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O Amado da Luzz
Capítulo 11
1524 palavras • 8701 caracteres • ⏱ 6 min 06 s

Capítulo 11

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Quando a magia do templo separou o grupo, Draven foi engolido pela névoa. Uma sensação de vertigem o arrancou do presente e, ao abrir os olhos, ele se viu de volta ao seu lar: as torres de pedra do clã Tengu, recortadas nos penhascos das terras altas. O cheiro cortante do vento gelado, o eco dos gritos das sentinelas, o céu turquesa manchado de nuvens, tudo parecia assustadoramente real — cada detalhe era preciso, cruel em sua fidelidade. Por um instante, Draven quis acreditar que sonhava, mas o frio nas penas e a tensão no peito denunciavam: aquilo era mais que memória. Era um julgamento.

O pátio central do clã estava tomado por um silêncio hostil. Tantos guerreiros — alguns amigos de infância, outros rivais, mas todos agora pareciam desconhecidos. O círculo de penas negras e azuis formava uma muralha impossível de atravessar. No centro, o corpo do velho chefe, o pai de Draven, jazia com a dignidade dos grandes derrotados: peito perfurado por uma lança, olhos ainda abertos fitando o vazio. O sangue esparramava-se pelo mármore como tinta esquecida, desenhando mapas de uma tragédia irreversível. Draven sentiu o estômago revirar ao reconhecer a arma cravada no peito do pai: era a sua lança.

Draven tentou correr, gritar, mas o corpo não obedecia. Era como se estivesse mergulhado em resina, condenado a assistir impotente. Viu Kalrek, já com o manto de sucessor, erguer-se diante de todos:

— Ele! — berrou Kalrek, com a voz carregada de teatralidade e ódio. — Foi Draven! Meu irmão desejava o comando do clã! Matou nosso pai num ato de covardia!

O choque dos anciãos, os olhares de horror das sentinelas, o sussurro que virou um rugido de condenação. Draven tentou protestar, mas a própria voz se perdeu no vento. Viu a mãe cobrir o rosto em lágrimas, ouviu amigos de infância virarem o rosto, guerreiros cerrarem os punhos. O que restava de sua honra era reduzido a cinzas diante da multidão.

— Não! Eu nunca... eu jamais faria... — Draven murmurava, a garganta seca e a alma afogada em desespero.

Kalrek assumiu o centro do círculo, triunfante, olhos duros como gelo. Ele brandiu a lança ensanguentada para a multidão:

— Peguem-no! Que pague pelo sangue derramado! Que a justiça seja feita diante dos deuses e dos nossos mortos!

Braços familiares agarraram Draven — guerreiros que um dia lutaram ao seu lado agora o tratavam como inimigo. As garras apertavam seus pulsos, suas asas eram puxadas à força, e cada olhar lançava uma nova lâmina. A mãe, devastada, apenas sussurrou:

— Por quê, meu filho? Por que você nos traiu? Por que fez isso com seu pai?

Arrastaram-no pelo pátio, suas asas amarradas, subindo a trilha íngreme até o topo do penhasco. Cada passo era um peso nos ombros, uma sentença sem chance de defesa. O vento gelado uivava, levando suas súplicas para longe. O clã inteiro se aglomerou nas bordas, olhos cheios de desejo por justiça — ou pelo menos vingança.

Kalrek se aproximou, e foi neste instante que sua máscara de irmão perfeito caiu, só para Draven ver. Ele curvou-se ao ouvido do irmão, sussurrando com veneno:

— Você nunca foi forte o bastante. Era fácil parecer herói com papai protegendo. Mas sozinho... você não é nada. Foi muito fácil enganar o velho. Eu só tive que dizer que você queria encontrar ele a sós. Depois... Bom, só tive que usar sua fiel lança.

Kalrek olhou para os demais com falsa compaixão e, só para Draven, exibiu um sorriso perverso, exibindo toda a crueldade de sua verdadeira personalidade.

— Matar você seria fácil demais, Draven. Não, para alguém como você, a morte seria misericórdia. O que quero — e o que todos verão — é que seja banido. Que nunca mais pise nestas pedras, nunca mais voe nestes céus. Você será impedido de voltar ao clã, condenado a vagar como escória, para que todos conheçam sua vergonha... Se sobreviver à queda, é claro.

Draven sentiu as pernas fraquejarem. O irmão, aquele que dividia os sonhos e batalhas, agora era o carrasco. Um último empurrão — Draven caiu. O mundo se transformou em vento e rocha. O ar arrancava as penas de suas asas, a dor atravessava cada lembrança.

O impacto não veio — só o vazio. Draven acordou em uma caverna sem luz, o eco das acusações girando ao seu redor. O chão sumiu sob os pés, e ele voltou a pisar no pátio. O corpo do pai. O círculo de condenação. O berro de Kalrek. O empurrão, a queda, o vazio. Tudo de novo, uma e outra vez.

