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O Amado da Luzz
Capítulo 13
1367 palavras • 7945 caracteres • ⏱ 5 min 28 s

Capítulo 13

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Assim como os outros, Arion também foi jogado em sua própria provação. O frio veio primeiro. Não o frio cortante da floresta ou das noites passadas ao relento, um vazio que subia do peito até as extremidades, como se arrancasse Arion de si mesmo e o dispersasse ao vento. Seu corpo parecia perder peso, sua mente se dissolvia em lembranças e ecos distorcidos. Não houve transição: num instante, ele estava de pé, no solo escuro da ruína; no seguinte, era apenas um jovem novamente em Eldanesh, prisioneiro do pior de seus pesadelos.

O palácio ardia. Os salões, antes repletos de música e luz, agora explodiam em caos e sombras. O som dos gritos de sua família cortava a noite; o cheiro de madeira, sangue e magia destruída impregnava cada centímetro de ar. Ele tentava correr, mas os corredores se esticavam como labirintos. Via Eldoriel cair de joelhos, Syrrien protegendo as irmãs com mãos em chamas, o pai erguer muralhas douradas e a mãe conjurar feitiços com olhos úmidos de desespero. As vozes morriam nos ventos, e tudo se dissolvia em névoa negra.

Arion sabia, no fundo, que estava preso em uma lembrança — mas a dor era real. O passado se repetia com precisão cruel: a perda, a impotência, o horror de sobreviver quando todos caíam. Ele gritava, tentava mudar o desfecho, tentava salvar Mirelya de ser arrastada, mas o tempo apenas reiniciava, esmagando qualquer esperança.

Mas dessa vez, quando o fogo devorou até as pedras e o chão do palácio se partiu sob seus pés, Arion não acordou no presente. Em vez disso, despencou em uma escuridão sem fundo. O ar ficou denso; as memórias se misturaram até se dissolverem por completo. Quando abriu os olhos, não havia mais Eldanesh — apenas um lugar novo, um vazio colossal onde o tempo parecia ter morrido.

O céu era um abismo de trevas, rasgado por raízes gigantescas que giravam como serpentes e por torres de pedra, erguidas e corroídas pelos séculos. Havia catedrais quebradas, estátuas tombadas de elfos e homens — heróis e monstros juntos, caídos sob a mesma condenação. Ecos de vozes muito antigas vagavam entre os pilares: profecias em línguas esquecidas, fragmentos de prantos e maldições.

Arion caminhou, tentando entender aquele pesadelo novo. Era um campo de batalha, um templo profanado, ou um vestígio do futuro? Em cada sombra, sentia olhos invisíveis julgando, e o medalhão pesava no peito como uma pedra viva, latejando entre esperança e ameaça. Em algum ponto central daquele limbo, encontrou um altar de pedra negra, coberto de musgo, onde repousava uma espada — a lâmina trancada em correntes de luz e sombra, pulsando com energia instável, quase selvagem.

Quando tentou se aproximar, criaturas começaram a emergir das sombras: espectros de guerreiros antigos, sombras de deuses caídos, figuras monstruosas de eras que nem os bardos ousavam cantar. Eles sussurravam, zombavam, gritavam maldições em idiomas que Arion mal compreendia. Todos diziam a mesma coisa: "Fracasse, como todos antes de ti. Você não passa de um eco, um erro, um herdeiro da tragédia. "

O medo crescia, não como um ataque repentino, mas como veneno se espalhando. Junto dele, nascia a dúvida — estaria mesmo fadado a reviver a dor eternamente, a fracassar onde seus pais e ancestrais tombaram? Era digno do legado dos que deram tudo antes dele?

Os espectros começaram a fechar o cerco. Arion sentia o gelo subir pelas pernas, o pânico dominar cada fibra. Uma neblina negra descia, tornando tudo indistinto. Ele gritou por ajuda, mas o som se perdeu no vazio.

Quando tudo parecia perdido, uma presença inesperada rasgou o véu das sombras. Uma figura de olhos tão intensos quanto uma tempestade surgiu ao seu lado. Movia-se com precisão, calma, mas havia algo de familiar e inquietante naquele estranho. Era como se já o conhecesse, como se tivesse estado ao lado de Arion por mil vidas sem nunca se mostrar.

