabeça. Mas da semente do sacrifício floresce a esperança.

O mundo pareceu pausar. A própria realidade se curvou diante daquela presença.

— O caminho à frente é incerto, e as sombras se movem mais rápido do que jamais ousaram. Vocês devem partir imediatamente para Lys'tara, a cidade humana da liberdade, onde a esperança ainda resiste. Lá, encontrarão abrigo, aliados... e as peças que faltam para o destino que se aproxima.

— Thalia, filha das águas inquietas... tua alma carrega revolta e poder. Suba à Torre Carmesim. Lá, Maelion, o Arquimago da Tempestade, ensinará a ti o controle que não destrói, mas molda. A emoção é tua arma — e tua prisão.

— Draven, exilado alado, traído pelo sangue... tuas asas conhecem o peso da vergonha. Busca o paradeiro de Sorya, a Mestra dos Cem Estilos, cega e letal, que te ensinará a lutar no escuro — e ver com o espírito.

— Tark, artífice de esperteza... tua mente dança entre engrenagens e sombras. Procura acesso a Algrin, o Tecelão dos Caminhos Ocultos. Ele te ensinará a desaparecer — não por medo, mas por sabedoria.

E então, como um abraço quente no meio de um inverno, a voz se voltou para Arion.

— E você... meu Amado.

As palavras atravessaram o peito de Arion como um afago e um fardo.

— Sangue de Elloryn. Legado vivo de tudo que foi perdido. Encontre Elenya, Alta Paladina da Luz Eterna de Lumiron. Ela te ensinará a temperar tua lâmina com compaixão. Porque o poder sem alma é só outra forma de escuridão. Com ela você deve aprender a manipular o poder divino imbuído nessa espada.

Quando a voz de Eldrasil se dissipou, não restou eco — apenas o som abafado das respirações. A luz que iluminava o templo diminuiu lentamente, como se a própria natureza retomasse seu fôlego.

Arion permaneceu imóvel. O nome Elenya reverberava em sua mente, mas era só mais uma pedra na avalanche que desmoronava sobre ele. Seu corpo tremia levemente. Cada palavra dita por Lirael, cada verdade revelada por Eldrasil, ainda estava em carne viva dentro dele.

— Então... é isso — murmurou, finalmente, sua voz quase um sussurro. — Eu sou filho de uma lenda. Um legado que nem sequer pedi para carregar. — E ninguém achou que eu merecia saber? — a voz de Arion ganhou um fio cortante. — Vocês me deixaram crescer em uma mentira, com uma espada na mão e nenhuma verdade no peito. E ainda tiveram a coragem de morrer sem me contar tudo. De me deixar sozinho, à mercê de uma profecia, de uma árvore milenar... como se eu fosse só mais uma peça em um jogo que já estava perdido.

Thalia se aproximou com cautela, ajoelhando-se ao lado dele. Seus olhos buscavam os de Arion, mas ele desviava, como se ainda estivesse tentando confiar no chão sob seus pés.

— Você não está sozinho, Arion. Nenhum de nós pediu para estar aqui. Mas todos escolhemos permanecer. E você ainda é... você. Com ou sem esse sangue. — Eu entendo que tenha sido duro, mas... talvez eles quisessem te proteger.

Draven cruzou os braços, apoiado em uma das colunas.

— Não importa de onde você veio. Importa o que vai fazer agora que sabe quem é. — E, se quiser gritar com alguém, grite agora. Depois disso, só vai ter estrada e batalha.

Tark tentou esboçar um sorriso.

— E além disso... temos uma cidade humana livre nos esperando. Nunca ouvi falar de Lys'tara, mas se Eldrasil confia nela, então devemos ir.

Arion levantou o rosto. Ainda estava quebrado por dentro, mas aqueles rostos — os mesmos que enfrentaram a morte ao seu lado — eram seu chão agora. Respirou fundo, e mesmo que ainda não tivesse todas as respostas, ao menos tinha um propósito.

— Vamos, então — disse, com a voz embargada. — Por Ellyndor. Por todos nós.

E os quatro, guiados pelo que viram e ouviram,começaram a planejar a jornada que os levaria até Lys'tara. Um novo capítulo seerguia diante deles — feito de incertezas, mas também de escolhas.


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