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O Amado da Luzz
Capítulo 12
1301 palavras • 7601 caracteres • ⏱ 5 min 12 s

Capítulo 12

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Quando a magia da ruína a separou do grupo, Thalia foi envolvida por um frio que nem a água mais gelada de seu antigo lar poderia igualar. Seu corpo, antes acostumado à dança serena das correntes, agora sentia-se paralisado, sufocado como se estivesse presa sob gelo negro. Por um breve instante, lutou contra a corrente invisível, mas não havia como resistir: a provação a arrastou para um lugar que era, ao mesmo tempo, memória e prisão, nostalgia e pesadelo.

O mundo se abriu diante dela com o brilho inconfundível do Lago dos Espelhos. As águas eram tão claras e profundas quanto os olhos de sua mãe. O ar era limpo, perfumado com névoa e flores aquáticas. As risadas de suas irmãs ecoavam como sinos de cristal. Thalia, em sua forma mais jovem, brincava entre os juncos, saltando entre as pedras, o sorriso largo e sincero — um reflexo de pura alegria, a energia contagiante de quem não conhecia o peso da perda. A infância era feita de desafios aquáticos, competições de mergulho e longos dias de festas com toda a comunidade náiade reunida ao redor da margem, trocando canções e histórias à luz da lua.

Naquela época, a confiança era natural, quase inocente. Thalia acreditava na bondade das criaturas, não importando de onde viessem. Foi assim que conheceu Nyxil, o pequeno demônio de olhos tristes, coberto de escamas azul-acinzentadas, com chifres curtos e uma expressão tão perdida quanto a de qualquer forasteiro. Ele apareceu à margem externa do lago, machucado, tremendo de frio, seus braços envoltos em cortes que denunciavam fuga e abandono. Thalia foi a primeira a acolhê-lo, permitiu sua entrada no santuário, deu-lhe abrigo e comida, apresentou-o às irmãs e à mãe, certa de que ninguém merecia solidão ou rejeição.

— Ele precisa de nós — disse Thalia, naquela noite, abraçando Nyxil diante da lareira mágica, a voz plena de esperança. — Nem todo demônio é igual àqueles das histórias. Ele só quer um lugar seguro.

Sua mãe hesitou, olhos firmes, mas gentis, ponderando entre prudência e compaixão. No fim, confiou no coração generoso da filha. Com o tempo, Nyxil tornou-se parte da família. Participava dos jogos, ajudava nos rituais, ria das piadas das mais novas e se emocionava com as canções antigas. Aos poucos, a família de Thalia esqueceu o medo. O lago parecia mais protegido, mais cheio de vida e de riso. O pequeno demônio ajudava a colher ervas, enfeitava os cabelos das irmãs com flores silvestres, e todos aprenderam a ignorar os chifres e a pele estranha, focando nos gestos gentis e no olhar sempre grato.

Havia noites de celebração em que Nyxil tocava flauta e Thalia dançava em círculos, a água iluminada pelas lanternas de cristal, enquanto as anciãs do lago previam futuros de paz e fartura. Havia uma sensação de pertença, de família verdadeira — uma esperança que Thalia nunca acreditara que pudesse ser quebrada.

Mas a confiança foi uma brecha. Numa manhã em que o espelho da água refletia o céu perfeito, Thalia acordou com o sussurrar de vozes estranhas vindo das margens. O nevoeiro estava mais espesso do que de costume, quase opaco, transformando o lago num véu de mistério e ameaça. No instante em que saiu de sua caverna, percebeu a ausência de Nyxil. E então ouviu o grito: um som tão cortante que quebrou toda a paz.

Veylara, a Rainha Demônio da Inveja, surgiu das sombras com seu séquito de horrores, coberta por um manto feito de espinhos, olhos verdes queimando como veneno vivo. Ela atravessou o véu do lago porque Nyxil, traidor, mostrara o caminho — abrira o santuário das náiades por dentro. Thalia, impotente, assistiu ao massacre: sua mãe foi a primeira a cair, as irmãs correram em vão. Os corpos afundavam, as águas tingidas de vermelho, os risos de Veylara misturados aos choros de desespero. O lar de Thalia queimava em silêncio sob as ondas, suas casas de pedra submersas sendo despedaçadas, os jardins destruídos por tentáculos de sombra e veneno.

