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Enquanto caminhava pelas trilhas sombrias, Samuel sentia as palavras de Varnor reverberarem em sua mente como um eco interminável.
"Os caçadores estão procurando algo ou alguém... Mas quem? Não faz sentido ser eu. Eles já sabem onde estou. Então, qual é o verdadeiro objetivo deles?"
A inquietação fazia seu coração bater mais rápido, mas sua postura permanecia firme. Ele sabia que precisava manter a calma. Ainda assim, cada passo o aproximava de mais perguntas do que respostas. Talvez o prisioneiro tivesse algo a revelar, algo que pudesse finalmente fazer sentido.
Ao chegar à entrada da caverna onde o infiltrado estava preso, foi recebido por dois guardas robustos. Suas expressões eram de pura desconfiança.
— Um humano? — questionou um deles, franzindo a testa. — O que veio fazer aqui?
— Vim ver o prisioneiro — respondeu Samuel, com sua voz firme e inabalável.
O primeiro guarda olhou para ele com ceticismo.
— Eu acho que você não tem autorização pa-
Antes que ele terminasse, o segundo guarda inclinou-se e sussurrou algo em seu ouvido. O primeiro hesitou, mas acabou assentindo.
— Pode entrar. Vou levá-lo até ele.
Havia algo errado naquela troca. Samuel sentiu a tensão no ar, mas decidiu ignorar. Seu foco estava no prisioneiro e no que ele poderia descobrir.
— Siga-me - disse o guarda, conduzindo-o por um corredor de pedras úmidas e escuras.
A caverna parecia cada vez mais opressiva à medida que avançavam. O som dos passos ecoava, criando uma atmosfera densa e carregada. Por fim, chegaram a uma área iluminada por tochas, e no canto mais afastado estava uma cela de ferro reforçada.
Dentro, o prisioneiro: um lobo de pelagem escura e olhos que pareciam refletir toda a escuridão daquele lugar. Ele estava encostado contra a parede, mas levantou a cabeça assim que viu Samuel.
— Então... você veio até mim? — murmurou o lobo, sua voz carregada de desdém. — Veio me confrontar pelo que fiz? Se quer saber, me arrependo de não ter acabado com você quando tive a chance.
Samuel permaneceu impassível, cruzando os braços.
— Não vim para brigar. Quero entender por que você, um lobo, escolheu lutar contra sua própria espécie.
O prisioneiro soltou uma risada amarga, seus dentes brilhando à luz da tocha.
— Você acha que vai me convencer a mudar de lado? Que ingenuidade. Vocês arruinaram minha vida. Vocês... todos vocês... vão pagar por isso.
Samuel estreitou os olhos, intrigado.
— Arruinaram sua vida? Do que está falando?
O lobo inclinou-se para frente, suas garras arranhando o chão de pedra.
— Estou falando dos caçadores, que me deram algo que vocês tiraram. Eles me deram um propósito. Vocês são os monstros desta história, não eles.
Samuel ficou em silêncio por um momento. Então, a verdade se revelou em sua mente: aquele lobo era um dos muitos filhotes capturados durante os ataques. Jovens demais para entender o que havia acontecido, eles foram moldados pelos caçadores, treinados para acreditar que seus próprios eram os verdadeiros vilões.
— Eles te manipularam — disse Samuel calmamente. — Fizeram você acreditar em mentiras.
— Cale-se! — rosnou o lobo, seus olhos cheios de fúria. — Não confio em você, humano. Faça o que quiser comigo, mas eu não vou falar nada!
Samuel respirou fundo, sua expressão suavizando. Ele abriu a palma da mão, e uma esfera de luz dourada começou a brilhar, flutuando levemente.
— Não precisa confiar em mim. Mas talvez confie nas palavras dela.
O lobo arregalou os olhos, confuso.
— Dela? De quem está falando?
A esfera brilhou intensamente antes de flutuar para dentro da cela. Ela pairou diante do lobo, que hesitou, mas não conseguiu desviar o olhar. Quando a luz tocou seu rosto, o ambiente ao redor desapareceu.
Ele se viu em um lugar familiar: uma toca quente e segura. Uma loba de olhos gentis estava deitada ao seu lado, aquecendo-o com o corpo.
— Bom dia, meu filhote — disse ela, sua voz doce e tranquilizadora. — Dormiu bem?
Ele tentou responder, mas sentiu um nó na garganta. Era sua mãe. Ela o olhava com um sorriso carinhoso, lambendo suavemente seu pelo.
— Vai ficar tudo bem. Estou aqui com você.
Mas a cena mudou abruptamente. Ele estava novamente na mesma toca, mas agora tudo estava errado. Sua mãe estava assustada, e um lobo adulto entrou correndo, era seu pai.
— Eles estão vindo! Precisamos sair agora!
Os caçadores invadiram. Seu pai tentou lutar, mas foi abatido diante de seus olhos. Sua mãe o protegeu como pôde, mas foi ferida e caiu, observando com lágrimas enquanto ele era levado.
— Por favor... não... — sussurrou ela antes de ser silenciada para sempre.
O filhote foi colocado em uma gaiola, junto com outros. Ele olhou para trás, vendo o corpo de sua mãe pela última vez.
De volta à cela, o lobo abriu os olhos, seu rosto molhado de lágrimas.
— Não... isso não pode ser verdade... — sussurrou.
Samuel aproximou-se, sua postura firme, mas sua voz carregava um tom de compreensão.
— Você não teve culpa. Era apenas um filhote, jovem demais para entender o que estava acontecendo ao seu redor. Mas agora você tem uma escolha. Pode mudar tudo isso.
O lobo baixou a cabeça, seus olhos reluzindo à luz fraca da tocha.
— Eu... matei tantos da minha espécie. Fiz coisas horríveis acreditando que estava fazendo o certo...
— Matar nunca foi e nunca será o caminho certo - retrucou Samuel, sua voz carregada de intensidade. — Mas se redimir pelo que fez é. Ainda há tempo para ajudar aqueles que realmente precisam de você.
O lobo levantou o olhar, a dor e a dúvida em sua expressão agora dividindo espaço com algo mais. Determinação.
— Eles... Eles me usaram, me manipularam. Fizeram de mim uma arma. Eles vão pagar por isso.
— Chega de mortes e vingança — Samuel interrompeu, sua voz cortando como uma lâmina suave. — Está na hora de fazer o que é certo.
O lobo permaneceu em silêncio por um momento, lutando contra a tempestade de emoções dentro de si. Finalmente, ele respirou fundo e encarou Samuel.
— E o que você quer que eu faça?
— Quero que me ajude a salvar mais lobos como você. Juntos, podemos acabar com esse ciclo de dor e engano.
O lobo hesitou, mas acabou balançando a cabeça em concordância.
— Como eu vou sair daqui? Não acho que seus amigos vão confiar em mim.
Samuel soltou um leve sorriso, frio e confiante.
— Eles não precisam saber disso.
Erguendo a mão, Samuel concentrou-se. Uma leve luz azul irradiou de seus dedos e, com um estalo, as barras da cela se romperam, dobrando como se fossem de papel.
O lobo observou, incrédulo.
— Eu não sabia que um humano além do nosso líder... — Ele parou, corrigindo-se rapidamente. — Me desculpe, é o costume... pudesse usar poderes.
Samuel deu de ombros, seus olhos brilhando com uma determinação inabalável.
— O que ele tem de maldade, eu tenho de esperança. Agora, vamos.
Sem mais uma palavra, os dois saíram da cela, deixando para trás as sombras de culpa e dor que haviam aprisionado o lobo por tanto tempo.
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