O som do impacto ainda reverberava pelas paredes do labirinto quando Arion e Vael'thar atravessaram o limite do altar. A energia que havia se estabilizado com a aceitação da Espada de Elloryn agora os empurrava adiante, como se o próprio labirinto indicasse o caminho.
As runas nas paredes acendiam-se conforme passavam, iluminando os corredores com uma luz suave, quase protetora. Arion, mesmo exausto e ainda sentindo o peso da batalha anterior, corria com o coração acelerado por outra razão: medo. Não mais por si, mas por Thalia.
Vael'thar corria ao seu lado, seus passos silenciosos como os de uma sombra viva. Então falou, com uma voz cheia de uma estranha melancolia:
— Durante os séculos que vigiei este lugar, deixei partes de mim espalhadas pelo labirinto. Fragmentos da minha essência, cópias menores, para testar a verdade dos que ousassem atravessar. Eram projeções criadas para extrair o mais profundo dos corações.
Arion franziu a testa. — Assim como você assumiu a forma dos meus pais.
Vael'thar assentiu. — Exato. Mas o ritual da matriz foi ativado por você. Isso deveria ter dissipado todas as minhas criações. Elas deveriam ter desaparecido no instante em que a Espada o reconheceu.
Arion diminuiu o ritmo por um segundo, assimilando o que aquilo significava.
— Então... o que está acontecendo?
Vael'thar o olhou com gravidade. — Ou algo escapou do controle... ou o que a persegue não é uma cópia minha.
Arion engoliu em seco. Não havia mais tempo para perguntas. A passagem à frente estreitava, o som de uma explosão aquática ecoando adiante. O ar agora cheirava a água salgada e magia em desequilíbrio.
Thalia corria. As lágrimas se misturavam à água que escorria das paredes, e seus pés deslizavam por corredores inundados que pareciam se estreitar e contorcer conforme ela se movia. Atrás dela, a figura de sua mãe avançava sem pressa, mas com uma presença esmagadora.
— Não adianta fugir, Thalia — vociferou a voz da mãe, cheia de julgamento. — Fugiu do seu lar. Fugiu da responsabilidade. E agora foge de mim?
Thalia tropeçou ao virar uma esquina, escorregando em musgo. Caiu com o ombro em uma pilastra rachada, arfando. Estava ferida, sangrando bastante, e exausta. Suas reservas mágicas estavam quase no fim.
A figura surgiu ao fim do corredor, flutuando sobre a água com os olhos incandescentes. Era sua mãe, mas ao mesmo tempo não era. Havia algo mais sombrio ali, uma crueldade fria que não pertencia àquela que um dia lhe ensinou canções do rio.
Thalia se levantou trêmula, conjurando um escudo de energia aquática apenas para bloquear uma rajada que quase a partiu em dois. A explosão empurrou colunas inteiras para os lados.
Foi quando Arion e Vael'thar chegaram.
O jovem elfo viu Thalia encurralada, a figura da mãe se erguendo com outra rajada próxima de ser disparada. Sem pensar, Arion gritou:
— THALIA!
A náiade se virou, surpresa. A figura da mãe também, mas tardiamente.
Arion ergueu a Espada de Elloryn. A lâmina respondeu à sua vontade com um clarão, disparando uma onda de luz dourada que colidiu contra o ataque da falsa mãe, desfazendo-o em um redemoinho cintilante.
O impacto da magia consumiu o ar ao redor com calor e luz. A força que Arion canalizou através da espada drenou algo profundo dentro dele. Seus joelhos falharam e ele caiu com uma das mãos apoiadas no chão, ofegante, com o suor escorrendo em rios.
Vael'thar correu até ele, os olhos arregalados.
— Cuidado! A Espada de Elloryn é poderosa além da medida, mas você ainda não está pronto para empunhá-la dessa forma. Sem o treinamento adequado, seu corpo não suportará o poder que ela exige.
Arion apertou os dentes, tentando se manter de pé.
— Não importa... se for para protegê-los, eu aguento mais um pouco.
Vael'thar saltou sobre uma das pilastras tombadas e encarou a figura com olhos apertados.
— Isso não é uma cria minha. É outra coisa.
A criatura olhou para Vael'thar, e pela primeira vez, pareceu hesitar.
— Arion... — disse Thalia, cambaleando. — Ela não para... eu tentei...
Arion correu até ela, segurando-a pelos ombros, os olhos cheios de fúria e medo.
— Agora você não está mais sozinha. Eu prometo.
O brilho da espada aumentou. A criatura rugiu com uma voz distorcida e faminta. E então, atacou.
O verdadeiro combate havia começado.
A criatura investiu com velocidade assustadora, disparando contra eles como uma corrente líquida feita de sombras. Arion tentou erguer novamente a espada, mas o braço mal respondia. Thalia, cambaleando, conjurou um redemoinho protetor, mas sua magia vacilava como chama ao vento.
Vael'thar avançou, envolvendo-se em feixes de luz ilusória e escuridão controlada. A criatura desviava com reflexos quase instintivos, como se previsse os ataques antes mesmo de serem feitos.
Arion caiu de joelhos novamente, tossindo sangue.
— Estamos muito feridos... Não vamos conseguir — murmurou Thalia, ofegante, com os olhos arregalados.
— Fiquem atrás de mim! — rugiu Vael'thar.
Ele conjurou lanças de energia violeta que colidiram com o inimigo. Em uma investida rápida, Vael'thar conseguiu atingir o ombro da criatura com a palma aberta, marcando-a com uma runa instável que explodiu logo em seguida. A criatura gritou, um som agudo e distorcido, e recuou por um instante.
Vael'thar arregalou os olhos.
— Isso não é um doppelganger...
Ele deu um passo trêmulo para trás, os olhos cravados na entidade que se recompunha.
— Isso é um Rauth'kar...
Arion e Thalia o encararam, confusos.
— Um demônio antigo. Eles se alimentam de almas... e assumem sua forma e poder. Cada vez que devoram uma, tornam-se mais perigosos. Esta criatura já consumiu muitas...
A criatura se ergueu, agora maior, seus olhos multiplicados, brilhando em diferentes cores.
Vael'thar cerrava os punhos, protegendo os dois heróis feridos com seu próprio corpo.
— Espera... — murmurou Thalia — Se ele assume a forma da alma que devora, então minha mãe...
— Isso mesmo, esse ser devorou a alma dela...

