Noah acorda ainda com a sensação da conversa da noite anterior. Não é euforia — é algo mais quieto. Um conforto estranho que ele não está acostumado a sentir.
Ele observa a casa em silêncio: a mãe se movendo pela cozinha, a rotina simples, os detalhes visuais que sempre foram o jeito dele de entender o mundo. Pensa no dia que o espera, nas entrevistas que talvez não deem em nada, no futuro incerto que insiste em não se definir.
A mensagem de Henrique volta à sua mente. O cuidado, a paciência, o jeito respeitoso. Noah tenta não criar expectativas, mas percebe que pensa nele sem medo — e isso é novo.
Ele se questiona se está confundindo gentileza com algo mais. Lembra que Henrique é médico. Que existe um limite. Ainda assim, sente curiosidade. Uma curiosidade tímida, quase culpada.
Um pouco hesitante, resolve mandar uma mensagem simples para Henrique:
Bom dia, Henrique. Dormiu bem?
Ele envia antes que o pouco de coragem que sentia desapareça.
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Noah Arantes narrando:
Desliguei o celular depois de enviar a mensagem para Henrique. Levantei-me preguiçosamente da cama e fui em direção à cozinha, onde minha mãe preparava ovos mexidos, bacon e pão. Ao me ver, ela sinalizou:
Bom dia, querido.
Sorri devagar e sinalizei de volta:
Bom dia, mamãe.
Peguei meu prato, me servi e me sentei à mesa. Minha mãe, mesmo depois de tantos anos desde o acidente que me fez perder a audição, ainda não sabia se comunicar bem em língua de sinais. Ela sempre trabalhou muito para conseguir sustentar nós dois, além de arcar com minhas consultas médicas regulares. Por isso, nunca a culpei por não saber Libras além do básico.
Ela conhecia apenas alguns sinais: bom dia, eu te amo, querido, e o meu nome. O resto, a gente resolvia por mensagens ou pela leitura labial.
Ela se sentou à minha frente e falou bem devagar, para que eu pudesse entender:
— Querido, não vai dar para irmos ao mercado hoje… meu chefe pediu para eu entrar mais cedo e fazer hora extra.
Assenti lentamente e tentei responder em voz alta, do meu jeito:
— Tu… tudo ben… mas pode fica tranquila.
Ela me olhou e sorriu. Aquele sorriso quente que só ela tem. Um sorriso que sempre me fez sentir que ela me daria o mundo, se pudesse.
— Você fala tão fofo, meu menino. Mamãe vai trabalhar agora. Coma tudo e vá estudar um pouco.
Ela beijou minha testa, pegou a bolsa e saiu, acenando para mim.
Fechei os olhos por um instante e suspirei. Eu sabia que, por trás daquele sorriso, ela ainda se culpava pelo que tinha acontecido comigo.
Suspirei de novo, e as memórias daquele dia terrível invadiram minha mente.
Eu tinha dez anos. Estava em casa, brincando com meus carrinhos, enquanto minha mãe trabalhava. Meu pai assistia a um jogo de hóquei e bebia demais. Até que ouvi uma garrafa se quebrando e fui ver o que tinha acontecido.
— Está tudo bem, papai? — perguntei, inocente.
— Bem? Eu não estou bem, seu moleque inútil! Você não está vendo que meu time perdeu?
Ele avançou contra mim com a garrafa na mão.
Eu só tinha dez anos. Não consegui me defender. Ele era mais forte. Meu pai pulou em cima de mim e começou a me bater. Quando a garrafa quebrou no meu rosto, ele segurou minha cabeça e a bateu contra o chão.
Eu não sei como não morri naquele dia.
Ele me batia e gritava que a culpa era minha. Em certo momento, parei de ouvir os gritos dele. Só sentia a dor dos golpes.
Eu gritava para ele parar. Gritava que o amava. Mas nada disso adiantou.
Até que a porta da casa foi arrombada.
Um vizinho que passava ouviu meus gritos e entrou para me salvar. Se não fosse por ele, eu acho que estaria morto. A última coisa que vi foi o vizinho indo para cima do meu pai, depois disso, tudo ficou escuro.
Quando acordei, estava em uma cama de hospital. Minha mãe chorava ao meu lado, dizendo algo que eu não conseguia ouvir.
Foi ali que minha vida como uma pessoa surda começou.
Abri os olhos novamente e senti uma lágrima escorrer pelo canto do rosto. Limpei rápido e voltei a comer, assistindo a um vídeo qualquer no celular para me distrair.
Quando terminei, peguei o celular para ver se Henrique tinha respondido. A mensagem ainda não tinha sido visualizada.
Ele deve estar dormindo, pensei.
Subi para o quarto e fui estudar um pouco. Eu já tinha terminado a escola há quatro anos e não pretendia entrar em uma faculdade. Não encontrei nenhuma que oferecesse o apoio necessário para pessoas surdas.
Eu quase não saía de casa. Minha mãe tinha medo de que algo me acontecesse, já que eu não escuto e estou mais propenso a acidentes. Então, aproveitava o tempo dentro de casa para estudar biologia — uma área que eu sempre amei.
Esse sempre foi meu sonho. Ser biólogo.
Mas acabei desistindo. Nenhuma faculdade parecia realmente preparada para alguém como eu.
Sentei-me em frente ao computador e coloquei uma videoaula qualquer. Antes de dar play, peguei o celular mais uma vez.
Henrique tinha respondido.
Um sorriso tímido surgiu nos meus lábios enquanto eu abria a mensagem.
Bom dia, Noah. Desculpa a demora para responder. Hoje é meu dia de folga, então acabei dormindo até mais tarde. E você? Dormiu bem? Foi ao mercado com sua mãe?
Sorri ainda mais. Henrique parecia se importar comigo de verdade — mas tratei logo de afastar esses pensamentos. Ele era meu médico.
De boa kkkk. Dormi bem. E você? Não fui ao mercado com minha mãe, ela precisou ir mais cedo para o trabalho e vai fazer hora extra hoje.
Depois de enviar a mensagem, desliguei o celular e tentei focar nos estudos. Mas, enquanto a aula passava, minha mente insistia em voltar para Henrique.
Eu sabia que era errado.
Mas… acho que estou me apaixonando pelo meu médico.
E vou esperar o tempo que for preciso para descobrir se Henrique Monteiro sente o mesmo por mim.

