**Henrique narrando:**
Acordei mais cedo do que o normal naquele dia. Não por ansiedade visível, mas porque meu corpo simplesmente não conseguiu continuar dormindo. Era meu aniversário. E, pela primeira vez em muitos anos, a data não doía do mesmo jeito.
O apartamento ainda estava silencioso. A luz da manhã entrava tímida pela janela, iluminando detalhes que eu nunca reparava quando estava apressado demais para sentir. Preparei um café simples e fiquei alguns minutos parado na cozinha, segurando a xícara quente entre as mãos, tentando organizar os pensamentos.
A festa seria à noite. Nada grande. Apenas minha mãe, meu irmão, alguns amigos próximos… e Noah.
Pensar nele fazia meu peito aquecer de um jeito diferente. Não era euforia, nem nervosismo exagerado. Era uma sensação tranquila, quase cuidadosa, como se algo bom estivesse se aproximando devagar, respeitando meu tempo.
Passei o dia organizando o apartamento, escolhendo a roupa com mais atenção do que gostaria de admitir, conferindo o horário mais vezes do que o necessário. Em vários momentos, pensei no meu pai — na ausência previsível — mas, surpreendentemente, aquilo não me derrubou. Pela primeira vez, a falta não ocupava todo o espaço.
Quando olhei o relógio e vi que estava quase na hora de buscar Noah, senti o coração acelerar de leve. Não por medo. Mas por expectativa.
Talvez aquela noite não mudasse tudo.
Mas, de algum jeito, eu sabia: ela já era diferente de todas as outras.
Decidi buscá-lo mais cedo para que ele pudesse se acostumar com minha casa e não se assustar com as pessoas que chegariam depois. O horário coincidiu com o momento em que eu iria buscar o bolo, os salgados e os doces, então passaríamos um tempo relativamente bom juntos antes da festa começar.
Terminei de me arrumar e saí do apartamento. Quando entrei no elevador, meu coração martelava tão forte no peito que eu me sentia de volta ao colegial. Cumprimentei o porteiro e desci até a garagem. Minhas mãos tremiam tanto que demorei alguns segundos a mais para abrir a porta do carro.
Entrei, respirei fundo e, antes de sair, mandei uma mensagem rápida para Noah:
*Boa tarde, Noah. Já estou saindo de casa para te buscar.*
A resposta veio quase imediatamente, como se ele estivesse esperando.
*Boa tarde, Henrique. Certinho, já estou te esperando.*
Sorri sozinho, guardei o celular e dei partida no carro. O caminho até a casa dele foi tranquilo, sem muito engarrafamento. Os prédios pareciam mais brilhantes naquele dia, como se o universo estivesse conspirando para que tudo saísse exatamente como eu tinha imaginado.
Depois de cerca de dez minutos, cheguei à casa de Noah. Estacionei, desci do carro e me aproximei da porta, um pouco relutante. Bati. Após alguns segundos, a mãe dele abriu.
— Boa tarde, dona Letícia. Vim buscar o Noah — falei, com um sorriso amigável.
— Boa tarde, querido. Não precisa de tanta formalidade comigo. O Noah já está te esperando. Vou chamá-lo — respondeu, sorrindo.
Ela entrou e eu fiquei do lado de fora. Não demorou muito para voltar, agora com Noah ao seu lado.
Ele estava lindo. Usava uma blusa preta justa que marcava bem o corpo. O cabelo estava bagunçado — mas de um jeito bonito demais. Ele me olhava com um sorriso tão sincero que eu poderia ficar ali por horas, apenas observando.
— Boa tarde, Noah. Você está lindo — falei devagar, para que ele pudesse acompanhar meus lábios.
Ele corou levemente e respondeu, também com cuidado:
— Boa tade, Henriqe… obrigado pelo elogio. Vose também tá lindo.
*Puta que pariu*, pensei. Esse menino ainda vai me matar de tanta fofura.
Me aproximei e estendi a mão. Ele pegou a minha com delicadeza. Antes de irmos, virei-me para Letícia:
— Fique tranquila. Ele está em boas mãos. Vou cuidar muito bem dele e trazê-lo de volta para a senhora.
Ela sorriu, daquele jeito doce que transmite confiança.
— Obrigada, Henrique. Depois que você se aproximou do meu filho, ele tem estado bem mais feliz. Eu sei que isso vai contra a ética de um médico… mas obrigada mesmo. Cuide bem do meu menino.
Assenti, emocionado, enquanto ela entrava e fechava a porta.
Noah ainda segurava minha mão quando o levei até o carro. Abri a porta para ele. Ele entrou timidamente, colocou o cinto, e então eu dei a volta e entrei também.
A viagem até a confeitaria foi tranquila. Noah observava tudo pela janela, atento, como se não saísse de casa há muito tempo.
Estacionei na Magnolia Bakery e entrei rápido para não deixá-lo esperando. Voltei com o bolo e, ao abrir a porta do passageiro, falei devagar:
— Você pode segurar o bolo pra mim? Se eu colocar atrás, pode cair.
Ele assentiu, e coloquei o bolo cuidadosamente em seu colo. Avisei que, se ficasse desconfortável, eu pararia o carro. Ele corou de novo e fez um pequeno gesto afirmativo com a cabeça.
No caminho até minha casa, precisei me controlar para não olhar para ele o tempo todo. Noah era simplesmente fascinante. O cabelo preto balançando com o vento, os olhos castanhos atentos à rua, a pele clara refletindo a luz suave do fim da tarde. Tudo nele me encantava.
Chegamos ao condomínio. Estacionei, desci para abrir a porta e pegar o bolo.
— Obrigado por segurar — falei, pegando a caixa, enquanto percebia o jeito atento com que ele observava meus lábios.
— De nada — respondeu, tímido.
Sorri e o guiei até o elevador. Subimos em silêncio até o décimo andar. Ao chegar ao apartamento, segurei o bolo com um braço e abri a porta com o outro, sinalizando para que ele entrasse.
Noah entrou devagar, tirou os sapatos e olhou ao redor, claramente observando cada detalhe. Coloquei o bolo sobre a mesinha que havia preparado mais cedo e sinalizei:
*Eu te trouxe mais cedo pra não te assustar com as pessoas. Fica tranquilo, daqui a pouco eles chegam.*
O rosto dele relaxou visivelmente. Ele se sentou no sofá e sinalizou de volta:
*Obrigado por se importar comigo… fiquei até com vergonha.*
*Não precisa ficar envergonhado. Só quero que você se sinta confortável.*
Continuei arrumando a sala, mas meus olhos sempre acabavam voltando para ele. Noah me olhava de vez em quando, achando que eu não percebia.
E enquanto ajeitava os últimos detalhes, pensei que talvez aquela noite pudesse ser mais do que apenas uma festa.
Talvez fosse o começo de algo que eu vinha esperando sem perceber.