— Você demora para entender, não é? — A voz soou carregada de familiaridade e ironia suave. — Nem sempre é o passado que nos prende. Às vezes, é o medo do que ainda não aconteceu.

Arion recuou, tentando decifrar as feições do novo aliado. Elas oscilavam, ora nitidamente demoníacas, ora humanas, ora bestiais, sob o jogo de luz e sombra. O estranho sorriu, caminhou ao redor, desafiou os espectros com um simples olhar, desviou de ataques invisíveis, e guiou Arion até o altar.

— Não importa o que essas sombras dizem — prosseguiu ele. — Você é feito das suas escolhas, não das correntes do sangue. Eles querem que acredite que está sozinho, mas nunca esteve. O segredo está em lembrar que sempre há alguém vendo, mesmo quando a escuridão diz o contrário.

A cada palavra, a pressão diminuía. O estranho parou diante de Arion, tocou o medalhão, e uma onda de energia cálida e intensa se espalhou, abrindo um círculo de luz ao redor dos dois. As vozes dos espectros fraquejaram, como se temessem aquela presença desconhecida.

— O medo não é seu inimigo. O medo é um caminho, uma bússola. O poder que você carrega não é uma maldição — é a chave de tudo que pode ser. Não lute contra o que sente. Use isso, canalize. — Os olhos do estranho encontraram os de Arion, sérios e imensos. — Escute seu coração, não o coro de maldições que te rodeia.

A neblina ficou mais densa. Os espectros rugiram, atacando de todos os lados. O estranho segurou o pulso de Arion, guiando-o até o altar. As correntes ao redor da espada estremeciam, como se reconhecessem a presença dos dois.

— Você pode mudar o destino, Arion — sussurrou o aliado, firme. — Mas antes, precisa aceitar que o destino se faz a cada escolha, não a cada profecia. Ninguém escreve teu fim, só tu mesmo.

O ataque dos espectros se tornou físico. Garras e lâminas de sombra atravessaram o círculo de luz, e uma delas atingiu o braço de Arion, gelando até o osso. Ele cambaleou, prestes a cair, sentindo a dor real — o risco da morte ali era tão grande quanto em Eldanesh. O estranho avançou sem hesitar, enfrentando os espectros e bloqueando-os com gestos ágeis, quase dança. — Levante-se, Arion! — gritou. — Não termine tua história como vítima do medo!

O altar brilhou ainda mais forte. Arion, tremendo, estendeu a mão ao medalhão e sentiu o calor aumentar, pulsando como um coração de fogo e gelo. O estranho se colocou atrás dele, sussurrando ao ouvido:

— Não está sozinho. Lembra dos seus? Dos que ainda dependem de ti? Ouça-os. Sinta-os. Deixe o vínculo te guiar.

Foi nesse instante que Arion percebeu: as vozes de Tark, Draven e Thalia ecoavam ao longe, em tons de sofrimento e desespero, perdidos em suas próprias provações. Uma empatia avassaladora o tomou, e o poder do medalhão respondeu, criando elos de luz e sombra, conectando todos os destinos.

A dor em seu braço desapareceu. A energia do estranho parecia transferir forças para ele, fortalecendo sua mente e seu corpo. Arion ergueu o medalhão aos céus — a luz explodiu, atravessando o véu da ruína e alcançando os corações dos amigos. Em sua mente, sussurrou para eles: esperança para Tark, e força para Draven, somente Thalia não era alcançada apropriadamente. Os espectros recuaram, as correntes ao redor da espada se romperam em faíscas, e o altar inteiro pareceu respirar.

O cenário tremeu. O círculo de provações desmoronou numa onda de calor e paz que irradiava de Arion e do estranho aliado. Tudo à volta dissolveu-se em fragmentos de memória e futuro, num lampejo ofuscante. Arion caiu de joelhos, sentindo no peito um novo peso — não mais de medo ou culpa, mas de responsabilidade, poder e esperança.

A figura do estranho se dissolvia em névoa negra, mas antes de sumir, lançou um último olhar e uma frase que ecoaria por muito tempo:

— O verdadeiro teste nunca acaba, Arion. O que vem agora é escolha tua.

Quando os sentidos voltaram, Arion estava na ruína, respirando com dificuldade, lágrimas e suor misturados ao rosto. O ciclo das provações havia terminado — e, no silêncio seguinte, soube que só agora o seu destino e o dos seus companheiros realmente começava.


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