Naquela noite, porém, o vento era estranho. Sussurrava entre as folhas, carregando consigo o cheiro metálico da guerra que ninguém havia pedido.
O ataque começou com uma explosão seca. O palácio estremeceu e as luzes, antes tão firmes, passaram a dançar como se tremessem de medo.
Arion acordou com o rugido das portas arrombadas e o som cortante dos gritos. Pelas janelas, o luar se escondeu atrás da fumaça negra.
O Rei Thalion, no topo da escadaria, lutava para proteger a todos do ataque inimigo. — Fiquem juntos! — a voz de Thalion explodia no ar, cada palavra empurrando o medo para longe.
Mas os inimigos não vinham sozinhos. Armados com um aço corrompido, olhos mortos, moviam-se como marionetes de algo impossível. Espadas atravessavam elfos e sugavam não só o sangue, mas a essência, deixando corpos pálidos e vazios no chão.
Thalion lutava ao lado dos filhos, cada golpe abrindo clareiras na multidão inimiga. Lyria conjurava paredes de luz, tentando fechar cada brecha, gritando feitiços, nomes e promessas.
Arion viu seu irmão Eldoriel ser atingido por uma lança negra — o corpo dele caiu pesando cem vidas, e Lyria gritou como nunca. O escudo vacilou.
Nymir tentou puxar Syrrien para longe do perigo, mas ela, teimosa, lançou um feitiço de fogo nos invasores para proteger Mirelya e Liraelis, que tremiam atrás dela. Liraelis tentou correr em direção ao rei, mas foi atingida por uma flecha no pescoço. Mirelya, a menor, agarrou a mão de Arion, olhos arregalados, chorando sem som.
Thalion, ferido, abriu um último corredor dourado, investindo magia como nunca antes. Mas não havia salvação para todos.
Os humanos pareciam infinitos; seus poderes eram como rachaduras na própria realidade. A cada filho que caía, Lyria rugia mais forte, até sua magia se fragmentar em chamas desesperadas. Thalion tentou proteger a todos, mas a corrupção corroía seus escudos, transformava sua luz em sombra diante dos próprios olhos.
No caos, Lirael surgiu, puxando Arion e Mirelya. Um último clarão, um último esforço da rainha — Corram! — foi tudo o que Arion ouviu, a voz cortando o horror.
O fluxo da fuga era violento. Mirelya, agarrada à mão de Arion, olhos marejados. Num empurrão, um dos guerreiros humanos se interpôs e a arrancou dos dedos do irmão. O grito dela sumiu sob o barulho dos combates.
Quando Arion olhou para trás, viu Thalion desaparecendo sob uma onda de inimigos, Lyria em meio a uma tempestade azul, lutando por todos eles até o último instante.
No portão final, já fora do palácio, Arion ouviu os gritos dos irmãos, das irmãs, do povo que tombava como folhas queimadas. O cheiro de carne queimada e sangue nunca mais saiu da sua memória.
Eldanesh morreu naquela noite, não por covardia, não por fraqueza — mas porque o mundo, às vezes, é feito pra quebrar até os maisfortes. Arion foi o único que escapou. E nunca mais houve silêncio em seus sonhos.

