Henrique acorda com o peso de lembranças que sempre evitou.
O pai nunca foi violento, apenas distante — presente nas cobranças, ausente no afeto. Crescer, para ele, significou aprender a engolir sentimentos e seguir em frente sem pedir nada.
No dia a dia, essa ausência se refletia na forma como se controlava, em como evitava falar do que sentia, em como preferia cuidar dos outros a olhar para si mesmo.
Ele sempre teve um relacionamento ótimo com a mãe e com o irmão mais velho. Mas, desde que se lembrava, o pai o evitava — e ele nunca entendeu o porquê. O pai sempre foi frio e distante com ele. Henrique chegou até a cogitar a ideia de ter sido fruto de uma traição, mas sua mãe sempre lhe dizia que não, que era apenas o jeito do pai. Ainda assim, Henrique não era burro. Ele percebia claramente que o pai o tratava de forma diferente do irmão.
Com o irmão mais velho, o pai sempre foi presente em tudo. Já com ele… as coisas mudavam. Henrique lembrava com clareza de todas as vezes em que quis o pai presente nos momentos importantes da sua vida — e ele simplesmente não estava lá.
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Henrique narrando:
Depois de mais um dia corrido no trabalho, eu simplesmente me jogo no sofá, de roupa e tudo. Desde cedo, uma angústia me acompanhava. Meu peito doía, e uma vontade imensa de chorar estava comigo desde o momento em que abri os olhos.
Suspiro lentamente e fecho os olhos.
Eu sabia exatamente o motivo daquela tristeza toda: meu aniversário de 26 anos estava chegando.
Deveria ser um dia bom. Alegre.
Mas eu sabia que não seria. Porque, como em todos os outros anos, meu pai não iria aparecer.
Eu nunca entendi muito bem por que ele nunca gostou de mim. Ele nunca me bateu, nem física nem verbalmente. Mas o silêncio… o silêncio dói mais do que qualquer surra que eu poderia ter levado.
Pego o celular e mando uma mensagem rápida para Noah:
Boa noite, Noah. Pode parecer estranho… mas você quer vir à minha festa de aniversário?
Envio a mensagem antes que a coragem desapareça e desligo o celular logo em seguida. Passei o dia inteiro pensando nisso, tomando coragem para chamá-lo. Eu sei que ainda não temos tanta intimidade, mas… se ele for, talvez me ajude a esquecer um pouco a dor de não ter meu pai presente.
Depois disso, me levanto e vou direto para o chuveiro frio. A água gelada ajuda a afastar um pouco os pensamentos, a aliviar o peso no peito. Deixo a água escorrer pelo meu corpo, tentando esvaziar a mente.
Mas não adianta muito.
As memórias do passado invadem meus pensamentos.
Eu devia ter uns sete anos. Estava brincando com um carrinho novo que minha mãe tinha me dado. Estava tão feliz que queria mostrar para meu pai. Peguei o brinquedo e fui correndo até a sala.
Ele estava sentado no sofá, com meu irmão mais velho no colo, assistindo a uma partida de futebol na televisão. Me aproximei devagar e levantei o carrinho para que ele visse.
— Olha, papai… a mamãe me deu um brinquedo novo. O senhor pode brincar comigo depois? — falei animado.
Ele nem olhou para o meu rosto.
— Agora não, Henrique. Não está vendo que estou assistindo junto com seu irmão? E mais tarde tenho coisa melhor para fazer do que brincar com você.
Me afastei em silêncio e voltei para o meu quarto. Eu já sabia como as coisas funcionavam naquela casa… e mesmo assim continuava insistindo em tentar arrancar um pingo de amor e atenção de alguém que claramente não me queria.
Mais tarde, quando saí do quarto para jantar, vi meu pai brincando com o Marco no chão da sala. Aquilo doeu tanto… mas eu fingi que não me afetou. Minha cabeça infantil não conseguia entender por que o papai não me amava como amava o Marco.
Aos dez anos, ganhei um campeonato de matemática na escola. Cheguei em casa radiante, querendo mostrar para toda a família. Minha mãe disse que estava orgulhosa. Marco me deu parabéns e disse que eu era seu orgulho.
Já meu pai…
Ele nem se deu ao trabalho de falar comigo. Quando me viu, simplesmente saiu de casa.
E isso se repetiu durante toda a minha vida. Ele nunca foi a uma apresentação de Dia dos Pais. Nunca esteve lá. Ver meus colegas abraçados com seus pais enquanto eu precisava me consolar nos braços da minha mãe e do meu irmão doía mais do que eu sabia explicar.
Muitas vezes me perguntaram se eu não tinha pai. E eu mentia, dizendo que ele trabalhava fora e não podia vir.
Quando me formei em medicina, como primeiro da turma, ele também não apareceu. Na formatura estavam apenas minha mãe e o Marco. Só os dois. Naquele dia, meu coração se partiu de um jeito diferente. Eu queria minha família inteira ali.
Mas depois de uma vida inteira sendo tratado assim, aprendi a conviver com isso. Mesmo assim… ainda dói, bem lá no fundo.
Termino o banho, visto uma calça de moletom e fico alguns segundos me encarando no espelho.
— Que patético, Henrique… — murmuro. — Você sabe que seu pai não te ama e mesmo assim ainda sofre por isso.
Faço uma xícara de café e me sento no sofá. Pego o celular para ver se Noah respondeu.
*Oi, Henrique. Boa noite. Eu posso ir sim à sua festa. Obrigado pelo convite. Mas posso te pedir uma coisa?*
Meu coração dá um salto. Toda a tristeza que eu sentia parece desaparecer naquele instante.
*Claro que pode pedir, Noah.*
Ele responde quase imediatamente:
*Eu queria saber se você poderia me buscar aqui em casa. Minha mãe disse que só deixa eu ir se você vier me buscar. Ela tem medo de que aconteça algo comigo no caminho.*
Eu quase pulo do sofá. Ter Noah no meu carro… na minha casa… parecia bom demais para ser verdade.
*Claro que posso ir te buscar. Não se preocupe. A festa vai ser às 19h. Eu te pego e depois te levo em casa.*
Envio a mensagem com um sorriso bobo no rosto. Eu devia estar parecendo um adolescente vivendo o primeiro amor.
Desligo o celular e encosto a cabeça no sofá, imaginando como tudo poderia ser.
O menino por quem eu estava perdidamente apaixonado viria até a minha casa.
E, talvez, esse fosse o começo de algo importante para nós dois.

