logo do projeto lunar

Capa
O Amado da Luzz
Capítulo 9
954 palavras • 5386 caracteres • ⏱ 3 min 49 s

Capítulo 9

1
0
0


A noite caiu serena sobre o templo de Eldrasil. As raízes da grande árvore lançavam sombras que se entrelaçavam com as luzes mágicas espalhadas pelo salão. O grupo, pela primeira vez desde o início da jornada, encontrou um breve refúgio. Curandeiros élficos circulavam em silêncio, aplicando bálsamos de folhas luminosas sobre os ferimentos de Thalia, Tark e Draven. A magia viva do templo penetrava a pele e o espírito, e cada respiração parecia lavar antigas cicatrizes.

Quando os anciãos se recolheram, Arion convidou o grupo para sentar-se sob o abrigo das raízes grossas de Eldrasil. Thalia acomodou-se à margem de um pequeno lago, deixando os pés tocarem a água translúcida; Tark se encolheu perto de uma pedra coberta de musgo, enquanto Draven ajeitou as asas, relutante, mas curioso, sobre um galho caído.

O silêncio do templo era diferente do silêncio da floresta — ali, não havia ameaça, só um vazio confortável, como se o tempo desacelerasse.

Thalia foi a primeira a quebrar o gelo, encarando o reflexo distorcido no lago: — Nunca achei que dividiria um momento de paz com estranhos. — Ela hesitou, depois, a voz firme: — Sabe, antes eu era cheia de alegria, espontânea, brincava sempre com minhas irmãs. Até o dia em que meu lar, o Lago dos Espelhos, foi destruído pela Veylara, a Rainha Demônio da Inveja. Minha família... — a voz falhou um instante —, eles tiveram suas essências devoradas e seus corpos foram despedaçados, apenas eu consegui escapar, e por muito pouco. Caçar aquela monstra é tudo o que me resta. Agora a única coisa a que posso me apegar é à vingança.

Arion olhou para ela, sem pena, mas com respeito. — Vingança pode consumir tudo. Só não deixe que ela te devore também.

Thalia deu de ombros. — Às vezes, ser devorada parece menos doloroso do que esquecer.

Tark, que até então mexia em uma raiz, pigarreou. — Achei que já tinha ouvido toda história triste do mundo, mas a minha é só feia. — Ele ergueu o olhar para Arion e Thalia, voz mais áspera: — Vi minha família ser devorada por Valtherion, ele era o Lorde Vampiro que reinava na região próximo à minha vila. Não foi por raiva, não foi por fome. Ele fez aquilo por puro prazer. Ele atacou e massacrou a minha vila. Eu sobrevivi porque me escondi. Fiquei paralisado, covarde, ouvindo o choro dos meus enquanto me enfurnava num buraco e torcia para ninguém me notar. Toda noite sonho que podia ter feito algo — mas nunca fiz. Essa culpa me corrói, e talvez só o medo de morrer sozinho me mantivesse andando até agora. A única coisa que me impede de sumir de vez é não deixar que monstros como ele se divirtam mais às minhas custas.

Draven parecia desconfortável, mas falou baixinho, evitando o olhar de todos: — No meu clã, eu era um guerreiro respeitado. O orgulho da minha família. Mas meu irmão, Kalrek, queria o comando. Ele me traiu, espalhou mentiras, envenenou meu nome. Fui banido. Desde então, vivi como ladrão, sobrevivendo do que pude, esperando um motivo para não virar pó sob as árvores. — Olhou para Arion, finalmente. — Roubei de você porque não sabia ser diferente. Mas vocês não me deixaram morrer, e isso me obriga a algo maior do que meu orgulho.

O silêncio que se seguiu não foi pesado, mas respeitoso — como se, por um momento, todos ali fossem mais do que vítimas ou sobreviventes. Havia uma ligação forjada no fogo e na perda.

— Não espero lealdade de ninguém — disse Arion, por fim. — Se quiserem partir, entenderei. Não posso prometer glória nem sobrevivência, só a chance de enfrentar o que devorou cada um de nós.

Thalia olhou para o medalhão, depois para Arion. — Eu vim até aqui por vingança, mas já vi o bastante para saber que lutar sozinha é morrer sozinha. Não quero só vingança. Quero justiça. Se Mor'drak está por trás das sombras desse mundo, minha guerra também é contra ele. E, de quebra, é bom ter um elfo que me deve a vida.

Tark hesitou, e por um momento quase não respondeu. — Depois de tudo isso, voltar para o vazio parece pior que seguir adiante. Fugir nunca me trouxe nada, só mais culpa e mais sonhos ruins. Alguém precisa mostrar que não é só monstro que sobrevive nesse mundo. E talvez... talvez eu precise parar de fugir de mim mesmo.

Draven respirou fundo, o peito inflando sob as penas. — Meu povo sempre acreditou que a verdadeira dívida não é paga em moedas, mas em atos. Eu jurei servir você, Arion, mas hoje juro por vontade própria: vou até o fim, pelo que resta de honra no meu nome.

Um a um, o grupo assentiu, sem promessas vazias. Não era lealdade forçada; era uma escolha feita por quem não tinha mais para onde ir, mas ainda podia decidir o próximo passo.

A noite no templo foi tranquila. A magia de Eldrasil penetrou fundo, curando não só feridas físicas, mas suavizando traumas que cada um carregava. Sonharam com as águas calmas dos lagos antigos, com lareiras familiares e voos sobre campos de ouro. Ao amanhecer, sentiam-se mais inteiros do que nunca desde o início da jornada.

Quando a luz atravessou as copas da árvore, os anciãos aguardavam. Altharion foi o primeiro a falar: — Arion, o destino da Espada de Elloryn repousa na Caverna das Almas Perdidas, no coração da Floresta Sombria. Lá, tua coragem será testada, e só aquele que for digno poderá empunhar a lâmina.

Seris completou: — Que Eldrasil fortaleça seus passos.

O grupo, enfim unido por vontade própria, partiu rumo ao desconhecido dispostos a enfrentar o que viesse.


Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.