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O Amado da Luzz
Capítulo 2
816 palavras • 4527 caracteres • ⏱ 3 min 16 s

Capítulo 2

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O silêncio depois daquele nome parecia maior que todo o salão. Por um momento, Arion sentiu o velho mundo se erguer atrás dos olhos: florestas douradas, risos de irmãos, o toque suave da mãe nas têmporas. Mas logo tudo isso foi engolido pela lembrança da fuga, da perda, da culpa — e do rosto de Lirael, agora parado à sua frente, como um espectro que se recusa a morrer.

— Venha comigo, — disse ela, a voz baixa, mas inquestionável. Não era pedido, era ordem. Antes que Arion pudesse protestar, Lirael já atravessava a porta, o manto se arrastando como sombra. Por um segundo, ele pensou em não seguir. Pensou, mas não conseguiu. Velhos elos puxam mais forte que grilhões de ferro.

Lá fora, a chuva já tinha diminuído, mas o céu ainda pesava. Lirael caminhou até o abrigo da estreita passagem atrás da estalagem, onde a luz das tochas não alcançava, e só o cheiro de terra molhada e ferrugem preenchia o ar. Ali, finalmente, ela se voltou para Arion.

— Você mudou. — Ela examinou o rosto dele com a mesma precisão de quando era conselheira de Lyria.

— O tempo não foi gentil. — Nem para mim, nem para ninguém — respondeu Arion, seco.

Por um instante, nenhum dos dois falou. Lirael então puxou de dentro do manto algo envolto em um pano de linho. Ela abriu devagar, e a luz fraca revelou um medalhão de prata antiga, gravado com símbolos élficos que Arion nunca esqueceu. Uma grande esmeralda se acomodava no centro.

— Sua mãe me confiou isto na noite do ataque — disse Lirael, entregando o medalhão à mão trêmula de Arion. — Lyria sabia que algo terrível estava por vir. Ela sentiu... muito antes de qualquer um de nós.

Arion fechou os dedos em torno do medalhão. Por um segundo, sentiu que tudo podia ruir de novo.

— Por que agora? — A voz dele saiu rouca. — Por que me procurar depois de todos esses anos?

Lirael hesitou, os olhos buscando resposta no escuro. — Porque chegou o momento. Porque as sombras que destruíram Eldanesh não dormem. Porque você é o último que resta, e há perguntas que só os Anciãos de Eldrasil podem responder.

Ao ouvir o nome da Árvore do Mundo, Arion sentiu o sangue gelar. Era uma palavra proibida, um destino do qual sempre fugiu.

Lirael olhou para o céu, como quem pesa o próprio silêncio. — Lyria sabia que não sobreviveria. Ela pediu que eu protegesse o medalhão — e você e seus irmãos. Mas quando fugimos, tudo saiu errado. Havia caçadores por toda parte. Eu consegui despistá-los levando o medalhão, mas precisei me esconder até agora. — A voz dela falhava, quebrada pelo cansaço dos anos.

Imagens da noite do ataque passaram velozes pela mente de Arion: ele sendo puxado por Lirael entre corredores em chamas, os gritos de Mirelya se afastando, o frio no peito ao perceber que estavam sozinhos, a separação no meio da mata, cada um indo para um lado sem tempo para despedidas. O tempo e o medo tinham deixado tudo desfocado, mas o peso nunca saiu dos ombros.

— Eu não podia voltar, Arion — sussurrou Lirael, como se lesse seus pensamentos. — Esperei o sinal, esperei que o perigo enfraquecesse. Não sabia se você ainda estava vivo, mas eu tinha esperanças.

Arion apertou o medalhão contra o peito, tentando se lembrar do cheiro das florestas de Eldanesh, do calor da família reunida. Agora, tudo aquilo era apenas memória e aço frio entre os dedos.

— O que os Anciãos podem me dar que ninguém mais pode? — perguntou, quase desafiante.

Lirael olhou fundo nos olhos dele, e por um instante, Arion teve a impressão de que ela carregava mais do que estava dizendo. O silêncio entre eles era carregado de segredos, de decisões não ditas.

— Respostas. Sobre quem você é. Sobre o que aconteceu naquela noite. Sobre o que ainda pode acontecer, se você não aceitar o chamado. — Ela parou, o olhar se tornando duro. — Não posso dizer tudo. Não aqui. Mas jurei à sua mãe que lhe entregaria o medalhão quando chegasse a hora. Esta é a hora, Arion.

Por um momento, Arion quis recusar. Quis devolver o medalhão e desaparecer de novo. Mas o frio nas veias, o peso do passado e a ausência de futuro tornavam qualquer escolha impossível.

Lirael tocou o braço dele, um gesto breve e antigo, quase maternal. — Há esperança. Os Anciãos aguardam. E você não está tão sozinho quanto pensa.

A chuva voltou, fina, lavando o mundo. Arion olhou para o medalhão, sentiu o metal gelado, e soube que não teria mais paz.

Quando ergueu os olhos, Lirael já caminhava para longe, sumindo na neblina, como se nunca tivesse estado ali.

No fundo da noite, Arion soube: a fuga acabara. E o destino, paciente, sorria de longe.


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