O amanhecer banhou a floresta em dourado quando o grupo deixou o Templo de Eldrasil para trás, guiados pela indicação dos anciãos. O caminho até a Caverna das Almas Perdidas era longo e traiçoeiro, um corredor de árvores retorcidas onde o vento parecia trazer presságios e lembranças doloridas a cada passo. O silêncio da noite anterior dera lugar ao murmúrio tenso dos que sabem que não podem mais recuar. O chão coberto de folhas parecia afundar sob os pés, e a luz, aos poucos, tornava-se difusa, como se o próprio sol respeitasse o mistério daquela trilha.
Thalia seguia à frente, atenta a cada som de água, cada movimento estranho, os sentidos sempre em alerta. Tark mantinha a mão na adaga, os olhos varrendo cada raiz suspeita, e Draven voava mais alto do que de costume, preferindo a segurança dos galhos às incertezas do solo. Arion, silencioso, sentia o medalhão pulsar junto ao peito – não mais como uma joia, mas como um fardo vivo, latejando à medida que a floresta se fechava ao redor do grupo. O medo era palpável, mas também havia uma sensação estranha de propósito: uma sensação de que tudo aquilo era apenas o início de algo ainda maior.
Após horas de caminhada, entre troncos cobertos de musgo e árvores centenárias, o grupo encontrou uma construção antiga semioculta por trepadeiras e sombras profundas. As colunas, tombadas e lascadas pelo tempo, pareciam mãos gigantes tentando se erguer. Mosaicos rachados, contando histórias apagadas de glórias e quedas, adornavam o chão quebrado. O local tinha o silêncio dos lugares esquecidos pelos deuses, mas ali, no coração da ruína, algo os chamava.
Quando Tark sugeriu passar ao largo, Thalia o interrompeu, examinando uma inscrição antiga junto à entrada. — Não sente isso? — perguntou, apertando os olhos como se enxergasse algo além do visível. — Essa energia... Parece um nó de magia primordial. Pode ser perigoso ignorar ou pode esconder respostas que precisamos.
Draven olhou desconfiado, pousando próximo ao grupo. — Ou pode ser uma armadilha.
Arion ponderou, tocando o medalhão. O objeto parecia pulsar mais forte enquanto encarava as colunas ancestrais. — Se tem algo aqui que pode nos fortalecer, ou ameaçar, é melhor encararmos do que seguir ignorando.
Thalia assentiu, um leve sorriso de desafio nos lábios. — De toda forma, podemos nos proteger melhor juntos.
Sem mais argumentos, Tark suspirou, resignado. — Não sou fã de templos velhos, mas prefiro isso a andar no escuro, cercado de fera.
O grupo cruzou o arco de pedra coberto de musgo. Uma névoa densa se ergueu, tornando o ar mais frio e pesado. O cheiro de terra molhada se misturou ao de magia antiga. Símbolos quase apagados vibravam sob as paredes; estátuas de seres híbridos observavam de seus nichos. Os quatro caminharam atentos até, repentinamente, portas se fecharam atrás deles e o chão vibrou com um sussurro de energia.
O templo revelou corredores sinuosos, e cada um se viu separado dos outros, tragado por uma magia que distorcia tempo e espaço. Tark sentiu um puxão gelado e, quando piscou, estava sozinho em um corredor estreito e sombrio. O silêncio era profundo, mas logo o som de goteiras foi substituído por vozes distantes. Voava um cheiro de fumaça e sangue pelo ar.
As paredes começaram a pulsar uma luz vermelha, e figuras fantasmagóricas surgiram entre as sombras. Tark reconheceu os rostos de sua família: mãe, pai, irmãos, esposa e filhos – todos olhando para ele com olhos acusadores, alguns chorando, outros apenas em silêncio de morte. Sons de gritos ecoavam, cada vez mais altos, até que Tark teve de tapar os ouvidos para não enlouquecer.
De repente, o cenário se distorceu. Tark se viu de novo em sua vila, num entardecer qualquer. Ele estava brincando com a sua filha mais nova. O riso dela era interrompido por um uivo cortante, e logo as sombras dos servos de Valtherion, invadiam o vilarejo. Tark via o próprio eu correr e se esconder sob uma casa deixando para trás sua filha, enquanto o massacre acontecia acima dele. Podia sentir a madeira gelada contra a pele, o cheiro de sangue fresco, os gritos desesperados dos seus. Ele tentou sair, mas não conseguia mover o corpo — era forçado a reviver a covardia.
Valtherion apareceu no centro da vila, imenso e cruel, o sorriso vermelho-brilhante iluminando a noite. O vampiro caminhava lentamente até a casa onde Tark estava escondido, olhava nos olhos dele e sorria, como se dissesse: "Eu sei que está aí."
Tark tentou gritar, mas nenhum som saiu. Viu, de novo e de novo, seus pais sendo caçados, a esposa arrastada pelos cabelos, os filhos despedaçados. O medo o paralisava — era como se uma força invisível o mantivesse em agonia. As palavras de Valtherion ecoavam, sussurradas como uma maldição:
— Covardia é pior que morte. Preferia me servir de você do que te devorar. Você vai carregar isso pra sempre, gnomo.
Tark chorava debaixo da casa. Ele sentiu cada lágrima que nunca derramou, cada palavra não dita, cada socorro não pedido. O chão começou a ceder sob seus pés — um abismo se abrindo, a voz da esposa pedindo ajuda, a mãe sussurrando seu nome em desespero.
Foi então que Tark, soluçando, gritou em voz alta, como se suplicasse à própria alma:
— Eu fui um covarde! Eu devia ter feito algo, qualquer coisa! Me perdoem!
Mas, em vez de libertação, a cena apenas se desfez em sombras para, logo em seguida, recomeçar. Ele se viu novamente naquele entardecer, brincando com a filha, ouvindo os gritos, correndo para se esconder. O ciclo se reiniciava — cada detalhe, cada sensação, cada terror. Sempre que o horror chegava ao auge, Tark era arremessado de volta ao início, forçado a reviver sua covardia e impotência vez após vez.
Não havia porta de saída, não havia alívio, apenas o eterno retorno do trauma. Por mais que chorasse, gritasse ou implorasse, a provação se renovava sem piedade, mergulhando Tark num tormento sem fim.
Ele não sabia há quanto tempo estava ali. Não sabia se alguém viria, se ele algum dia teria forças para escapar sozinho.
Foi quando, no meio de mais um ciclo, uma luz intensa irrompeu do nada — mais forte que o fogo do massacre, mais pura que qualquer esperança que Tark já sentira. No meio da claridade, ele ouviu, límpida, a voz de Arion, como se viesse de um lugar muito distante, mas ao mesmo tempo dentro dele:
— Tark, eu acredito em você. Você não é só sua covardia. Você consegue. Você pode salvar sua família, agora. Não fuja. Eu vejo coragem em você, mesmo que você não veja.
As palavras de Arion cortaram o véu da culpa, afastando os ecos que torturavam Tark. Por um instante, ele sentiu o peso dos olhares de todos que amou — mas dessa vez, havia esperança misturada ao medo.
O mundo tremeu. A cena se fragmentou em estilhaços de luz, e Tark sentiu o chão se abrir sob seus pés, mas dessa vez não era medo — era libertação. Um portal de luz suave apareceu à sua frente, convidando-o a atravessar.

