Atravessar o portal foi como cruzar um limiar entre o presente e a própria alma. Em um instante, cada um dos companheiros apareceu em um ponto diferente de um vasto labirinto subterrâneo. Não houve queda, nem transição perceptível — apenas o vazio, seguido por uma nova realidade. Sozinhos. Separados. Imersos em silêncio e incerteza.
O labirinto era vivo. Seus corredores serpenteavam como entranhas de uma criatura antiga. As paredes de pedra gotejavam memórias distorcidas, decoradas com espelhos rachados e musgos cintilantes. Ecos vazavam de cada canto: risos esquecidos, gritos abafados, confissões que ninguém jamais deveria ouvir. O ar ali tinha gosto de lembrança, como se cada inspiração arrastasse lembranças que não pertenciam mais a eles.
Thalia caminhava por passagens alagadas, onde o reflexo da água vibrava como se escondesse verdades submersas. O som de goteiras misturava-se ao de canções de infância. As paredes refletiam fragmentos do lago de sua juventude: danças entre irmãs, feitiços em espirais de espuma, o brilho do luar sobre a pele molhada. Por alguns minutos, ela acreditou que estava sozinha, até que dobrou uma curva. O salão diante dela era vasto e fluido, feito de vidro líquido, com uma plataforma de cristal ao centro. Sobre ela, sua mãe.
Ela estava lá. Forte, radiante, imponente. E furiosa.
— Você devia ser minha sucessora. A herdeira do lago. Em vez disso, foi nossa ruína. Você permitiu que o demônio entrasse. Você não nos protegeu.
Thalia recuou. — Não! Eu tentei salvar todos... eu...
A figura não esperou. Um jato de lanças aquáticas disparou, rasgando o ar. Uma atingiu o ombro de Thalia com força, fazendo-a girar e cair de joelhos. Sangue misturava-se à água.
— Mãe, por favor! Eu pensei que estava fazendo o certo!
— O certo? VOCÊ nos condenou! Eu confiei em você.
Thalia engoliu o choro. Ainda que soubesse que aquilo não podia ser real, o rosto da mãe, a voz, a dor... tudo era igual. Real demais.
Ela tentou revidar, mas cada feitiço parecia fraco diante da fúria da figura. A mãe a perseguia, conjurando redemoinhos e paredes de mar revolto. Thalia correu. Corredores estreitavam-se, escureciam, pareciam tentar aprisioná-la.
No reflexo de uma poça, Thalia viu os corpos de suas irmãs flutuando como se dormissem. Em outro espelho d'água, viu Nyxil, ajoelhado, chorando. As paredes choravam com ela, pulsando em agonia.
As palavras da mãe ecoavam:
— Você me decepcionou. É isso que você é: uma decepção.
Thalia escorregou por uma rampa de água viva, se afastando da figura. Chorava, mas não de medo. Era raiva. Culpa. Ela ouvia os gritos de fúria da mãe.
Draven tocou o solo escuro de um pátio aberto e, instintivamente, alçou voo. Precisava entender o labirinto. Mas algo o deteve. Uma barreira invisível o repeliu como se tivesse colidido com um teto de vidro. Caiu, rolou, e grunhiu de dor. Ele tocou o teto invisível e sentiu como se suas próprias lembranças o empurrassem para baixo.
Determinou-se a explorar. Caminhou por horas, ou minutos — o tempo era incerto ali. Os corredores estreitavam e alargavam como pulmões. Finalmente, encontrou um beco sem saída. E nele, um homem. Alto, robusto, imponente. Suas asas negras se abriam com autoridade. Seu pai.
— Por que deixou Kalrek te destruir? Por que não o enfrentou? Por que aceitou o exílio como um fraco?
Draven cerrou os punhos. — Não era minha escolha. Ele mentiu. Me traiu.
— E você o deixou reinar. Não tentou vingar sua família. O que diria sua mãe, seu clã se eles soubessem a verdade?
O confronto explodiu. Garras contra garras. Asas se entrechocando. O pai era mais forte, mais rápido. Cada golpe empurrava Draven para o passado, para a vergonha. Até que ele caiu, de joelhos, sangrando.
— Você é fraco. Sempre foi. Nem sequer me lembro de por que eu tinha orgulho de você.
Mas então... as palavras de Arion surgiram como brisa quente:
"Você é mais do que te fizeram acreditar."
Draven viu, por um instante, o rosto de Arion em sua memória, firme e sereno. O momento em que Arion o encarou, após a traição, e ainda assim lhe estendeu a mão. Aquilo não era fraqueza. Era redenção. A memória acendeu uma coragem que jazia escondida há muito tempo.
Draven levantou-se com um rugido, seus olhos ardendo em fúria e autoafirmação. Num golpe certeiro, cravou as garras no peito da criatura, que se contorceu e desfez-se em fumaça.
Doppelganger. Uma criatura feita para refletir e destruir pela dor. Draven cuspiu no chão exausto, mas correu ao ouvir uma explosão distante.
Tark corria, ofegante, em meio a um corredor de dardos ocultos e pedras traiçoeiras. Estava ensanguentado. Ativara armadilhas demais, se perdera demais. Não havia tempo para pensar, apenas sobreviver. Cada passo era uma batalha entre o instinto e o desespero.
Uma câmara de pedras se abriu. Tark caiu de joelhos, sem ar. Atrás dele, passos.
Seu antigo mestre.
— Veja o que se tornou. Um fujão. Um fracasso. Cadê aquele gnomo que lia os mapas como se fossem poesia?
— Eu... tentei... — Tark mal conseguia falar.
— Tentou? VOCÊ correu. Enquanto sua vila queimava, você se escondeu.
Uma adaga brilhou. Tark tentou se erguer, mas as pernas falharam. Ia morrer. Ia ouvir o julgamento final... quando uma sombra alada caiu sobre seu agressor. Garras. Asa. Um grito.
Draven.
— Ninguém encosta nos meus aliados.
A luta foi curta. O mestre se desfez em estilhaços negros. Tark tremia.
— Achei que ia morrer.
— Achei que você fosse engenhoso.
Tark sorriu. Pequeno, sincero. Pela primeira vez em muito tempo. Havia gratidão em seus olhos. E algo mais: renascimento.
Arion abriu os olhos no centro do labirinto. Um jardim de pedra branca o cercava, ladeado por colunas entalhadas com runas antigas. Ao centro, um altar de pedra. Acima dele, uma espada flutuava, girando lentamente.
A Espada de Elloryn.
Seu coração bateu mais rápido. Ele se aproximou, o medalhão brilhando em sintonia com a lâmina.
Mas antes que sua mão tocasse a empunhadura, um raio o atingiu nas costas.
Ele gritou. O impacto o arremessou contra uma estátua. Caiu de joelhos, ofegante, pele em brasa.
Atrás dele, sua mãe. Lyria. Poderosa. Intacta. Com olhos de julgamento.
— Não está pronto.
Ao lado dela, Thalion. O pai. Imenso, dourado, com espada desembainhada.
Thalion deu um passo à frente.
— Se deseja o legado de Elloryn, prove que é digno.
Lyria ergueu as mãos, com magia azul-pálida se formando ao redor dos dedos.
— Ou pereça como os fracos que nos deixaram morrer.
Arion se ergueu, os olhos em chamas. A luta pelo futuro começaria agora.

