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O Amado da Luzz
Capítulo 6
1169 palavras • 6931 caracteres • ⏱ 4 min 41 s

Capítulo 6

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O grupo avançava devagar pelas trilhas secretas de Tark, sempre sob o manto espesso das árvores e atentos a cada ruído. A tensão entre os três era um fio sempre prestes a se romper, mas o medo do desconhecido tornava qualquer aliança preferível à solidão. Thalia caminhava em silêncio, recolhendo pequenos fragmentos de mana de cada fonte d'água que encontrava, enquanto Tark seguia à frente, seu olhar saltando desconfiado de cada tronco para cada sombra. Arion, ferido e cansado, já sentia o peso da viagem – e principalmente o peso de não saber se cada passo os aproximava de respostas ou apenas de mais perigos.

O bosque ficava mais denso a cada curva, raízes cobriam trilhas, galhos baixos riscavam o rosto, o chão era úmido e escorregadio. Eles avançavam assim, quase sempre em fila, falando o mínimo, atentos ao menor sinal de perigo.

Foi numa clareira tortuosa, pouco depois do meio-dia, enquanto Thalia coletava mana de um pequeno lago e Tark remexia nervoso nos bolsos, que Arion percebeu tarde demais o sumiço do medalhão. O pescoço parecia leve, e uma sensação gelada se instalou em seu estômago. Num impulso, ele vasculhou freneticamente suas coisas, os olhos já arregalados de alarme, mas a resposta veio num riso abafado, misturado ao farfalhar das folhas acima.

Saltando de galho em galho, uma criatura de asas negras e olhos brilhantes os observava com um sorriso torto — um tengu, metade ave, metade homem, de penas azul-escuro e bico alongado. Os movimentos do ser eram tão ágeis quanto insolentes. Cada vez que mudava de galho, espalhava algumas penas pelo ar, como se fizesse questão de anunciar a própria presença.

— Procuram por isso? — zombou o tengu, balançando o medalhão na ponta de uma garra fina. — Não costumo roubar coisas tão bonitas, mas dizem que antiguidade vale ouro!

Thalia imediatamente fez a água do lago girar, formando uma onda ameaçadora. O brilho frio nos olhos dela contrastava com a expressão quase divertida do tengu. Tark praguejou, puxando uma adaga pequena e olhando para cima como se tentasse adivinhar o próximo salto da criatura.

— Se devolver agora, talvez saia daqui com todas as penas — rosnou Thalia, com uma firmeza ameaçadora.

O tengu gargalhou, dando um salto para longe, as asas batendo forte.

— Quem quiser de volta, vai ter que correr!

Antes que pudessem impedir, ele sumiu por entre as árvores, ágil como sombra. Arion disparou atrás, Tark resmungando e Thalia logo atrás, conjurando pequenas rajadas de água para afastar cipós e galhos. O rastro do tengu era fácil de seguir — ele deixava penas azuis, marcas de garras nos troncos e, claro, o som provocador de sua voz ecoando entre as árvores.

O trio perseguiu o tengu por vários minutos, subindo colinas, atravessando matas fechadas, até o som da floresta mudar e revelar um claro maior, onde o cheiro de fumaça e carne assada denunciava a presença de um acampamento. À beira de uma fogueira, uma meia dúzia de homens armados aguardava com olhares famintos grudados no medalhão que o tengu exibia com arrogância.

O tengu começou a negociar, voz afetada e gestos teatrais, exigindo moedas e favores. Mas assim que tentou cobrar seu pagamento, um dos bandidos puxou o medalhão de suas garras e o empurrou ao chão. Outros dois seguraram-no, espancando com socos e chutes enquanto arrancavam as penas de suas asas. O sorriso do tengu se desfez em um guincho de dor e desespero.

— Ladrãozinho miserável — cuspiu um dos bandidos. — Achou mesmo que ia tirar pelo menos um centavo da gente?

Arion não pensou: lançou-se para dentro do acampamento, espada em punho, surpreendendo o grupo. Thalia invocou uma onda que derrubou três bandidos de uma só vez, afogando-os em poças formadas de repente sob seus pés. Tark, sorrateiro, deslizou entre barracas e caixas, sabotando armadilhas com destreza. O combate foi caótico: lâminas cruzaram o ar, gritos ecoaram pela mata, e o barulho de água corrente misturava-se a trovões e estalos de galhos quebrados.

Arion se bateu contra dois bandidos ao mesmo tempo, desviando de golpes pesados, sentindo a antiga dor nos ombros latejar. Um dos homens tentou agarrá-lo pelas costas, mas Tark surgiu, lançando uma pedra certeira contra a cabeça do adversário. Thalia, enquanto isso, conjurava lanças de água que voavam como serpentes, empurrando outros para longe do medalhão. O tengu, mesmo ferido, cravou o bico na mão de um dos sequestradores, conseguindo se soltar tempo suficiente para rolar para longe da briga.

O último bandido tentou fugir levando o medalhão, mas Arion interceptou-o com uma rasteira e recuperou o artefato, sentindo o peso reconfortante do metal na mão. Os bandidos remanescentes fugiram para a floresta, deixando para trás o acampamento revirado e o orgulho ferido.

No fim, o tengu estava no chão, machucado, as asas desalinhadas e penas faltando. Arion se aproximou do ladrão mas não sentiu raiva — só cansaço. Ele olhou para o ser caído, e por um instante, viu mais vulnerabilidade do que ameaça.

O tengu olhou para o grupo, olhos semicerrados, e forçou um sorriso triste, cheio de ironia e resignação.

— Se quisessem me deixar para os bandidos, eu não reclamaria...

Tark bufou, ainda limpando a adaga:

— Talvez devêssemos. Mas você não duraria cinco minutos sozinho.

Thalia cruzou os braços, o semblante implacável:

— Deveríamos acabar com ele aqui mesmo. Ou então pelo menos arrancar as suas asas.

— Não há necessidade disso — interviu Arion — Ele ter aprendido a lição, vamos embora.

O tengu tentou sentar-se devagar, ajeitando as asas partidas e passando a mão pelo bico com dor.

— Meu nome é Draven. Não sou bom com dívidas, mas sei reconhecer quando devo algo grande — disse com os olhos baixos, evitando encarar Arion.

Ele baixou a cabeça, voz rouca:

— Devo minha vida e minha liberdade a você. Se quiser, lhe serei útil. Permita-me servi-lo, para que eu possa pagar pelo que fiz.

Arion observou Draven por um momento, considerando o convite e o perigo. A cada novo companheiro, a jornada se tornava mais incerta — mas também menos solitária. Guardou o medalhão com firmeza e estendeu a mão para o tengu.

— Lhe aceitarei de bom grado ao grupo — disse, ainda desconfiado. — Mas se tentar alguma coisa de novo, vai desejar ter ficado com os bandidos.

Draven aceitou a ajuda, um olhar cansado e um aceno de cabeça. Tark, desconfiado, guardou as armas e olhou para Thalia, que manteve o olhar duro não acreditando na cena que estava presenciando.

O grupo seguiu viagem, agora mais numeroso e, de certa forma, ainda mais estranho. A trilha ficou menos silenciosa: Draven resmungava dos machucados, Tark dava lições sobre armadilhas e trilhas, Thalia mantinha-se calada, recarregando mana de cada riacho e observando cada sombra. Arion, no centro daquele grupo improvável, sentia a tensão e a esperança se misturarem, como se o caminho até o templo, tão cheio de riscos, fosse também cheio de possibilidades — e talvez, só talvez, de redenção para todos eles.


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