Anos haviam passado desde a queda de Eldanesh, mas o tempo não era bálsamo. Em Ellyndor, ninguém falava em altos-elfos. O nome do povo antigo era só um eco, perdido entre mercados barulhentos, ruas enlameadas e tavernas cheias de gente cansada. Para a maioria, Arion era só mais um forasteiro: olhos fundos demais, voz baixa demais, rosto que ninguém conseguia lembrar quando virava as costas. E era assim que ele queria.
A névoa daquela manhã grudava na pele, pesada, como as lembranças que ele não conseguia lavar das mãos. O céu permanecia opaco sobre as ruas lamacentas, e um cheiro de ferrugem parecia se agarrar a tudo, como se o passado insistisse em não ir embora.
Arion atravessava o mercado, capa escura puxada até o queixo, olhos atentos a qualquer sinal de perigo—ou de oportunidades. Seu nome real ele enterrara junto ao último suspiro de Eldanesh. Entre os humanos, atendia por “Ari”, ou por nenhum nome. Mercenário, guia, caçador de recompensas. O trabalho sujo que ninguém queria fazer.
Às vezes, era contratado para acompanhar caravanas, caçar animais que ameaçavam aldeias ou rastrear foragidos. Outras vezes, aceitava trabalhos ainda mais escuros, daqueles que faziam a consciência pesar e as mãos arderem em sangue frio. Era uma rotina feita de sobrevivência, de noites mal dormidas e de sonhos que nunca traziam descanso.
A vila onde vivia era pequena e cinzenta, encostada nos pés dos Montes Cinzentos, onde a luz do sol era uma promessa rara. Casas de madeira úmida e pedra, fumaça saindo das chaminés tortas, e cães magros rondando as esquinas. Era fácil desaparecer ali. O dono da estalagem nunca fazia perguntas. Os outros mercenários olhavam com aquela desconfiança cansada de quem já viu de tudo, mas ninguém sabia de verdade quem era Ari—e, com sorte, nunca saberiam.
Seu trabalho era simples: proteger caravanas, buscar dívidas, afastar bandidos. Arion já tinha sangue demais nas mãos, mas a moeda era boa e ele precisava comer. Naquela manhã, tinha acabado de voltar de uma missão. Mais um grupo de comerciantes salvo, mais uma noite mal dormida, mais algumas moedas no bolso. O sangue dos últimos inimigos já tinha secado sob as unhas.
Enquanto caminhava pela vila, ouviu de longe a voz de um velho mercador reclamando do preço dos cereais. Dois meninos disputavam um pedaço de pão, e uma mulher puxava o filho pelo braço com olhar duro. Havia vida naquela pobreza, uma dureza que Arion invejava. Talvez ali as dores fossem menores, mais simples, mais fáceis de esquecer.
No salão da estalagem, os risos eram baixos, e as histórias piores ainda. Arion sentou no canto, como sempre, costas na parede, olhos de animal acuado. O cheiro de cerveja barata, o ranger das cadeiras velhas, a fumaça do fogão a lenha: tudo era familiar e, ao mesmo tempo, distante.
A menina do balcão trouxe uma caneca de cerveja e pão duro. — Não vi você ontem à noite — comentou, voz arrastada. Arion só fez um gesto vago. — Estava trabalhando. Ela ficou esperando uma resposta que não veio. O olhar dela era uma mistura de pena e tédio. Foi embora, mais um rosto esquecido.
O dia arrastou-se entre pequenas tarefas. Um sapateiro pediu proteção para ir até o celeiro dos fundos; um velho reclamou do sumiço das galinhas. Arion respondia pouco, só o necessário. O olhar das pessoas era o mesmo: desconfiança, indiferença, medo do desconhecido.
À tarde, Arion saiu da vila, caminhando para o alto das colinas. Gostava de olhar o vale lá de cima, onde o vento batia mais forte e quase conseguia calar as vozes do passado. Dali via as trilhas de lama cortando os campos, os telhados deformados pela chuva e, bem longe, a linha escura das montanhas onde uma vez acreditou haver esperança.
Quando o sol caía, voltava para a vila, misturando-se aos outros mercenários. À noite, os sonhos vinham. Gritos, fogo, o rosto de Mirelya sumindo entre as sombras. O último olhar do rei Thalion, a voz da mãe se desfazendo em luz azul. Sempre o mesmo: correr, perder, acordar com o peito apertado, como se o mundo tivesse sido esvaziado de ar. Ele levantava, vestia a capa e ia para a rua, deixando a insônia esvaziar a cabeça no vento frio.
Em algumas madrugadas, Arion passava diante da forja, onde o ferreiro trabalhava até tarde. Gostava do som das marteladas, do cheiro de metal quente. Às vezes pensava em pedir trabalho, mas sabia que, para alguém como ele, nunca haveria paz de verdade.
Arion havia aprendido a não confiar em ninguém. Entre os mercenários, confiança era um luxo perigoso. Já vira gente morrer por menos. Mesmo assim, de vez em quando, via nos olhos de alguma criança na rua, um eco distante da vida que perdeu. E por um segundo, sentia vontade de ser outra pessoa, de largar tudo e seguir outro caminho.
Mas logo lembrava: Não havia outro caminho. Só existia a sombra, a fome, o medo. E o passado, que nunca morria.
Certa noite, a chuva caía forte, batendo no telhado da estalagem como um velho tambor de guerra. O salão estava quase vazio quando Arion entrou, pingando e cansado. Sentou no mesmo canto de sempre, olhando as chamas tímidas na lareira. A fadiga pesava nos ombros, e os olhos ardiam. Ao redor, só alguns homens encurvados sobre suas canecas, cochichando segredos que não interessavam a ninguém.
Arion ficou ali por um bom tempo, tentando se convencer de que podia fazer parte daquele mundo. Escutou as histórias repetidas: bandidos nas estradas, fazendas saqueadas, boatos sobre criaturas estranhas na floresta. Ninguém ali tinha tempo ou espaço para lendas antigas.
Foi quando percebeu uma figura parada à porta, envolta em manto escuro, rosto quase invisível sob o capuz. A figura caminhou na direção dele, passos firmes, olhos atentos a cada sombra. Atravessou o salão em silêncio, ignorando os olhares desconfiados dos poucos clientes. Quando a luz do fogo tocou o capuz, Arion sentiu um arrepio, uma lembrança enterrada sob anos de silêncio e sangue.
A mulher parou diante dele. O silêncio era um convite e uma ameaça. — Há muito tempo te procuro, Príncipe Arion — disse, voz firme, carregada de um passado que ele nunca quis revisitar.
O nome soou como uma lâmina. Alguns poucos na taverna ergueram o rosto, mas ninguém entendeu o peso daquelas palavras. Arion não respondeu. Não precisava. No fundo, sempre soube que um dia o passado bateria à porta.
E ali, com o nome verdadeiro ecoando entre as sombras, soube que nenhuma fuga dura para sempre.
— Lirael...

