O ar ao redor de Arion vibrava. Cada batida do coração parecia ecoar pelo jardim de pedra branca, pulsando contra as colunas entalhadas com runas. A Espada de Elloryn ainda flutuava acima do altar, girando lentamente, como se aguardasse por algo. Mas seus olhos estavam fixos nos dois vultos que se aproximavam.
Lyria. Majestosa, fria, envolta por um manto de magia azul que dançava como um halo etéreo ao seu redor. Sua presença fazia o ar gelar, e cada passo ressoava como um encantamento ancestral.
Thalion. Imenso, com a armadura dourada reluzindo como sol preso à terra, sua espada já empunhada, cada passo retumbando com autoridade imemorial. Seus olhos eram como duas brasas contidas, avaliando o filho com uma intensidade que fazia a alma tremer.
— Não está pronto, Arion — disse Lyria, a voz cortante como cristal, cada palavra impregnada de julgamento.
— Se deseja o legado de Elloryn, prove que é digno — completou Thalion, os olhos cravados no filho como se buscassem sua alma.
O jovem elfo girou o medalhão em sua mão, sentindo o calor da Luzz vibrar, fraco. Respirou fundo. Depois gritou, correndo em direção a Thalion, tentando atacar antes que o medo o paralisasse. As lâminas se chocaram.
O som foi ensurdecedor.
A espada de Arion era leve, veloz, movida por instinto. Mas Thalion era um mestre da aura. Cada golpe dele criava uma onda de impacto que rachava o chão, empurrando Arion metros para trás. Lyria não esperou. Conjurou lanças de gelo e correntes de raio, atacando das laterais com precisão cirúrgica.
Arion mal teve tempo de levantar barreiras mágicas. Seu corpo foi atingido por uma rajada de energia que o lançou contra uma coluna. Ele rolou no chão, os ouvidos zunindo, os olhos piscando contra o brilho estonteante do combate.
Thalion veio como uma tempestade dourada, golpeando com força brutal. Arion bloqueou, mas sentiu os braços tremerem com o impacto. Lyria surgia e desaparecia em flashes de luz, seus encantamentos se encadeando como sinfonias letais. Um raio acertou o flanco de Arion. Ele gritou, recuando com a pele em brasa.
— Isso é tudo que tem? — zombou Thalion, golpeando novamente.
Arion recuou mais, tentando ganhar espaço. Seu sangue salpicava as pedras. Ele conjurou uma lâmina de vento e a arremessou contra a mãe. Lyria congelou o ar ao redor do feitiço, transformando-o em estilhaços que ricochetearam pelas paredes.
O campo de batalha era uma coreografia frenética de luz e sombra, com explosões de magia sibilando no ar e golpes de espada que faziam o chão tremer. Arion se movia com desespero, buscando uma abertura. Mas não havia. Era como lutar contra os pilares da própria história.
Uma muralha de gelo se ergueu em seu caminho. Arion deslizou por baixo, contra-atacando com um pilar de chamas. Thalion aparou com um campo de aura dourada, depois contra-atacou com um golpe descendente que rachou o chão até o altar tremer.
Arion rolou para o lado, ofegante. Seu corpo inteiro doía. Seus pensamentos estavam nebulosos. Uma corrente de luz de Lyria o agarrou pelo tornozelo, puxando-o para o alto e o arremessando como uma boneca. Ele colidiu com umas pedras, que tilintaram com a energia do impacto.
A visão embaralhava. A respiração doía. Sua força se esvaía. Mas ainda se ergueu.
Com dificuldade, Arion se arrastou até uma das pedras com runas que cercavam o altar. Apoiou-se nela com a mão esquerda para conseguir se levantar. O sangue escorreu de seus dedos e tocou a pedra.
E então tudo mudou.
As runas da pedra brilharam. Um a um, os pilares ao redor do altar acenderam em tons de dourado e azul. O chão tremeu com um som profundo, como um trovão antigo acordando de um sono milenar.
Lyria e Thalion pararam imediatamente. Seus olhos perderam a hostilidade. Olharam um ao outro com expressões calmas, quase reverentes. E então, caminharam lentamente para o centro.
Seus corpos começaram a se dissolver.
Como fumaça puxada por um vortex invisível, as duas figuras se fundiram em uma só. A forma nova era alta, andrógina, com traços dos dois. Os olhos brilharam com luz violeta. A voz que surgiu era composta, antiga, quase serena:
— Não é fraqueza reconhecer seus limites. Você lutou, Arion. Sangrou. Não fugiu, mesmo diante da derrota.
Arion caiu de joelhos, arfando. Seu corpo tremia, mas seus olhos estavam fixos na figura diante dele.
— Quem... o que é você?
A figura se aproximou com passos graciosos.
— Fui conhecido como Vael'thar. O familiar de Elloryn. Guardião da matriz da herança. Sou um doppelganger ancião, moldado para proteger os segredos da linhagem.
O altar brilhou intensamente. A Espada de Elloryn desceu devagar, girando suavemente no ar, até pousar diante de Arion com um leve tilintar.
— Apenas o sangue de Elloryn ou de sua descendência poderia ativar a matriz que me sustenta. E você a ativou com seu sangue, herdeiro de um destino antigo.
Arion olhou para a espada. Então para Vael'thar, o peito subindo e descendo com dificuldade.
— Isso significa que eu...
— É descendente direto de Elloryn. O verdadeiro Amado da Luzz. E sua jornada está apenas começando.
Arion estendeu a mão trêmula, e a lâmina pulsou ao seu toque. Uma onda de calor percorreu seu corpo. Pela primeira vez, ele sentiu que não estava sozinho ali. A Espada de Elloryn o aceitava.
A câmara tremeu. As runas ardiam. O labirinto inteiro parecia respirar com nova vida.
Arion ainda estava atônito com a revelação que acabara de receber, tentando assimilar o peso de sua linhagem. Mas antes que pudesse reunir os pensamentos, um estrondo ecoou pelas paredes do labirinto — como se algo tivesse sido lançado com força contra a pedra.
Vael'thar se virou abruptamente, os olhos estreitos.
— Isso veio do setor oeste... onde a náiade estava.
O coração de Arion disparou.
Sem hesitar, ele e Vael'thar partiram em direção ao barulho.

