Henrique passou o dia inteiro funcionando no automático. Consultas, anotações, orientações repetidas — tudo seguia o ritmo previsível que ele dominava há anos. Ainda assim, por baixo da rotina organizada, havia um incômodo silencioso que insistia em permanecer.
Noah surgia em seus pensamentos nos momentos mais inesperados. No jeito cuidadoso de falar, no olhar sempre atento, como se estivesse constantemente se preparando para que o mundo o machucasse de novo. Henrique tentou chamar aquilo de empatia, de preocupação profissional. Era o mais lógico. Era o mais seguro.
Mas não era o suficiente para explicar por que ele continuava pensando nele mesmo depois do expediente.
No fim do dia, ao guardar seus materiais, hesitou diante do celular. Não havia urgência real, nenhum motivo concreto. Ainda assim, enviou uma mensagem simples, cuidadosa, quase neutra — e percebeu, no mesmo instante, que aquele gesto já fugia do seu comportamento habitual.
Henrique respirou fundo.
Nada tinha acontecido.
E, mesmo assim, tudo parecia um pouco diferente.
Ele sabia que era errado sentir algo por um paciente. Sabia disso racionalmente. Mas não mandava no próprio coração. Noah o tocava de um jeito diferente. O jeito simples, contido e naturalmente fofo dele o deixava vulnerável sem esforço algum.
Antes de sair da sala, mandou uma mensagem rápida. O coração martelava forte no peito.
Boa noite, Noah. Sua mãe já chegou em casa?
Enviou antes que a coragem desaparecesse. Apagou as luzes do consultório e saiu. Caminhou rápido até a garagem do hospital, mas sua mente não se afastava da mensagem. A ansiedade crescia a cada passo.
Ao entrar no carro, sentou-se devagar e apoiou a cabeça no volante. Com as mãos levemente trêmulas, pegou o celular. Quando viu a resposta, soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.
Boa noite, Henrique. Minha mãe já chegou em casa, sim. Obrigado pela preocupação. E você? Já chegou em casa?
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Henrique narrando:
Ao ler a mensagem que Noah mandara para mim, senti um alívio imediato. Era difícil explicar o efeito que aquilo tinha em mim. Bastava ele responder para que algo dentro do meu peito se acalmasse, como se o mundo diminuísse o volume por alguns segundos.
Um sorriso involuntário surgiu nos meus lábios, e respondi quase sem pensar:
Que bom que sua mãe já está em casa. Estou saindo do hospital agora. Obrigado pela preocupação também.
Enviei a mensagem, desliguei o celular e dei partida no carro. Eu não podia ficar muito tempo no estacionamento fora do horário de expediente — mas, sinceramente, se tomasse uma multa, não me importaria. Só o fato de Noah ter me respondido já fazia o meu dia inteiro valer a pena.
Esse menino mexia comigo de um jeito que eu não sabia explicar. Só existir já parecia motivo suficiente para me fazer sorrir.
Dirigi em silêncio até meu apartamento. As luzes dos prédios de Nova York ainda me fascinavam; eu gostava de observá-las enquanto dirigia, como se o mundo desacelerasse só para mim. Ao chegar, cumprimentei rapidamente o porteiro e entrei no elevador. Enquanto ele subia lentamente até o décimo andar, peguei o celular mais uma vez.
Espero que você tenha chegado bem em casa. Vou dormir agora, porque amanhã preciso sair com minha mãe para o mercado. Boa noite, Henrique.
Um sorriso leve e sincero se abriu no meu rosto.
Já cheguei em casa. Boa noite, Noah. Espero que amanhã seja um dia bom para você e sua mãe.
Guardei o celular, tirei os sapatos e as meias, fechei a porta e me joguei no sofá, tentando assimilar tudo o que tinha acontecido. Para outras pessoas, aquilo talvez fosse pouco. Para mim, significava muito. Aquelas breves conversas já eram mais do que suficientes.
Fechei os olhos e acabei lembrando dos meus relacionamentos antigos. O primeiro, ainda no colégio, com uma garota mais velha que se aproveitou da minha inexperiência — foi ali que percebi que não gostava de meninas. O segundo veio na faculdade, durou um ano e meio e terminou em traição. Depois disso, nunca mais me permiti algo sério, apenas encontros vazios e sem promessas.
Com Noah era diferente.
Com Noah, eu queria algo real. Algo calmo, construído com cuidado e paciência. Eu sentia, com uma certeza quase assustadora, que se não fosse com ele, talvez não fosse com mais ninguém.
Quando abri os olhos, já passava das nove da noite. Levantei para preparar um café e segui para o banheiro. A água fria levou um pouco do cansaço do dia, mas meus pensamentos insistiam em voltar para Noah — para o rosto bonito, o jeito tímido, a forma delicada de existir no mundo.
Depois do banho, vesti apenas uma calça de moletom, peguei o café e me sentei no sofá para assistir a alguma coisa antes de dormir.
Foi ali, no silêncio do meu apartamento, que a constatação veio com uma clareza quase dolorosa:
Eu estava completamente apaixonado pelo meu paciente.
E, mesmo sabendo que aquilo era errado, decidi que esperaria. O tempo que fosse necessário. Até que, talvez um dia, Noah sentisse algo por mim também.

