A floresta parecia mais escura depois do ataque dos Vorkhul. Arion seguia atento, cada sentido afiado pelo medo e pelo cansaço, a mão nunca longe das adagas. O sangue secava em seu ombro, as feridas ardiam, e o medalhão pesava mais a cada passo.
Quando o sol já escalava o topo das árvores, Arion procurava por água para lavar o sangue e acalmar o corpo. Foi então que ouviu um som estranho vindo adiante, mais lamento do que perigo — um misto de dor e desespero que não combinava com fera alguma.
Ele se aproximou com cautela, esgueirando-se entre as samambaias e troncos úmidos. Logo avistou a cena: à beira de um riacho, uma figura feminina se contorcia, envolta por três criaturas translúcidas, magras e famintas, que sugavam dela não sangue, mas uma energia azulada, pulsante. Ela tentou gritar, mas a voz saiu como bolhas quebrando na água. O rosto, de traços delicados e selvagens, pedia socorro — ou pelo menos, um fim rápido.
Arion hesitou só um instante, o velho instinto de sobrevivente gritando para seguir em frente. Mas algo ali — talvez o mesmo vazio que sentia toda vez que sonhava com Mirelya — o fez agir. Não era heroísmo. Era impulso, era raiva da injustiça do mundo. E talvez, só talvez, um desejo egoísta de não carregar mais um fantasma.
A primeira criatura notou sua presença e avançou. Arion cravou a adaga em seu flanco, empurrando-a para longe da mulher. As outras largaram a presa e se lançaram sobre ele, garras afiadas e bocas escancaradas. Ele lutou duro, mas a adrenalina e a lembrança do sangue de Eldanesh o mantinham de pé. Uma das criaturas rasgou seu braço, mas ele a esfaqueou no peito; a última fugiu quando viu que a luta estava perdida.
O silêncio voltou, pesado. Arion arfava, de joelhos na lama. A mulher caiu de lado, ofegante, os cabelos grudados no rosto molhado. Ele se aproximou devagar, mantendo as armas à vista, pronto para se defender se preciso.
— Você está ferida? — perguntou, ainda desconfiado.
Ela o encarou, os olhos brilhando numa cor impossível, a pele reluzente como água à noite. Recuperava o fôlego, mas mesmo enfraquecida, transmitia perigo.
— Não preciso da sua piedade — disse, a voz cortante como vidro sob água.
— Não ofereci piedade. Só achei que talvez você não quisesse morrer devorada por monstros — respondeu Arion, sem abaixar a guarda.
Ela tentou se sentar, apoiando-se no tronco.
— Ainda não decidi se prefiro — disparou.
O silêncio seguinte era incômodo, mas não hostil. Arion sentou-se a uma distância segura, observando a estranha enquanto limpava o sangue do braço.
O tempo passou devagar até que ela conseguiu se erguer, apoiando-se nas pedras do riacho. Ele notou então os pequenos detalhes: as marcas azuladas nos pulsos, os pés quase translúcidos, o brilho de mana na pele — era uma náiade, criatura rara fora dos grandes rios.
— Meu nome é Thalia — disse ela, finalmente, sem oferecer a mão.
— Arion — respondeu ele.
Ela ergueu uma sobrancelha, avaliando-o. — Nunca o vi por aqui.
— Só estou de passagem. — respondeu ele. — Procuro o caminho para chegar ao Templo de Eldrasil.
— Não gosto de dever nada a ninguém. Vou te acompanhar até o templo de Eldrasil. Considera pago o favor quando chegarmos lá — e deixou escapar um fio de água girando nos dedos. — E, se tentar qualquer coisa, não hesite: posso encher seus pulmões de água antes que perceba.
Arion deu de ombros, um meio sorriso cansado.
— Pode tentar. Mas vai ser perda de tempo — respondeu, mais por orgulho do que por coragem.
Seguiram juntos, cada um com sua própria desconfiança, cruzando a floresta como dois estranhos unidos só pelo acaso. Thalia se reidratava nos riachos, absorvendo pequenas doses de mana sempre que podia. Arion mantinha a vigília e o passo, ferido, mas em silêncio. Não havia promessas, só uma trégua frágil até o destino que os esperava.
Pela primeira vez, Arion não sentia o fardo de estar completamente sozinho — e isso, por mais estranho que parecesse, incomodava tanto quanto aliviava.
O Templo de Eldrasil esperava. E o perigo, ele sabia,ainda estava longe de acabar.

