A criatura diante deles começou a se contorcer. A forma da mãe de Thalia estalou como vidro quebrando, revelando algo muito pior sob a superfície. Ossos se alargaram, carne se esticou e escureceu. A pele assumiu tons de cinza e verde doentio. Vários olhos brotaram em locais impossíveis, e uma bocarra vertical abriu-se no peito, emitindo um rugido que fez a própria pedra tremer. As veias negras sob sua pele pulsavam como serpentes vivas, e tentáculos espectrais se desenrolavam de suas costas, contorcendo-se como se procurassem por novas vítimas.
Thalia gritou e recuou, os olhos arregalados em terror. Até Vael'thar hesitou por um instante, surpreso com a verdadeira forma do inimigo que agora se revelava.
O Rauth'kar, em sua forma grotesca e infernal, rugiu com uma fúria primitiva que fez o labirinto tremer. Movia-se com uma graça monstruosa, como se cada passo ecoasse as vozes das almas que havia devorado. Seus olhos multicoloridos se moviam de forma independente, vigiando todos os lados, enquanto sua boca central se abria em um uivo de agonia e fome.
Vael'thar ergueu os braços, conjurando um escudo que absorveu a primeira investida, mas o impacto o lançou para trás com brutalidade. Ele girou no ar e caiu de pé, o solo rachando sob seus calcanhares.
Arion e Thalia estavam encostados em uma das colunas semiafundadas. O elfo mal conseguia segurar a espada, e a náiade tremia de cansaço e dor, a aura aquática dela oscilando como se estivesse prestes a se desfazer.
— A magia dele... é... diferente... — murmurou Thalia, tentando manter os olhos abertos.
— Porque é feita de puras trevas. — Vael'thar respondeu, saltando novamente para interceptar a criatura.
Enquanto Vael'thar distraía o Rauth'kar com ilusões e explosões de energia, os dois heróis tentavam recuperar o fôlego. Mas cada segundo parecia uma eternidade, e o demônio estava sempre um passo à frente. O som das explosões, dos gritos e das investidas fazia as colunas vibrarem.
Um feixe negro saiu da palma da criatura, atingindo Vael'thar no ombro. Ele grunhiu, ajoelhando-se, mas levantou-se com rapidez. Sangue escorria de seu ferimento, evaporando no ar.
— Ele está me estudando... aprendendo meus padrões. É como lutar contra um espelho que cresce a cada golpe.
O combate se intensificava. Vael'thar conjurava lanças, espelhos de ilusão, campos gravitacionais invertidos, ilusões de duplicatas e labirintos de luz. A criatura replicava. Absorvia. Evoluía. Cada ataque bloqueado era reaproveitado. A cada novo feitiço, o Rauth'kar parecia mais adaptado.
Foi então que dois vultos surgiram pelas passagens adjacentes, ofegantes e cobertos de poeira. Eram Draven e Tark.
— Ali! — gritou Tark, apontando para Arion e Thalia.
Draven correu até eles, abrindo as asas para protegê-los de uma onda de energia. Tark ajoelhou-se ao lado de Thalia, verificando seus ferimentos com agilidade.
— Segui um rastro de magia rasgada. Parecia que o próprio labirinto queria que a gente chegasse aqui. As paredes... elas pulsavam, nos guiavam. — disse Draven, ofegante.
Vael'thar sorriu por um breve instante.
— O labirinto reconhece aqueles que se recusam a desistir.
Draven e Tark encararam Vael'thar e depois olharam para Arion e Thalia, Arion apenas assentiu como se soubesse o que os companheiros queriam saber.
Mas enquanto isso acontecia, a criatura não dava trégua. Avançou com quatro braços e bocas abertas em locais impossíveis. Vael'thar conjurou um selo explosivo e o detonou sob os pés da criatura, que recuou, gritando.
— Escutem! — gritou Vael'thar. — Não temos mais tempo. Este lugar... esta caverna é uma antiga fenda espiritual. Se o Rauth'kar escapar, ele vai se multiplicar com o poder das almas seladas aqui. Ele se alimenta de dor, de memória, de perda.
Ele bateu o cajado que acabara de conjurar no chão. Uma passagem se abriu entre as colunas, entalhada com runas que brilhavam intensamente, vibrando com um som grave e constante.
— Tengu, Gnomo, levem Arion e a Náiade. Agora! Vocês precisam sair!
Arion tentou protestar, mas Vael'thar já conjurava um círculo arcano ao seu redor. Chamas azuis giravam em torno de seus pés, desenhando o selo com uma força mágica ancestral.
— Eu sou o selo. Essa criatura... a partir do momento em que ela adentrou nesse local sem a minha percepção, se tornou minha responsabilidade. Eu sou o guardião. E sou o fim dela.
Draven levantou Arion nos ombros, Tark ajudou Thalia a caminhar. Mesmo feridos, seguiam com passos urgentes, guiados pela luz rúnica que os conduzia.
O grupo atravessou a passagem enquanto o som da magia de Vael'thar se intensificava, preenchendo a caverna com luz e trovão. As colunas tremiam. As paredes pareciam desmoronar.
Assim que o último deles passou, a passagem se fechou com um estrondo e uma forte luz.
Dentro da Caverna das Almas Antigas, Vael'thar encarou o Rauth'kar uma última vez. Com um grito que reverberou pelas profundezas, fez as runas explodirem em sequência. A explosão de luz engoliu a criatura e o guardião ao mesmo tempo, encerrando o ciclo.
O silêncio caiu.

