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Silent Love
Capítulo 1 – Silent Love
1635 palavras • 9538 caracteres • ⏱ 6 min 32 s

Capítulo 1 – Silent Love

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Por Noah Arantes


*Ele existia onde o mundo não podia ouvir, e eu aprendi a dançar no ritmo do seu silêncio.*


Hoje era mais uma consulta de rotina, mas meu corpo não deixava de ficar tenso. Cada passo que eu dava pelo consultório era acompanhado pelos meus olhos atentos: a luz do sol refletindo no piso, o leve balançar da cortina, o tilintar distante de alguma ferramenta que ninguém mais notaria. Tudo era perceptível, mas nada preenchia o vazio que carrego comigo desde que perdi a audição.


Quando Henrique entrou, algo em mim mudou. Ele sorria com uma calma que parecia envolver o espaço, como se nada pudesse abalar aquele instante.


— Bom dia, Noah. — observei os movimentos de sua boca, e não precisei de mais nada: seus olhos falavam tudo.


Aproximei-me devagar, os músculos tensos, a mão tremendo levemente. Ele fez um gesto simples, pedindo que eu me sentasse. Respondi com um aceno contido, tentando esconder a curiosidade que sentia. Sempre tento me mostrar forte, mas cada gesto dele me desconcerta de um jeito que eu não sei nomear.


— Hoje está se sentindo bem? — acompanhei seus lábios, enquanto se aproximava com um sorriso suave.


Não respondi com palavras. Apenas balancei a cabeça. Ele entendeu, como sempre parece entender.


A consulta começou, e senti o cuidado dele em cada movimento. Henrique explicava tudo antes de tocar, e eu prestava atenção em seus lábios, observando cada expressão, cada gesto. Não houve pressa, não houve julgamento. Apenas atenção. Apenas presença.


Quando ele precisava ajustar algo próximo à minha orelha, congelei. Lembrei do passado, da violência, do medo que carrego comigo. Ele percebeu meu desconforto, manteve a calma e fez um gesto simples: pediu permissão antes de tocar.


— Está seguro aqui. — escreveu em um bilhete, entregando-me delicadamente.


Li e senti meu peito acelerar sem entender direito o porquê.


No fim, quando estava prestes a sair, ele tocou minha mão. Um toque rápido, cuidadoso, quase tímido. Meu corpo reagiu sem aviso, e eu desviei o olhar, o rosto corando.


— Até a próxima, Noah. — acompanhei os lábios dele, ainda sorrindo, observando-me sair.


Saí do consultório sentindo algo que nunca senti antes: confusão, calor, curiosidade e medo, tudo misturado. Ele me observava, e eu sabia — mesmo sem ouvir — que algo havia mudado entre nós. Algo que poderia transformar cada rotina em algo mais intenso, mais vivo do que qualquer palavra poderia descrever.


Sair do consultório dele já com minha próxima sessão marcada. Minha mãe estava me esperando no corredor, lendo um livro tranquilamente.


Enquanto eu andava, pensava no meu laudo médico. Eu sou surdo neurossensorial profundo dos dois ouvidos por causa de um trauma. Não escuto nem trovão.


Estou em acompanhamento médico porque sou candidato futuro a um implante coclear, após ter estabilização clínica e exames complementares. Atualmente estou sem benefício com aparelhos auditivos convencionais.


Minha mãe nem percebeu que eu estava absorto em pensamentos — ela mergulhava no livro, seu rosto iluminado pelo corredor silencioso.


Segui andando lentamente, tentando organizar minha mente. Implante coclear. Exames. Consultas. Tudo parecia tão clínico.


Ao chegar em casa, fechei a porta devagar e encostei na madeira. O silêncio como sempre me acompanha, ingrato e íntimo, como uma sombra que nunca me deixou desde o trauma.


Encostei a testa na madeira e respirei fundo. Não queria pensar em Henrique, mas minha mente insistia em voltar para o consultório, para o cuidado dele, para a forma como percebeu meu medo antes mesmo de eu demonstrar.


Olhei para meu relógio e vi que já era 12h. Minha mãe provavelmente já tinha saído para trabalhar e deixado meu almoço na mesa. Abri novamente a porta do meu quarto e saí.


Desci as escadas com passos leves, a cabeça a mil ainda. Ao chegar na mesa de jantar, vi meu prato já posto e um bilhete ao lado dele.


"Coma tudo, meu bebê. Mamãe volta de noite. Eu te amo, meu príncipe."


Ao terminar de ler o bilhete, dei um leve sorriso. Minha mãe era a única pessoa no mundo em que eu confiava e amava verdadeiramente.


Ela preparou meu prato favorito: frango empanado com purê de batata e arroz branco. Eu salivei só de olhar.


Me sentei sozinho à mesa; o silêncio era minha única companhia. Comi minha refeição assistindo a um vídeo legendado no YouTube, minha forma de esquecer um pouco que estava sozinho em casa.


Terminei de almoçar e me levantei para lavar os pratos. Mas, ao olhar para a porta da frente, vi um homem. Quase infartei de susto.


Coloquei a louça na pia e me aproximei lentamente da porta, olhei pela greta e vi que era Henrique.


— Por que diabos ele estava na minha casa? — pensei.


Abri a porta lentamente e dei bom dia a ele em língua de sinais. Para minha surpresa, ele respondeu em língua de sinais também.


