Arion deixou a vila antes do nascer do sol. O medalhão pesava no peito, frio como uma sentença, e cada passo era pesado como rocha. A névoa se espalhava entre as árvores, engolindo o caminho à frente e apagando a trilha atrás. O silêncio da floresta era ameaçador.
Ellyndor nunca foi terra amiga para estrangeiros, e Eldanesh — seu lar perdido — era apenas uma lembrança em ruínas dentro desse continente vasto e indiferente. Nas matas ao redor da vila, Arion sentia o peso de olhos invisíveis. A cada galho quebrado, a cada folha movida pelo vento, ele lembrava das lendas de infância, histórias de sombras que perseguiam os que ousavam andar sozinhos.
Mesmo os sons naturais pareciam hesitantes naquela manhã. O farfalhar das folhas, o bater de asas ao longe, tudo tinha uma cadência errada, abafada. Arion apertou o manto contra o corpo, mais pela sensação de ser observado do que pelo frio. O medo ali não era como o medo comum — era um medo ancestral, que dorme no fundo dos ossos e só acorda quando algo realmente errado está por perto.
Ele avançava rápido, evitando trilhas abertas, desviando das clareiras. O mundo parecia menor, sufocado pela bruma e pelo medo, e mesmo o canto distante dos pássaros era abafado pela presença de algo estranho. Em certo ponto, viu marcas recentes no chão — pegadas largas, mas não humanas, e com arranhões nas árvores próximas. O tipo de sinal que os caçadores evitavam comentar.
Horas depois, ao atravessar uma ponte de raízes antigas, sentiu o arrepio de ser observado. Parou, ouvindo a respiração prender no peito. O ar cheirava a terra úmida e a perigo. Um ruído — baixo, gutural — quebrou o silêncio. Entre as árvores, sombras se moviam de modo estranho, felino e letal.
O coração de Arion disparou quando viu formas escuras se esgueirando. Sete. Os olhos refletiam o menor raio de luz em tons de vermelho. Presas brancas como marfim, pelagem negra e áspera, corpos ágeis demais para serem naturais. Não eram demônios, mas criaturas corrompidas, torcidas pelo poder de algo que Arion ainda não compreendia. Eram Vorkhul, criaturas temidas nas lendas élficas contadas para assustar os mais novos — porém agora as lendas eram reais.
Os Vorkhul cercaram o caminho, rosnando, dentes expostos, músculos tensos para o ataque. O instinto de caçador estava ali, misturado a um ódio primal. Por trás deles, uma presença ainda mais sinistra — sombras densas, vultos de olhos opacos, como homens deformados pela corrupção. Arion pensou, num relance, em demônios. Não sabia o nome real do mal que os movia, só reconheceu o olhar vazio e predador.
Por um segundo, pensou em correr — mas correr seria entregar as costas, e isso era sempre um convite à morte. Recostou-se contra uma árvore grossa, tentando ganhar fôlego, coração martelando nas costelas como um tambor de guerra.
Arion recuou, mão deslizando até as adagas presas à cintura. Já tinha enfrentado homens, bandidos, monstros menores — mas nada assim. O passado de Eldanesh ardia na memória, cada história virando verdade sangrenta diante dos olhos.
Os Vorkhul saltaram em uníssono. Arion desviou do primeiro, cortando de raspão a pele grossa da criatura. O segundo quase o derrubou, garras rasgando a capa, e o terceiro cravou os dentes em seu ombro, arrancando sangue. Ele rolou pela lama, lutando para não ceder ao pânico, enquanto mais dois Vorkhul avançavam — rosnando, famintos. O sexto e o sétimo circulavam, atentos, esperando uma brecha.
Os vultos nas sombras riam baixo, o som distorcido, quase humano. Um deles — maior, com uma lâmina negra na mão — avançou para finalizar o serviço. O golpe veio alto, fatal, mas antes que pudesse atingir Arion, uma sombra veloz cruzou entre eles. Um dos vultos foi arremessado contra uma árvore, ossos partindo com um estalo surdo. Os Vorkhul pararam, farejando o ar, rosnando para o vazio. Os outros vultos recuaram, incertos.
Arion ficou imóvel, respiração presa. Tudo ao redor parecia mais denso, como se a floresta reconhecesse a chegada de algo antigo e perigoso. Um dos vultos tentou levantar, mas foi puxado para a escuridão entre as árvores — um grito abafado, sons de carne sendo rasgada e ossos sendo quebrados e então, silêncio.
O vento soprou forte, dispersando parte da névoa. Os Vorkhul restantes se entreolharam, desconfiados, e sumiram entre as árvores, como pesadelos ao amanhecer. Arion caiu de joelhos, lutando para respirar, o coração batendo descompassado.
Sabia que aquela força que interviu não era natural. Havia algo — ou alguém — rondando sua trilha. Alguém capaz de dispersar monstros de lenda como se fossem filhotes, mas que não o atacou. Não dessa vez. Mas será que sua sorte permaneceria a mesma? Não podia confiar.
Ergueu-se com dificuldade, limpando o sangue do rostoe sentindo o peso do medalhão sobre o peito. A estrada para o Templo de Eldrasil estava aberta, mas o perigo só começara.

