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O Amado da Luzz
Capítulo 16
995 palavras • 5594 caracteres • ⏱ 3 min 59 s

Capítulo 16

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O corredor que os aguardava após os espelhos não levava a uma vasta galeria subterrânea onde o teto era alto demais para ser visto, e as paredes eram moldadas em espirais de pedra viva que pulsavam como veias de um corpo adormecido. O ar estava mais denso, carregado de uma energia estranha, algo que não era hostil, mas tampouco acolhedor. O silêncio ali era completo, como se o som temesse acordar o que repousava naquela profundidade. As pegadas do grupo se perdiam na poeira, e mesmo seus sussurros eram engolidos por aquele lugar.

Arion liderava com o medalhão em punho, a luz fraca do artefato sendo engolida a cada passo. Eles seguiam em linha, atentos, mas ninguém ousava falar. Cada um trazia o peso da própria imagem sombria ainda viva na memória. Aquilo não se dissipava com facilidade. Em seus olhos, havia o brilho de quem viu demais e a sombra de quem teme ver ainda mais.

A primeira presença que encontraram foi uma fileira de estátuas, eretas ao longo de um caminho sinuoso. Eram guerreiros élficos, humanos e bestiais, todos em poses de combate, envoltos por armaduras de eras distintas. Alguns empunhavam espadas, outros lanças ou cajados. Havia ali heróis e monstros, inimigos e aliados, lado a lado na eternidade. Os olhos das esculturas pareciam acompanhá-los. Quando atravessaram o meio da fileira, um estalo percorreu o ar — e os olhos de pedra se acenderam com uma luz azulada, profunda como o fundo de um lago congelado.

— Fiquem juntos — disse Arion, erguendo a voz sem gritar. Sua mão apertava com mais força o cabo do medalhão.

Os olhos das estátuas brilharam mais forte, e então elas se moveram. Primeiro um gesto, depois um passo. Em segundos, estavam cercados por um círculo de guerreiros de pedra, todos silenciosos, mas ameaçadores. Suas armas erguidas apontavam para o coração do grupo, como se julgassem sua presença.

— Eles vão nos atacar? — perguntou Draven, asas contraídas, as garras prontas.

Thalia franziu o cenho. — Não acho que seja tão simples. Isso é... ritual. Um julgamento.

Um dos guerreiros — um elfo com cicatrizes entalhadas no rosto de granito — ergueu a espada. Atrás dele, uma voz ecoou das paredes. Era como se entrasse direto no pensamento:

"Vocês caminham sob o solo da lembrança. Cada um traz uma ferida, e cada ferida tem uma voz. Deem nome à dor e avancem. Neguem o que os fere, e se perderão."

Um a um, eles foram chamados pelas estátuas. Cada guerreiro se aproximava de um deles, reproduzindo não uma figura externa, mas a encarnação de uma de suas dores internas. Era como olhar em um espelho que refletia não a carne, mas a alma.

Tark viu diante de si um gnomo ancião com os olhos da sua mãe. O ser o encarava em silêncio, e Tark, de joelhos, murmurou:

— Culpa. A dor de não ter protegido quem amava. A dor de ter sobrevivido quando não merecia. A dor de fugir.

Draven encarou um reflexo de si mesmo, com as asas arrancadas e um olhar vazio. O tengu não desviou os olhos. — Traição. A dor de ter perdido a confiança do meu clã, e de ter sido traído pelo meu próprio irmão. A dor de me odiar por acreditar que talvez eu tenha merecido.

Thalia viu Nyxil, o pequeno demônio, com os olhos cheios de lágrimas. Ela estremeceu, mas deu um passo à frente. — Arrependimento. Por ter confundido justiça com vingança. Por ter sido crente demais. Por ter sido cruel com quem talvez só queria amor.

E Arion viu sua família, destruída. A rainha Lyria, os irmãos, seu pai, todos mortos. Ele não fechou os olhos, mas enfrentou a visão com firmeza. — Perda. E medo de não ser digno da esperança que depositaram em mim. De falhar onde todos confiaram que eu triunfaria.

As estátuas pararam. Os olhos se apagaram. O som voltou ao ambiente como um suspiro contido por milênios.

Um portal se abriu no final da galeria, ladeado por colunas esculpidas com figuras entrelaçadas em dor e redenção.

Mas antes de atravessarem, algo inesperado aconteceu. Uma última estátua, maior que as demais, moveu-se com lentidão, parando diante do grupo. Seus olhos tinham uma luz diferente: violeta. Quando falou, sua voz parecia ecoar de dentro do coração de cada um.

— As feridas foram nomeadas. Mas e os ressentimentos? As rachaduras entre vocês? A jornada é coletiva, mas seus silêncios ainda sangram. Um grupo é mais frágil que sua espada mais fraca quando os laços não são sinceros.

O grupo trocou olhares inquietos. O peso da convivência, das palavras não ditas, das pequenas fraturas, finalmente se impunha.

Tark baixou os olhos. — Achei que Draven fosse nos trair novamente. Ainda acho, às vezes. Mas... estou tentando confiar. Só não sei se consigo. Não ainda.

Draven inspirou devagar. — Eu sei que causei danos a vocês. E fico com raiva de mim por isso. E quando vocês me olham com dúvida... é como se eu voltasse ao penhasco, ao exílio, ao vazio. Mas eu estou tentando mudar. Mesmo com medo.

Thalia cruzou os braços. — Foi por seguir Arion que tive que reviver tudo dentro do lago. Parte de mim o culpa por isso. Mas sei que ele não teve culpa. Eu aceitei a jornada. Mas... ainda dói.

Arion assentiu, os olhos baixos. — E eu... eu carrego tudo. Não por orgulho, mas porque tenho medo de pedir ajuda e parecer fraco. Mas não sou o único ferido aqui. Tenho medo de falhar com vocês. E de que um dia vocês vão me deixar.

O silêncio que se seguiu foi real, denso, mas diferente. Era um silêncio de escuta.

A estátua final sorriu. E se desfez em pó.

O caminho estava livre.

Mas mais que isso: pela primeira vez, eles caminhavam não como companheiros, mas como aliados. Como almas nuas, dispostas a ver o outro como é.

E a Caverna sentia a diferença. E aceitava.


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