— Vim aqui para entregar seus exames que você e sua mãe esqueceram de pegar. — ele falou devagar, para que eu pudesse ler seus lábios com precisão.


Olhei para cima. Henrique era alto pra porra e tentei falar, mesmo depois de anos sem escutar minha própria voz.


— O… Obrigado, dr… nãum precisavam… se incomoda. — falei, com a voz falhando, errada, mas soando de um jeito fofo que eu não percebia.


Henrique corou levemente e franziu as sobrancelhas, não de impaciência, mas de atenção. Pelo movimento dos lábios, respondeu com calma:


— Não foi incômodo. E… por favor, me chame de Henrique.


Aquilo me deixou ainda mais desconcertado. Por quê? Para que tanta gentileza?


Ele estendeu o envelope com os exames. Minha mão tremeu ao pegar. Não era medo dele. Era o susto. A presença inesperada. O fato de ele estar ali, no meu espaço, na minha casa onde nada nunca acontece.


— O… obliglado, Henrique. — falei novamente, sem perceber que meu jeito errado fez ele corar.


Henrique olhou ao redor, como se quisesse garantir que estava tudo bem. Depois, fez um sinal simples:


— *Você está sozinho?*


Assenti.


O ar entre nós ficou estranho. Não pesado… só estranho. Minha casa sempre foi meu refúgio. Ver ele ali me deixava exposto demais.


Ele percebeu — claro que percebeu. Afrouxou os ombros, deu um sorriso quase desculpado e sinalizou:


— *Eu não deveria ter vindo sem avisar. Me desculpa.*

— *Só não queria que você voltasse ao hospital por causa disso.*


Respirei fundo, tentando não demonstrar a confusão dentro de mim.


— Tá… tulo bem… — falei, provavelmente errado de novo.


Henrique observou meu jeito de falar e não expressou pena. Nunca expressa.

Se tem uma coisa que admiro nele — e odeio admitir — é que ele nunca me olha como alguém quebrado.


Ele só olha. Sem dó. Sem pressa. Sem barulho.


Henrique tocou levemente meu ombro, provavelmente para chamar minha atenção. Eu me assustei pelo toque repentino.


Ele sinalizou:


— *Desculpa novamente, só queria perguntar se eu poderia ter seu número de WhatsApp.*


Fiquei sem reação por alguns segundos e sinalizei.


— *Pode sim. Espera um minuto que eu vou pegar meu celular.*


Ele assentiu levemente.


Peguei meu celular em cima da mesa, perto da pia, sentindo minhas mãos ainda trêmulas. Por que diabos eu estava assim? Não era medo… mas também não era confortável. Era como estar num lugar claro demais depois de muito tempo no escuro.


Entreguei o celular a Henrique, que digitou rápido, sem perder a calma. Depois mostrou a tela para mim:


"Esse é o meu número. Me avisa se tiver qualquer dúvida sobre os exames ou se sentir qualquer coisa estranha."


Assenti devagar.


Ele devolveu meu celular e, por um segundo, pareceu hesitar antes de falar. Os lábios dele se moveram devagar, do jeito que facilita para mim:


— Eu não deveria… mas fiquei preocupado com você depois da consulta.


Pisguei algumas vezes. A garganta apertou. Preocupado? Comigo?


Desviei o olhar, encarando o chão da varanda como se fosse a coisa mais interessante do mundo.


Henrique continuou:


— Desculpa se passei dos limites hoje. — Ele falava devagar, para eu acompanhar. — Você pareceu assustado quando toquei em você.


Minha respiração travou. E, claro, ele percebeu.


Assenti, pequeno, quase imperceptível. Não queria entrar nesse assunto. Não naquele momento. Não na porta da minha casa.


Henrique deve ter entendido, porque mudou o peso do corpo, ajeitou a postura e deu um sorriso calmo — aquele sorriso que é pior que qualquer barulho do mundo, porque me desmonta sem piedade.


— *Eu já vou indo.* — Ele sinalizou e falou: — Obrigado por me receber.


Não sabia como responder, apenas acenei com a cabeça. Ele deu alguns passos para trás, descendo um degrau da varanda, mas então parou.


Virou de lado e sinalizou:


— *Noah… se sentir desconforto, me manda mensagem. A qualquer hora. Não precisa ter vergonha.*


Meu peito apertou de novo. Vergonha é a única coisa que eu sei sentir direito ultimamente.


Assenti de novo.


Henrique me olhou por mais um segundo — um segundo longo demais — e então se virou completamente, caminhando até o carro.


Quando ele desapareceu na rua, fechei a porta com cuidado e encostei as costas nela. Senti cada batida do meu coração como se estivesse preso dentro da minha garganta.


Por quê? Por que ele me olha assim? Por que eu sinto isso?


Corri a mão pelos cabelos, tentando respirar fundo, tentando voltar a mim.


Mas o pior é que… eu não sabia se queria que voltasse.


Meu celular vibrou na minha mão. Quase deixei cair de susto. Era uma mensagem.


Henrique:

"Se precisar, estou por aqui. Boa tarde, Noah. 🌿"


Encarei aquela mensagem por longos segundos.


Meu mundo é silêncio.

Mas ele… de alguma forma… atravessa esse silêncio sem fazer nenhum barulho.


E isso me assusta mais do que qualquer som que eu nunca mais vou ouvir.

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