As vozes de sua tribo martelavam sua mente:

— Traidor. Usurpador. Covarde.

Draven tentava lutar. Correu para a mãe, implorou aos amigos, tentou convencer os anciãos. O ciclo se repetia sem piedade: Kalrek mentia, a mãe chorava, a justiça era gritada em fúria cega. Draven sentia as penas se arrancarem, a vergonha colando na pele, a dúvida nascendo em cada recanto da alma.

Certa vez, ele conseguiu agarrar Kalrek antes de ser arrastado, mas o irmão só sorriu:

— Você quer vingança, não justiça. Por isso nunca será digno.

Noutra repetição, Draven tentou gritar a verdade aos céus, mas até o vento zombava, carregando sua voz para o abismo. Em um ciclo especialmente cruel, sentiu a mãe lhe virar as costas e dizer:

— Sempre desconfiei que você tinha inveja de Kalrek.

Os detalhes se multiplicavam, o sofrimento se refinava. Draven sentia fome, sede, frio; sentia as garras cravarem mais fundo, ouvia a multidão urrar mais alto. Às vezes, sentia a dor de uma lança atravessando suas costas, outras vezes caía para sempre, sem nunca chegar ao fundo.

Os olhos do pai — na morte ou no sonho — sempre lhe perguntavam, sem palavras: "Onde está o filho que criei? Onde está sua honra?"

Draven começou a acreditar nas vozes. E se, de fato, tivesse falhado com todos? E se tivesse sido sempre fraco, invejoso, indigno? E se não passasse de uma sombra, um fantasma de si mesmo?

Ciclos sem conta se passaram. O tempo deixou de fazer sentido. Draven chegou a desejar sumir — desejar que a queda, um dia, trouxesse esquecimento. Mas algo, teimoso, o mantinha de pé. Um sentimento minúsculo, mas resistente: desejo de justiça, de redenção, de alguém que enxergasse para além das mentiras.

Numa das repetições, enquanto caía, Draven viu o rosto de Arion, Tark e Thalia como lampejos distantes — uma lembrança de tempos mais recentes, uma promessa de que havia outro mundo fora daquele pesadelo. Essa centelha não o libertava, mas lhe dava forças para não enlouquecer por completo.

E assim, Draven permaneceu preso à sua memória, a alma estilhaçada em vergonha, solidão e a dúvida que nunca o abandonava: e se, de fato, ele nunca tivesse sido suficiente? E se, no fundo, fosse mesmo só uma sombra?

Mas então, durante mais uma queda, tudo mudou. No vazio, Draven viu uma luz intensamente forte, tão brilhante que fez o mundo inteiro silenciar. A luz foi se moldando, tomando a forma de um corpo alto, uma figura alada envolta em branco e dourado. Era Arion — não o Arion real, mas a essência de sua amizade, coragem e liderança — pairando no ar ao lado dele, as asas abertas e o olhar firme.

A figura se aproximou em meio à queda, e então veio a voz, límpida, direta e cheia de compaixão:

— Eu vejo você, Draven. Eu sei quem você é. Não é o que dizem, é o que você faz daqui pra frente.

As palavras ecoaram nas profundezas da alma de Draven, atravessando todas as mentiras, dúvidas e condenações. Ele sentiu uma onda de calor, como se pela primeira vez em muito tempo, alguém enxergasse além da máscara, além da culpa.

Quando a luz de Arion o tocou, Draven sentiu as amarras se soltando, e as asas voltaram a responder ao seu comando. Pela primeira vez, enquanto despencava, ele abriu as asas — não para fugir, mas para voar por vontade própria, rompendo o abismo. E então, impulsionado pela coragem recém-descoberta, Draven voou com força de volta ao topo do penhasco, diante de todo o clã, diante de Kalrek.

Encarou o irmão de frente, olhos nos olhos, a voz trêmula, mas firme, e declarou — mesmo sabendo que ninguém mais ouviria ou acreditaria, mas dizendo por si mesmo:

— Você pode tirar tudo de mim, Kalrek. Mas nunca vai tirar quem eu escolho ser agora.

No instante em que pronunciou essas palavras, o cenário começou a fragmentar. As vozes de condenação sumiram, as sombras recuaram. Draven sentiu o peso do passado se dissolver. O abismo tornou-se luz, e ele voou — não para escapar, mas para se afirmar.

O abismo se desfez em fragmentos de luz, as vozes de acusação sumiram, e Draven atravessou um portal dourado, emergindo ofegante no chão frio da ruína.

Ele não sentia alívio total — as cicatrizes ainda doíam —, mas sentia-se finalmente dono do próprio destino. Ergueu-se devagar, as penas eriçadas, o coração batendo forte.

E, no silêncio seguinte, uma certeza: ele nãoera só o que fizeram dele. Era, finalmente, aquilo que escolheria ser.


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