Ela tentou lutar, mas sua magia era inexperiente, alimentada mais pelo pânico do que pela esperança. Raios de energia líquida serpenteavam de suas mãos, mas se dissipavam contra o poder implacável de Veylara. Thalia foi arrastada para a margem, forçada a assistir à destruição de tudo que amava. Os clamores de socorro de suas irmãs soavam como lâminas de gelo. O olhar da mãe, já sem brilho, procurava a filha entre as águas rubras. Em meio à carnificina, Nyxil rastejou até ela, os olhos cheios de culpa e medo, murmurando desculpas entre lágrimas, o corpo encolhido e vulnerável.

— Eu... não sabia... Ela prometeu que ninguém ia se machucar... Eu só queria ficar. Só queria pertencer...

A fúria de Thalia era incontrolável, um incêndio na água. Ela viu o demônio não como vítima, mas como o monstro responsável por toda sua dor, a faísca que queimou seu mundo. Num surto de ódio, lançou nele toda sua magia: água e gelo comprimidos em um feixe letal, atravessando o peito do pequeno traidor. Nyxil morreu chorando, sem defesa. O silêncio que se seguiu foi absoluto — um silêncio de morte e de culpa. Por um instante, o lago ficou imóvel, as ondas paradas como espelhos partidos.

Mas a provação não trouxe libertação. A cena se dissolveu e logo reapareceu: o lago limpo, as risadas retornando, Nyxil de novo à margem, os mesmos cortes, o mesmo olhar de pedido. E tudo começava outra vez. Cada vez Thalia hesitava mais, tentava proteger alguém diferente, ou se forçava a duvidar do pequeno demônio. Mas sempre era traída. O massacre, a raiva, a vingança — tudo se repetia em detalhes sádicos, e cada ciclo arrancava mais um fragmento de sua esperança.

Havia variações no tormento: às vezes, Thalia tentava fugir levando as irmãs, mas a névoa se fechava; às vezes, suplicava por perdão à mãe já caída, ou implorava a Nyxil que ficasse longe. Em cada versão, sentia a impotência crescer e a dor de não poder impedir o inevitável. Em algumas tentativas, chegou a se trancar em uma caverna para não ver o massacre, mas o som dos gritos atravessava a rocha e a enlouquecia. O ciclo era um redemoinho que a sugava cada vez mais fundo.

À medida que as repetições avançavam, Thalia notava detalhes esquecidos: o modo como a irmã mais nova tentava segurar sua mão, o colar de conchas da mãe boiando depois do ataque, a melodia da flauta de Nyxil misturada aos urros de Veylara. Tudo se tornava tortura — lembranças boas apodrecendo diante dos olhos, até o cheiro das flores se transformar em odor de sangue.

No ápice do tormento, Thalia percebia uma voz distante, abafada, como se estivesse sob água profunda, como se alguém tentasse alcançá-la do outro lado de um mundo inteiro. Era Arion, ou talvez apenas uma memória do amigo. As palavras não chegavam com clareza — apenas fragmentos, ecos distantes, como se o próprio lago quisesse abafar qualquer esperança. Ela queria responder, queria pedir ajuda, mas a garganta se fechava e o peso da culpa a puxava de volta para as profundezas.

Em alguns ciclos, Thalia tentou gritar para suas irmãs fugirem, tentou desafiar Veylara de todas as formas. Mas tudo sempre terminava do mesmo modo: traição, massacre, solidão. A cada repetição, sua luz diminuía, seu coração endurecia, a esperança se afastava. A água do lago, antes fonte de vida, agora parecia corrente de morte, arrastando sua alma para o fundo.

E assim, Thalia permaneceu presa ao lago de seu passado, banhada em águas de culpa e desolação, aguardando por redenção — ou por um último gesto de perdão, que ainda parecia impossível. O ciclo parecia eterno, e mesmo no fundo, onde só restava silêncio, o eco de sua dor continuava a afundá-la, afastando-a cada vez mais da superfície e da luz.


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